Terminal

“Bom dia pessoal, desculpe atrapalhar o silêncio da viagem de vocês. Eu me encontro-me aqui, vendeno caramelos de todo sabor. Tem de maçã verde, de uva e iorgute. Eu tô aqui porque preciso ajudar minha família, então peço a colaboração de vocês, boa viagem e fiquem com Deus!”

As mãos encardidas seguravam a caixinha com caramelos de todos os sabores, embora os únicos sabores que tinha fossem uva, maçã verde e iogurte. Chegou de mansinho, logo aprontou o olhar sofrido e entoou seu discurso, cantou cada palavra dita exaustivamente durante todo o dia como um padre no cântico de domingo.

Pensou que Deus o esqueceu e contra vontade passou a ser fiel à fome, à sede. Quem intercedeu por ele? Quase ninguém! Poucos tiraram dos bolsos as moedas de dez ou de cinco centavos e se quer o olharam no olho, sentiram sua fome, seu o medo, sua solidão, o desabrigo das madrugadas, os perigos, a ausência de um pai, de uma mãe ou de qualquer pessoa que fosse por ele. Quem intercedeu? Quase ninguém.

Fitou os olhos dos que não o ignoraram e agradeceu. Ninguém sabia se tinha nome ou história. Não tinha nada além de caixinhas com caramelos de todos os sabores, que só eram três. Correu ao se aproximar um fiscal e veio para nossa fila, de mansinho aprontou o olhar de lamento e entoou o discurso pronto, cantou seu discurso como um padre cansado no cântico de domingo.

Embora soubesse que esse seria apenas mais um dia da rotina daquele pobre garoto e de tantos outros que estão pelos terminais, entre o que restou da dignidade de um idoso abandonado, de um aleijado desamparado, de um aidético sem pensão, da mãe com o filho doente e tantos outros que usam dali como sustento de sua sub-existência, estava eu esperando o ônibus chegar.

Nas plataformas principais, os fiscais junto à Guarda Municipal ainda conseguem tanger essa parcela marginal da população para não sujar — mais ainda — a visibilidade do local. Nada mais apropriado do que este nome: terminal, já que ali vivem à espera do transporte que o levará à paz prometida, uma passagem cara e árdua que ninguém deseja para si. Sobrevivem dos restos e da caridade de quem ainda acredita que a miséria não é uma escolha.

Enquanto isso um homem revira o lixo, acha um copo de suco (creio eu) pela metade. Cheira-o, toma-o sem esboçar nenhum receio. Quando muitos evitam beber a água do bebedouro disponível aos passageiros, ele está ali a se alimentar dos restos. A se identificar com os restos.

Ajeita a blusa e exibe suas costelas e cicatrizes, percebeu que eu o observava e gesticulou com o dedo do meio de forma ofensiva. Aproximou-se dizendo “quem é você pra me julgar? É Deus?” e saiu balbuciando suas palavras de ódio e desespero. Mesmo que tenha me assustado e me prevenido de uma possível agressão física fiquei parado observando seu corpo fino como uma folha de coqueiro ao vento andando vagarosamente e descoordenado procurando a próxima lixeira.

À minha frente, um senhor de certa idade defende ao ver a cena que tem que haver uma ação urgente para tirar os pedintes dos terminais para termos paz, mas continuo em silêncio e não prolongo a conversa. Retirá-los seria apenas uma medida que mascara os problemas da sociedade. É assim que é feito desde os primórdios quando a capital junto a elite se instalou e empurrou dos centros o máximo que pode da pobreza, deixando as pessoas nas margens, amontoados em casas pequenas. E aqueles que nem isso conseguiram, nem mesmo montar sua casa de madeira e papelão, são os mesmos que estão pedindo esmolas nas ruas e terminais.

Mal sabia aquele homem que o seu pensamento que defendia com tanta veemência seria uma das causas principais deles estarem ali. Marginalizados, esquecidos, rechaçados.

Outra mulher se prontificou a dizer que isso era falta do que fazer, que deveriam procurar emprego, nem que fosse de catador de sucata. Provavelmente pela sua “fala clara” e pelas vestes, a mulher parecia ter tido uma boa criação, mas o garoto que vendia caramelos de todos os sabores me fez lembrar Lindoberto, “Pito” como o chamávamos.

Pito passou grande parte da sua infância brincando entre os ônibus nos terminais. Nas oportunidades que sentava com alguém que o alimentava, contava sua triste história. Seu pai era alcoólatra, batia na mãe e foi morto na mesa de um bar com um gargalo quebrado enterrado em sua garganta. Sua mãe, sem condição de manter a casa, foi despejada com ele ainda pequeno e foram parar nos parentes, nas ruas e por fim nos terminais onde era mais seguro.

De lá, Pito passou a vender pastilhas e chicletes junto com sua mãe que um dia sumiu sem se despedir. Não o procurou mais.

Quais eram então as referências daquele garoto? Um homem trabalhador que o amava e amava sua esposa? Não. Suas referências eram os gritos da mãe, o choro ao ser despejada, o enterro sem velório, as palavras de amor que nunca saíram da boca do pai e nenhuma oportunidade de dizer que o amava, não porque não o amava, mas porque ele nunca estava sóbrio para olhar nos olhos do filho sem perder a paciência e açoitá-lo.

E mesmo que tentasse, sem educação, história ou alguém que nele acreditasse, seu futuro não seria diferente. “Ou pedir ou roubar” disse-me, e preferiu pedir. Sua história estava sendo escrita ali, naquelas colunas cinzas que sustentaram seu cansaço e nos bancos que lhe serviam de cama na madrugada. Criei um vínculo com aquele garoto, e todos os dias quando vinha eu comprava pastilhas, ele agradecia e perguntava como foi meu dia.

Mantive esse hábito até que um dia passei de taxi numa rua próxima ao terminal, quase às 3 da manhã e o taxista desacelerou para passar num quebra-molas feito pela comunidade local. Logo à minha frente estava ele, fumando crack junto a outros tantos. Baixei a janela e gritei por seu apelido, ele me olhou e saiu correndo. Nos dias seguintes ele não veio mais.

Apareceu quase um mês depois e tudo que havia de criança nele havia sumido. Suas mãos vazias dessa vez só pediam. Não havia cântico, não havia nada. Passou por mim e me encarou com um olhar cinza, tão sem cor como a própria falta de esperança, eu não o reconheci.

Não me pediu nada, passou direto por mim e por todas as filas.

Meses se passaram e não havia mais sinais daquela criança. Na mesma rua onde se drogava foi encontrado morto. Magro, sem cabelos e deitado em posição fetal.

A tristeza tomou conta de mim e sem perceber fiquei emocionado, com o olhar perdido. Os dois que me levaram a essa viagem nas lembranças olhavam para mim perguntando se eu estava bem. Fechei a cara e calado continuei.

Em poucos instantes aquele garoto terminou a sua fala, já o tinha visto por várias vezes ali, pequenino, pedindo esmolas, e hoje, rapazinho ainda continua com este fardo.

Estava numa grande encruzilhada emocional: não sabia se dava esmola ou se não dava. Só queria a todo custo sair daquele local, de pessoas cansadas, doentes, miseráveis. Não porque eu era melhor que aquilo, mas porque quando se olha nos olhos da falência a mesma toma conta de você e não há como fugir.

Entro no ônibus e deixo minha inquietação na mente, remoendo por todo o caminho, lembrando de Pito e de tantos outros anônimos em situações parecidas, que estão nos terminais à procura de algo melhor, porque metade de alguma coisa ainda é melhor que nada de alguma coisa. Questionando-me se um dia a caixinha de caramelos de todos os sabores em suas mãos dará lugar a um lápis, um caderno, um prato de comida, uma junção em oração agradecendo a Deus pela oportunidade de viver de forma mais digna, ou se suas mãos segurarão a arma, o cachimbo e serão presas por algemas militares.

O quanto é cruel um futuro entoando o discurso capitalista que diz serem dadas a todos as mesmas oportunidades sem considerar que o homem não é somente altruísmo e sim que existem inúmeros fatores sociais, familiares, geográficos que condicionam aquelas pessoas a estarem naquela situação degradante.

E embora não tenha me despedido de Pito, ao comprar dois caramelos daquele menino, vi em seu rosto um sorriso largo de criança e o desejei boa sorte, coisa que queria ter dito a Pito antes dele pegar o seu ônibus para a eternidade.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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