MyWorld

Sentou-se em sua poltrona de couro próximo à janela e ordenou com um gesto do dedo que ela reclinasse. Acomodou-se enquanto ela iniciava um vibrar leve, relaxando a musculatura das costas que não estavam cansadas, nem tensas, mas adorava a vibração que seguia da lombar à nuca. De fato, não faziam mais poltronas daquela forma.

Usava um roupão de seda e pantufas de algodão, surrados, mas prazerosamente acomodados a seu corpo. Observava a grama, seu cachorro Flôfi rosnar para o regador e seus filhos brincarem em um campinho de futebol construído por ele. Viu o mais velho marcar mais de 50 gols, todos comemorados com um sorriso no canto da boca.

Eram dez horas da manhã e há pouco acordara. Sua esposa aparecia a cada trinta minutos, com seus longos cabelos escuros e o olhar marcante, perguntando se ele queria mais café. Encerrava sua atenção dispensada com um “eu te amo” dito do jeito que só ela sabe. Ali era um felizardo. Aos 30 anos, tinha tudo que muitas pessoas jamais conseguiriam até o final de suas vidas.

Isso porquê soube mesclar as necessidades da vida cotidiana — o que muitos antropólogos e psicólogos consideravam como o mal da era moderna — com a tecnologia, criando o MyWorld: um mundo virtual onde tudo era possível ser revivido, de forma sensorial, por meio de uma simples fotografia.

Ao carregar a foto de um parque ou uma praça, o usuário, por um tempo pré-programado, poderia sentir a grama nos pés se quisesse por ela caminhar, assim como o cheiro das flores se quisesse cheirá-las. Apresentou àquele mundo instantâneo, imediatista e frenético uma nova forma de viver.

O único limite que sua invenção impunha era que nada além do ambiente fotografado poderia ser recriado. Só era possível revivenciar uma foto de cada vez, sem ser possível construir uma história em cima daquele momento. Se a foto fosse de um campo, ele estaria nele apenas. Se fosse de um jantar, também estaria nele apenas. Se fosse um pôr do sol, o veria várias vezes até que desistisse e fosse vivenciar outra fotolembrança.

Mesmo com tais limitações foi um sucesso, afinal, quem não tinha um celular nas mãos? Com o avanço tecnológico da produção de imagens digitais geradas a partir de dispositivos portáteis, com qualidade cada vez superior, e a possibilidade do armazenamento infindável, as pessoas incansavelmente adotaram o hábito da fotografia ou da Self.

Refeições, viagens, ocasiões especiais, envoltas nessa compulsividade de registar. E no final das contas, ao ver posteriormente as imagens, confortavam-se com a felicidade da lembrança de algo que não foi vivido de fato.

Aos montes, o software saiu das prateleiras levado por pessoas ansiosas em preencher as lacunas que existiam em suas memórias. Em pouco tempo, Eliphas ganhara os píncaros da glória. Estava em todos os jornais, em todas as revistas, em todas as casas.

Enquanto saboreava seu café meio amargo lembrou-se do convite inusitado que recebeu de um dos homens mais poderosos do mundo. Amahad Tulipa pediu para que comparecesse às pressas em sua mansão construída sobre o gelo do Polo Sul.

Ao chegar, foi convidado para a sala onde havia a última versão do MyWorld e os dois puderam reviver um momento único da vida de Amahad, belo e trágico: O nascimento do primeiro filho e a morte da esposa Judite no parto.

Amahad Tulipa contou que na época, enquanto a criança nascia, Judite estendeu a mão para segurar a dele que naquele momento estava ocupada fotografando o parto. Só parou com os cliques quando a mão de sua amada caiu bruscamente junto com sua pressão e instantes depois estava morta na maca. A foto era exatamente essa: Judite com a mão estendida, seu rosto vermelho e seu filho recém-nascido chorando.

Amahad, ao terminar de explicar o acontecido, linkou a foto no software transportando-os para aquele dia fatídico. Mesmo que Judite não pudesse lhe dizer nada, Amahad ficava ali, segurando a sua mão dizendo que a amava. Sentindo a textura macia de sua pele que costumava acariciar sua barba nas noites de intenso frio.

Pôde voltar aquele momento e olhar em seus olhos ainda com vida. Ver seu rosto vermelho, olhos lacrimejados e o semblante da mais pura felicidade.

Ao terminar o acesso desta fotolembrança junto Eliphas, Amahad desabou em lágrimas abraçando-o. Graças a ele pôde segurar a mão de sua esposa e logo depois pegar seu filho nos braços. Tocou a mão dela incontáveis vezes, segurou seu filho no colo outras incontáveis vezes e o faria até a morte.

Aquilo o emocionou também. Sentiu um misto de tristeza e satisfação. Tristeza óbvia, mas confortada por ser a pessoa que pôde viabilizar aquele momento para o pobre infeliz, mesmo que depois Tulipa tenha lhe dito que…

— Amor, quer mais café? — Sua esposa interrompeu seu raciocínio e o silêncio.

— Não, meu amor. — Respondeu Eliphas, sorrindo.

— Tudo bem. Eu te amo.

Viu mais um gol de seu filho, deixou Amahad para trás, e pensou em como aquele garoto estava incrivelmente astuto naquele dia. Encontrou outra posição mais confortável na cadeira e fechou os olhos.


Os principais jornais pelo mundo informaram:

“Eliphas Abmael, o criador do MyWolrd, é encontrado morto em seu escritório. ”

“Eliphas Abmael levou a tecnologia com ele? Quais serão os avanços da MyWolrd Company?”

“O conceituado criador do MyWolrd, Eliphas Abmael, está morto!”

“Perdemos o pai da tecnologia moderna, Eliphas Abmael.”

E o principal jornal trouxe na capa:

“Aos 105 anos morre Eliphas Abmael o criador do MyWorld”
Noiro Amil, julho, Jornal Digital – Retrô – Edição: 179689

No escritório foi encontrado apenas o necessário: uma cadeira, o birô e o aparelho que conectava as fotografias ao MyWorld. Havia uma seleção de 100 fotos, grande parte delas dos filhos e da esposa, mortos prematuramente em um acidente envolvendo o carro da família e um motorista que usava seu smarthphone enquanto dirigia.

O aparelho ligado exibia por um tempo prolongado a penúltima foto, a de um dos momentos mais obscuros da vida do inventor: a visita que fez a Amahad Tulipa, o homem mais rico do mundo, no ano de 2420. Não se sabe para que o magnata o chamou, mas as informações que saíram em todos os jornais é que ele havia sido advertido sobre o que tinha criado.

A última foto era de um Natal. Eliphas tinha 30 anos e estava com Birdie, o primeiro e único amor de sua vida. Ela aparece como uma imagem borrada, saindo pela porta como quem lhe perguntava algo. Eliphas focou na sua velha poltrona que herdou de seu pai e em seus filhos que jogavam bola.

Sobre a mesa, também fora encontrada uma carta que, segundo a perícia, foi escrita pelo inventor:

“Amahad Tulipa estava certo. Evoluímos para algo que não podemos mais controlar. Talvez, na época em que desenvolvi o MyWorld, tivesse a melhor das intenções, mas fiz sem lembrar das palavras de meu sábio pai que falava algo sobre o inferno estar cheio delas. O que eu fiz, agora vejo com clareza, foi condicionar mais ainda a situação doente em que as pessoas se encontravam.

Ninguém estava mais preocupado em vivenciar os momentos, e o que veio para ajudar nos tornou escravos. Vi homens pagando pessoas para fotografar a formatura do filho, ou entrando em profunda depressão por vivenciar uma realidade que jamais seria a dele. Foram inúmeros os suicídios, inclusive o de Amahad, que sumiu nas geleiras certo dia pela manhã. Ele me avisou que não aguentaria.

Meu mundo criado com tanto carinho me traiu. De todas as formas tentei, mas não consegui recriar o momento presente. Simplesmente porquê o presente nada mais é do que uma fração de segundos, e o que sentimos no presente é algo tão subjetivo e espontâneo que não importa de qual sentimento falamos, logo ele será substituído por saudade.

Tulipa me mostrou que com o tempo a saudade vira culpa. Viveríamos tantas vezes aquela ilusão que não nos permitiríamos aceitar que deixamos todas as possibilidades escaparem diante dos olhos, diante dos cliques incessantes de uma máquina de fotografar. Fotografamos saudade.

Deixei escapar este momento de aceitar mais uma xícara de café, a última que minha esposa serviria, perdi o momento de jogar bola com meus filhos, de fazer o último gol com eles, por estar preocupado em fotografar. Uma foto estranha com o vulto de minha amada e um gol que nunca saiu no enquadramento.

Peço desculpas por tal crueldade, infelizmente estou velho demais para reverter o erro. Uma vida para perceber que momentos podem se repetir, mas que a intensidade do que se viveu, ficará somente na memória. E visto que, por velhice, minha hora se aproxima, fico enfrentando a saudade em minha última lembrança de um dia feliz.”

Eliphas Abmail

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: