A reflexão da despedida

Repetia em sua mente as palavras de Charles Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.”, e andando vagarosamente, previsto que seu tempo acabou, mudou seu rumo para onde tinha sido sua casa nos últimos meses.

Chegando ao bar, retira as cadeiras que estão rodeando a mesa deixando apenas a que serviria para seu uso. Não queria companhia. Nem mesmo a dos velhos amigos de copo que o tempo rompeu os ombros e inclinou-os ao chão. Um por um vencido e devedores de alguns anos à morte. Ele também se via assim. Por mais que nos outros dias lhe levasse às mais profundas gargalhadas, hoje não.

Pediu a primeira cerveja e não permitiu que o garçom o servisse. Serviu-se como gosta: copo americano cheio com colarinho. Segurou o copo com a mão trêmula e brindou com a garrafa para que nunca lhe falte à cerveja, que não lhe falte piedade e nem fé no novo caminho a seguir.

Talvez esse fosse mesmo o momento mais oportuno para se apegar a fé. — Quem seria o santo dos bêbados e moribundos? — Se perguntou enquanto entornava o copo. — Não há necessidade de fé se não se sabe ao certo para onde vai. — Concluiu frustrado.

Estar sempre embriagado foi o que lhe trouxe a esperança, não da vida, mas de que as dores e os pensamentos cessariam. O tempo passou diante dos olhos e tudo pouco a pouco foi se perdendo enquanto estava bêbado demais, bêbado a ponto de não sentir as coisas saírem do lugar e a vida escapar entre os dedos.

De fato, nada que se pregava como verdade vingou. Talvez fiquem apenas as lembranças de histórias bem vividas. Sim, pode dizer que foram bem vividas. Pensou na condição que o fez tomar o primeiro gole e nunca mais parar, nem mesmo agora que o bar cheira a tristeza e a cerveja não tem o mesmo sabor. Somente sabor de culpa.

Ele era um ser humano normal, apenas considerava que houve um erro de fabricação. Em determinada parte de seu corpo as células se multiplicavam de forma desenfreada. Descoberto tardiamente, estipulou-se que por mais alguns meses tudo seria diferente.

E ao ouvir o médico dizer com a voz branda que não há mais jeito, sem ter ninguém que segurasse a mão quando desmoronou em lágrimas, ganhou o estranho prazer de poder talhar em sua lápide uma frase de seu filme favorito.

Devia ter ouvido a quem só lhe quis bem, mas mesmo assim jogava com a vida. Não era tão novo, mas também não era velho. Seu corpo o traiu, só fingia que aguentava as noites viradas bebendo, fumando, fodendo e se drogando. Até chegou algum momento a acreditar que seus amigos de verdade estavam no bar, mas pouco a pouco todos se distanciaram, e agora mesmo, sentado a poucos metros, ninguém se importou com sua chegada. O que dirão de sua partida?

Irônica é a vida do homem que só pensa na egoísta necessidade de satisfazer suas carências imediatas esquecendo que tudo, inclusive a vida, tem data de validade. Seria incrível se pudesse se despedir de forma mais honrosa, mas já era tarde. Cada hora era uma hora diferente, pois o tempo passa de forma curiosa para quem se despede dela — constatou.

E se tivesse tomado rotas diferentes em sua existência será que esse seria seu fim? Ou temos um dia marcado para que nossa história, boa ou ruim, termine em um piscar de olhos?

Sempre se perguntou se era possível sentir quando sua data se aproximaria. Lembrou-se de tantas outras vezes que se deparou com ela indiretamente. Pensou em Mara, a garota dos olhos verdes que certo dia o beijou, sorriu, se divertiu como se fosse sua despedida.

Falou a última vez com a mãe que ligou preocupada perguntando quando ela chegaria a casa. Ao se aproximar o fim da madrugada o puxou pelo braço, olhou em seus olhos dizendo: — Me beija, essa pode ser a última vez que nos entendemos — e assim foi.

Naquela madrugada, ao voltar para casa, a vida deixou a matéria frágil e a amarga notícia que chegou pela manhã acordou Deus de tão intenso que foi seu choro. A menina dos olhos verdes, a quem lhe foi dado o presente de participar de seu último dia, deixava que ele tocasse na sua pele fria, alisando seus cabelos pretos e longos. Embalado pela música fúnebre e os choros das pessoas e das velas.

Será que se encontrariam dessa vez? Será que de tudo o que ouviu falar, de todas as crenças que foi proposto seguir, o que de verdade era a vida? Ele sabia que era nada, até saber da morte. E ela passou a ser tudo. É cruel saber o dia em que tudo não passará de saudade para uns e alívio para outros.

Encheu seu copo e bebendo o esvaziava. Comparou esse encher e secar do copo à vida. Sim, a vida é um símbolo, é apegar-se aos momentos e às pessoas. Somos os únicos animais que sentem a morte.

Temos um apego tão grande por ela que velamos um corpo como se não quiséssemos acreditar que aquela pessoa não irá mais fazer parte de nós. Como se a qualquer momento, entre as orações, ela pudesse despertar do “sono” e dizer que ficará tudo bem.

Quando a vida na verdade era — virando o copo da sexta garrafa — nada mais e nada menos do que o tempo em que algo começa e termina, assim como seu copo que estava cheio de vida e, em um segundo, cheio de morte.

E que essa falsa superioridade humana nada mais é do que esvaziar o copo lentamente por não saber qual o dia que ele ficará completamente vazio. É saber que a morte é a única certeza, mas não ter nenhum domínio sobre ela.

— Por que é tão difícil morrer? — Socou a mesa, embora lhe fosse dito que era rápido como pegar no sono. Só que não era aceitável que tudo teria um fim, nem mesmo que ele teria um fim. Era apenas o tempo se arrastando e o mundo girando em uma roda gigante. Não queria aceitar.

Passadas algumas semanas, o garçom lembrava daquele dia em que mais uma vez, após retirar todas as cadeiras da mesa, pediu sua cerveja sem permitir que ele o servisse. Serviu-se como gostava: copo americano cheio com colarinho. Brindou com a garrafa, balbuciando algumas palavras e virou o primeiro copo. De instante em instante olhando para o relógio como se contasse as horas.

Servia-se, observava a cerveja transbordar e depois a espuma baixar rente à beira do copo. Cuidadosamente com a mão tremula o levava à boca e secava. E assim como a cerveja que derramava para fora do copo ‘chorava’, ele chorou por alguns minutos antes de sair, sem pagar a conta e sem se despedir.

Agora descansa sob um gramado verde adubado da decomposição, identificado por uma lápide de mármore negro com traços feitos à mão. Talhado com a estranha frase escolhida por ele ainda em vida.

M.D
06/07/2012

“Lá vai ele. Um dos protótipos de Deus. Um mutante cheio de estilo nunca pensado para produção em massa. Estranho demais para estar vivo e raro demais para morrer.”

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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