Os vagões da linha 777

Quando deu por si, estava de pé em uma estação de trem. Seu corpo estava dormente, mas ainda era possível senti-lo. Percebeu que estava ao lado de pessoas de todos os tipos com aquele estranho espectro esbranquiçado que emana a alma humana. Sabia disso porque pôde notar outras vezes quando teve contato com alguns parentes que haviam morrido.

Pelo que percebeu das longas filas que se formavam até onde a vista alcançava, ele não estava na matéria, mesmo que fosse estranho estar como matéria no mundo dos espíritos. Isso nunca foi menos assustador, mesmo depois de tanto tempo tentando trabalhar sua mediunidade. De toda forma, estava estranhamente confortável, talvez conseguisse agir naturalmente por saber que a vida pós-morte era real.

Descobriu sua vidência ainda cedo, quando via seu bisavô sentado na velha cadeira de balanço na sala. Nunca foi algo nítido, mas quando passava pela porta em direção à cozinha o via de relance e quando voltava a focar os olhos via somente a cadeira se balançando.

Sua mãe, uma kardecista, dizia ser ‘normal’ e que, mais cedo ou mais tarde, este mundo se revelaria. Sempre com um sorriso no rosto enfatizava que era preciso maturidade para entendê-lo. Quisera fosse fácil agir com naturalidade ao acordar de madrugada e ver sua tia, morta há alguns dias, aparecer sentada na beirada de sua cama, olhando-o. Foi um susto tão grande que saiu correndo pelos corredores a ouvindo dizer “não se assuste, meu querido”.

Depois disso passou a dormir na sala, mas não foi diferente. Sempre que alguém se aproximava de sua rede o fazia despertar, mas não tinha coragem de se desembrulhar do cobertor para ver quem estava de pé ao seu lado. Apenas preferiu — mesmo que sua mãe tenha dito para não ter medo deles— não arriscar desmaiar ou enfartar de medo.

Certo dia acordou de madrugada e sentiu novamente a presença, desta vez distante de sua rede, e decidiu seguir as orientações de sua mãe ao perguntar o que ele queria. — Estou enlouquecendo! – Balbuciou, enquanto olhava pela brecha do lençol.
No quarto onde sua mãe dormia, não havia porta e, encostado no portal, viu um homem alto e largo, com a mão no paletó, que observava sua mãe dormir.

Chegou a perguntar, com a voz trêmula, o que ele queria, mas a estranha figura branca se desfez diante de seus olhos. Alguns anos depois, descobriu nas coisas de sua mãe uma foto de seu pai, que havia falecido nos primeiros anos após seu nascimento, com o mesmo paletó e a mesma aparência. Sua mãe lhe explicou que por algum motivo ele ainda não tinha ido embora da terra.

“São apenas memórias” — pensou enquanto caminhava pela estação, tentando reconhecer o local. Era tudo tão real. Não sabia como tinha ido parar ali, mas pelo que sua sábia mãe lhe contava, as viagens astrais eram assim, e que logo ‘acordaria do transe’, provavelmente na mesma praça onde sentou no banco para fumar um cigarro.

Caminhou até a última parada quando o apito do trem rompeu o silêncio. Lá do fundo pôde vê-lo se aproximando, gigantesco e imponente. Despejando no ar uma grossa camada de fumaça vermelha que se estendia cobrindo os sete vagões de ferro fundido.

Todos se levantaram ainda sem esboçar nenhuma mudança no semblante. Quando o trem parou e as portas se abriram, rapidamente entraram, e estando no meio deles foi levado pela multidão. Tentou escapar, mas eram tão fortes e amontoados que o carregaram para o último vagão do trem.

O trem partiu, e tendo a ciência que seu corpo não pertencia à viagem daquelas almas, tinha que, o quanto antes, chegar à cabine do maquinista e pedir para que ele parasse o trem que ganhava velocidade. Apitava sete vezes, depois mais sete, e o ranger do ferro se suavizava sendo trocado pelo ruído característico do percorrer da roda nos trilhos.

Ao situar-se, notou como o último vagão era festeiro, parecia ser o mais pesado também. Várias pessoas exorbitantemente gordas se empanturravam de doces e comidas. Comiam compulsivamente e olhavam-no como se fossem devorá-lo. Alguns vomitavam e — não compreendia tamanha ferocidade — voltavam a comer junto ao vômito. Passando cuidadosamente entre as banhas de homens e mulheres que comiam como porcos, enchendo as mãos de comida e engolindo sem mastigar, seguiu para o próximo vagão.

Logo ao ser notado, um homem escondeu todos os relógios de pulso que tinha, e levantou a gola da camisa para disfarçar os vários colares de ouro e prata. Tinha o corpo curvado e seu pescoço sangrava devido ao peso excessivo. Outro, pálido, contava um bolo de dinheiro dentro de uma das várias maletas abarrotadas de cédulas. Uma mulher, muito bonita e bem vestida, escondeu suas mãos com anéis de brilhantes que ocupavam todos os espaços dos dedos inchados e roxos. Foi caminhando entre eles espantado com a quantidade de riqueza que possuíam e mesmo sem entender tal mesquinhez, passou para o outro vagão.

No quinto vagão, uma mulher tentou tirar sua roupa enquanto um homem a penetrava por trás, seguido de outro homem a penetrá-lo. Outros homens e mulheres se masturbavam ao ver a cena. Velhos e jovens se promiscuíam diante dele que correu para não ser atacado. Uma mulher transava com quatro homens como em um emaranhado de cobras em seu frenético acasalamento. Passou rapidamente entre todos que se sodomizavam com os mais estranhos objetos. Agora, pela primeira vez, se viu chocado e preocupado com o que poderia encontrar pela frente.

Por pior que fosse, ao entrar no próximo vagão, foi recebido com um forte soco na barriga e foram direcionadas várias palavras de profundo ódio. Enquanto tentava se recompor, as pessoas em volta brigavam e se cuspiam, mostravam os dentes, se esmurravam e quebravam tudo ao seu redor. Distribuiu alguns socos, o que possibilitou que ele conseguisse passar pelo meio da confusão, e ao sair, desviou de uma cadeira que foi arremessada em sua direção antes de atravessar para o próximo vagão.

Mesmo que não fosse vantajoso exibir um hematoma roxo, uma mulher se aproximou, no outro vagão que acabara de entrar, e lhe ofereceu gelo enquanto elogiava seu hematoma. Estranhamente não conseguia tirar os olhos dele. Em um surto, começou a chocar a cabeça contra a parede de ferro tentando conseguir o mesmo hematoma, entrando em desespero ao não conseguir. E todos então, se chocavam contra a parede para ter aquele hematoma roxo. — Por que você tem e eu não? — Repetiam para ele, que saiu assustado sorrateiramente sabendo que o último vagão estava próximo, e que logo ele esclareceria toda aquela confusão.

No penúltimo vagão pôde descansar. — Meu Deus o que acontecera? Onde aquela viagem iria acabar? Será que o maquinista — seja ele quem for — não se importava com a situação deplorável daquelas pessoas? Por que ele não acordava daquele pesadelo espiritual? O que aconteceu com meu corpo abandonado na praça? — Eram os pensamentos que rodeavam sua cabeça atordoada.

Neste vagão, as pessoas estavam deitadas em um estado de sonolência e letargia absurda. O vagão tinha TVs, sons, bebidas, comidas, mas nada acontecia porque ninguém queria sair de seu canto confortável para pegar qualquer coisa à disposição. Todos apáticos e inertes. Profundamente tristes e petrificados. Tendo conseguido descansar um pouco e recuperar o fôlego perdido nos outros vagões, caminhou ao sétimo.

Ao entrar no último vagão, antes da casa das máquinas, se protegeu como pôde, por não saber o que esperar. Existia uma estranha calma e as pessoas mantinham distância uma das outras. Todas elas carregavam um saco enorme com o nome “ego” escrito. Todos mantinham seus narizes empinados, não conversavam porque julgavam serem uns mais importantes que os outros, mas a essa altura do campeonato não queria mais saber de condolências, apenas queria abrir a porta do maquinista e pedir para ele parar.

Entretanto, à medida que caminhava cauteloso, — para seu desespero — viu que não havia nenhuma porta. Apenas as marcas de ferro soldado a maçarico. Enquanto dirigia-se à cabine do maquinista percebeu que naquele vagão havia um canto que não tinha sido preenchido. A cadeira estava ocupada apenas por um dos sacos pretos com os dizeres “ego”, ao lado de um homem alto e de terno.

Ao se aproximar reconheceu que aquele era o mesmo homem que estava a olhar para sua mãe naquela madrugada assustadora de sua infância, o mesmo homem que encontrou nas fotos guardadas por tantos anos em um baú de lembranças.

Um frio lhe correu a espinha ao ver que o homem olhou nos seus olhos e esticou o braço para lhe dar um bilhete de passagem do trem, com seu nome escrito, data, hora e o número da sétima cadeira.

Ao pegar o bilhete notou pela primeira vez que seu braço, assim como seu corpo, também emanava o mesmo espectro esbranquiçado do qual sabia, e agora entendia o porquê de estar assim.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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