Foi o quando ele me falou

Devido à rotina, virou costume chegar tarde a casa. Dirigiu-se à estante de mármore e pegou um uísque 12 anos — seu ano favorito. Desconsiderava o fato de ter sido diagnosticado socialmente como hipocondríaco. — Não é verdade. — Pensou enquanto tomava seu décimo comprimido de Benflogim e se servia com uma dose, embalado ao som de Mozart. Considerava aquilo apenas uma recreação, sua válvula de escape depois de um dia cansativo, de uma semana que passou tão lenta quanto à vontade de não permanecer nela.

Sabia que o Cloridrato de Benzinamida, agente ativo do Benflogim, associado a uma ou duas doses de uísque, aumentava a produção da dopamina no cérebro, gerando percepções visuais alteradas e distorcidas, efeitos semelhantes ao do LSD.

E mesmo que as náuseas parecessem romper seu estômago no dia seguinte, não era o efeito colateral um empecilho, pois isso ajudava a colocar a cabeça no lugar. O álcool por si só já o leva ao campo das ideias, mas faz isso ao passo em que o deprecia. Era preciso mais para fugir da realidade dos últimos meses.

Sentou à frente de seu aquário e ficou observando os peixes por algumas horas. Os viu bailar lenta e graciosamente. Percebeu que os dois, ele e os peixes, tinham muito em comum. Tentou evitar a comparação existencialista, mas não teve jeito. Foi transportado para dentro do aquário junto aos peixes e sentiu tudo que lá se passava.

Se observasse bem, os peixes que criava eram iguais a ele. Criaturas que trabalhavam em busca do propósito de sua existência, despertando todos os dias à procura de algo que os alimente, que os mantenha vivos, até que a exaustão lhes toma e eles descansam sem dormir.

Realmente era assim, acordando cedo todos os dias, enfrentando o mundo de desigualdades, sendo sugado de todas as formas, até que, no final do dia, ao chegar a casa, após seu remédio para dormir e a dose de uísque, desfrutava de um sono sintético tão rápido que a sensação era de um piscar de olhos.

E ao chegar novamente ao trabalho no dia seguinte, se familiarizava com o banheiro do local mais que com o banheiro de casa, a ponto de se incomodar com a sujeira. Como se fosse o seu banheiro emprestado para outros que não sabiam usar.

Uma rotina tão cansativa que nem mesmo conseguia desfrutar do que comprava com o seu salário. A TV nunca foi usada por mais de alguns minutos enquanto tomava café e via as primeiras notícias do dia. As flores da sacada murcharam e permanecem lá, murchas, sem ganhar um desfecho melhor.

Observou que o aquário não é formado somente por peixes, mas também por micro-organismos que transformam a amônia proveniente da urina e fezes, ou da própria matéria em decomposição, em nitrito e, por sua vez, as que o transformam em nitrato, alimentando e transformando-se em uma das peças que compõe a biodiversidade controlada. Microscópicas criaturas do mesmo criador que têm papel fundamental para os peixes que ali vivem.

Para ele, não era tão importante à presença desses seres — pessoas com essas funções sociais. Entretanto estava rodeado delas. Preguiçosos e sem propósitos, apenas procuram aproveitar-se dos restos de sua significância e na primeira oportunidade contaminam, adoecem e o levam à beira do fim.

— Provavelmente a vida de um peixe deve ser feliz já que até as bactérias o ajudam. — Constatou.

Concentrado em como o peixe se mexia e se distorcia diante de seus olhos, assustou-se com um que desavisadamente se chocou contra a parede de vidro do aquário. E mesmo sabendo que não era possível transpor aquela barreira, continuou tentando e se chocando várias vezes até que ele decidiu pôr a mão no vidro para assustar o peixinho. Voltando em seguida a sentar-se.

Talvez o peixe não conseguisse entender como é possível ver um ambiente tão grande e ao mesmo tempo estar limitado a 60 litros de água. Apenas 60 centímetros em um quarto de 4x6m. Não sabia que barreira era aquela que o impedia de continuar e desbravar os horizontes e talvez por isso sua insistência, sua loucura. Os peixes que um dia pularam a barreira de vidro do aquário morreram porque não havia aquilo que os ajudassem a sobreviver. Não é o que eles imaginaram.

Se ele fosse consciente como o ser que está à frente dele, com os pés para cima segurando um copo com uísque e gelo, diria que sua frustração era tanta quanto à dele, de olhar os horizontes e desejar, tentar alcançar, e mesmo encontrando meios dignos de conseguir, era a passos lentos. O reflexo da mesma lentidão à que alcançava seus objetivos. Quando alcançava, não tinha tempo de usufruir.

Lembrou que também se atirou algumas vezes além das barreiras que o impedia, sem sucesso. O destino foi o mesmo, e por pouco escapou do fim que levaram os bravos peixinhos que recolhia do chão de seu quarto. Fazia seus velórios no banheiro e os “enterros” no vaso sanitário.

Era a vida de um homem descartável. Assim como os “peixes descartáveis” muitas vezes comprados e colocados em aquários minúsculos, dado a crianças como bichinho de estimação e, depois de mortos, enterrados em cova rasa — ou no vaso como os dele —, e substituídos por outro que logo terá o mesmo destino.

Percebeu que dava a seus peixes algo que ele sabia que jamais teria. Isso se for verdade os que dizem que, para os peixes, quem troca a água do aquário é Deus. Sabia que dava a eles a oportunidade de ver Deus como ele era — embora não quisesse que seu Deus fosse um bêbado e hipocondríaco — e se sentiu plenamente eufórico e importante.

Levantou-se e zombou com um andado pomposo e psicótico — como imaginava que Deus andaria sabendo que era Deus — aproximando-se do aquário, passando a mão no vidro e com o rosto próximo a água falou: — Eu estou a observar-lhes, pude ouvir suas preces e eu os entendo.

Foi quando um peixe que passava ouviu e respondeu: — Não adianta se comparar comigo. Eu estou a te observar e você não é um peixe! ­— afastou-se nadando para longe daquele rosto assustado. Neste instante deu um pulo para trás atordoado, mal acreditando no que acabara de acontecer. O peixe ficou olhando-o por alguns instantes e depois voltou a seu comportamento natural aparente.

Devia ter exagerado na dose do Benflogim ou então chegou ao ápice de algum efeito não esperado. Ficou estagnado, confuso e apavorado. O que o surpreendia não era somente o fato de o peixe falar com ele, mas também por ele estar completamente certo. Sim, ele estava completamente certo.

Não podia simplesmente se amargurar e maldizer a vida. Se entregar como se não encontrasse mais formas de lutar, pois até mesmo os peixes de seu aquário vez por outra saltavam para a morte certa, na ânsia única e incontrolável de conhecer o que está além da fronteira do possível.

Eram apenas peixes que nasceram em cativeiro e provavelmente nunca fizeram uma reflexão sobre o que era esse instinto tão forte de liberdade, mas iam ao encontro do desconhecido movidos por essa força.

E, mesmo que pudesse considerar que estava chapado a ponto de fantasiar histórias em sua cabeça, ele sabia o que precisava ser feito, já fazia tempo que não tinha vida e foi preciso um peixe dizer a ele para que tudo fosse diferente.

Nos dias seguintes comprou um aquário de 200 litros e o decorou da forma mais natural possível, colocou todos os peixes lá dentro e os observou por alguns instantes. Ligou para o trabalho e pediu demissão, aliviado. Ligou para os amigos que há tanto tempo não via e convidou-os para um almoço. Assistiu à TV que comprou e que nunca havia ligado no seu canal favorito. Mudou os panos da mesa, as flores na varanda e tão somente tudo passou a fazer sentido.

Embora seus amigos não acreditassem na história que foi explicada após o almoço, perceberam junto a ele que essa é a mais pura verdade. Não é fácil se desvencilhar de tudo aquilo que nos vicia, mas é preciso criar coragem para mudar.

É preciso sacudir a poeira, principalmente quando a vida se torna tediosa e cansativa. Isso só fez dele mais um rebelde em busca da felicidade, limitado e cheio de barreiras criadas por ele mesmo. Foi preciso se conscientizar que tudo só depende única e exclusivamente de si mesmo.

Com o passar o tempo algumas coisas se normalizaram e percebeu, agora no final do dia, sentado novamente à frente do aquário sem os Benflogins e sem os analgésicos que, por alguma piada irônica da vida, poderia considerar que Deus tem formas estranhas de agir e nos fazer mudar. Suspeitando que ele possa usar os seres mais inacreditáveis para passar as mensagens mais importantes.

Agora, seu salvador nada feliz de um lado para o outro naquele ambiente que mais se aproximou do que sua memória primitiva e selvagem lhe permitia lembrar. Ainda que um aquário maior jamais consiga lhe dar algo melhor do que a liberdade, libertá-lo seria condená-lo a morte. O peixe ficou com a estranha sensação de que Deus permitiu que sua vida melhorasse consideravelmente mesmo que não entenda o porquê.

Apenas via Deus do lado de fora, além da barreira de vidro, sentado com as pernas para cima a observar-lhe com uma dose de uísque e gelo na mão, e um disfarçado sorriso infantil, emocionado.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: