O paraíso é aqui

Quando observadas de longe, as dunas lembravam o formato das costas de um jacaré com a boca aberta, uma das lendas que deu à vila seu nome peculiar. Talvez fosse possível vê-lo melhor do mar pelos pescadores, mas ele via da caçamba de um “pau de arara”, segurando as malas para não caírem pela traseira do Ford D20 que o levava.

Subia, descia e às vezes parecia que ia afundar na duna antes de chegar ao destino. Era tudo muito novo, desde utilizar aquele transporte até o contato com o amontoado de areia que vez por outra caía nos olhos e na boca. Crocante, mas insossa.

Originalmente formada por pescadores e afastada da urbanização, sua popularidade foi alavancada no Brasil e no mundo depois do turismo descobrir a beleza do local. Pela manhã, nas ruas, o espaço era dividido entre as charretes, bugues, quadricículos e claro, as D20 carregando gente que não parava de chegar. Após cinco horas de viagem e quarenta minutos no “pau de arara”, pode descansar antes de sair à noite para conhecer a cidade.

Nas ruas, a iluminação pública era inexistente o que fazia com que o local ganhasse vida ao ser iluminado pelas lojas, padarias, sorveterias, bares, restaurantes e cafeterias. Embora isso o remetesse à zona urbana, os locais eram singelos e traziam aquele clima gostoso, exclusivo dos lugares cuja mão do homem não interviu.

O povo era simples, as crianças jogavam bola na rua em meio às árvores. Cachorros como em uma matilha desfilavam livremente. O chão era irregular, ora macia, ora dura, mas confortável o suficiente para tornar comum encontrar nativos ou mesmo turistas andando descalços.

A praia chamava atenção com seus 180º de horizonte aberto, sem nenhum prédio que atribuísse qualquer tom de cinza àquele azul escuro cheio de estrelas, cujo brilho poderia ser facilmente confundido com as lanternas dos pequenos barcos pesqueiros se aventurando em alto mar.

Caminhava como todo turista vislumbrando o local e aproveitando a areia que massageava os pés e entrava entre os dedos. Sentiu como se a realidade e as repetitivas voltas da rotina o tivessem, pela primeira vez, arremessado para um local mágico. Mas não era magia, nem mesmo uma terra mágica, era Jericoacoara, a quarta praia mais bela do mundo.

O local era dividido basicamente em três ruas, mas a Rua Principal — como era popularmente conhecida — centralizava todos os atrativos aos moradores e visitantes durante a noite. Abrigava também as banquinhas dos artesãos caracterizados com seus dreads, corpos magros, olhos vermelhos e a astuta e convincente lábia vendedora.

Exibiam seus trabalhos feitos em aço, cobre, couro e linha. Além dos colares com dente de tubarão, javali, búfalo, onça e até de lobo — ainda que desconfiasse se eram reais —, lindas pulseiras de pedras roladas, cristais e nomes escritos em um grão de arroz também faziam parte da arte. Se não fosse a falta de dinheiro, teria levado as peças únicas feitas por eles.

Ao chegar às famosas Barracas de Caipirinha foi convidado a tomar Xoxota, Duende Verde, Piriquita, Tangerica, Coco Loko, uma infinidade de bebidas misturadas, mas para ele sua cerveja lhe bastava.

No final da rua, olhou o céu estrelado e deitou-se na areia para melhor observá-lo. Foi quando um som grave seguido de um tom bem agudo, melancólico, chegou aos seus ouvidos com tamanha sutileza que o fez levantar-se imediatamente. Ficou por alguns segundos parado, olhando para todos os lados tentando identificar de onde o som vinha.

Estranhamente não havia ninguém ali, nem álcool suficiente ou qualquer outra substância que lhe trouxesse talvez uma alucinação. Continuava a ouvir quando o vento soprava de dentro da vila e decidiu que deveria voltar à rua para procurar o som que chamava sua atenção.

Deveria estar paranoico, mas não parava de pensar o porquê do vento lhe trazer tal som. Sensível como o próprio instrumento.

Caminhou alguns metros se distanciando da praia, rumo à pousada. Passou por todos os restaurantes, barzinhos que tocavam música argentina, espanhola, forró e até eletrônica.

Chegou à praça central e sentou-se no banco. Abriu outra cerveja esperando ouvir novamente o som e foi quando avistou um bar com uma árvore enfeitada na calçada como se saísse da boca de um crocodilo.

Os garçons, descalços e com roupas leves, eram estrangeiros. Falavam com um sotaque engraçado. Um deles preparava a pizza que rodava no ar como se dançasse ao som da música ao vivo. As luzes meio amareladas, charmosas, iluminavam um grande relógio de ponteiro como o Big Ben.

Sobre mesas baixas de madeira rústica, as luzes das velas iluminavam a face dos que olhavam extasiados o violinista. Sentado em um banco de madeira, pés descalços, tocava o violino de olhos fechados acompanhando o violeiro.

Os cabelos amarrados caíam sobre os ombros que se movimentavam com a sutileza e a agilidade com que as notas saíam do instrumento. Nos tons mais agudos, abria a boca e permitia que o violino atingisse a nota que sabia que sua voz jamais atingiria cantando.

Estava pasmo, não somente pela figura icônica em uma cidade também icônica, mas pela releitura que o instrumento dava às músicas já conhecidas da MPB e pela interpretação que o violinista dava a cada nota que saía de seu instrumento.

Levantou-se e ficou em frente ao palco, observando a graça daquele conjunto de arte, os pés que batiam na madeira do banco acompanhando à música, como um anjo que descia as escadas do paraíso tocando seu violino. Mas não era um anjo, era homem, nem era o paraíso, era a terra.

Enquanto isso, os dedos rapidamente deslizavam e davam vida às luzes, às velas e à alegria de todas as pessoas do bar. Até as que estavam de fora, em pé na rua ou sentados na calçada da praça, aplaudiam porque reconheciam o talento inebriante do rapaz, que não usava partituras, apenas sentia e tocava.

Assim, os dias ganhavam a mesma trilha sonora, entre os passeios pela praia e o assistir ao gigantesco pôr do sol, intenso, vermelho, aos poucos se tornar azulado, até que sumia na linha do horizonte que tanto amedrontou os navegantes quando acreditavam que a terra era chata.

A simplicidade do contato direto com a terra e com a natureza, com o mar e lagoas cristalinas, peixinhos que ficam presos em piscinas formadas pelo recuo da maré, formações rochosas monumentais esculpidas pelo vento e pelas dunas que se movimentam dando uma nova imagem a cada ano, mostravam como o lugar é único no mundo.

Entre as cordas de um violino que embalava a alegria da chegada, com toques sutis nas cordas de Sol à Mi, e a tristeza da partida, da última noite naquela parcela do mundo em que era impossível duvidar da obra universal do criador, resgatou seu mais profundo instinto humanista e reencontrou em si a rara essência divina enterrada pelo pó cinza das grandes cidades de concreto abissal.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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