É primavera o ano inteiro

Sentaram-se próximos ao fim da ponte e podiam sentir os respingos da água do mar que se chocava contra as pedras. Ela deitou-se de costas e apoiou a cabeça em seu colo. Os dedos grossos acariciavam seus cabelos como se a penteasse lentamente. Ela fechou os olhos e ele olhou para o horizonte, lembrou-se de alguns anos atrás, quando a conheceu.

Era inverno — embora a cidade não tivesse as estações do ano bem definidas — e existia no ar um característico clima frio, melancólico, preguiçoso como domingos de uma semana qualquer. Já lhe disseram uma vez que após um inverno tão sombrio a primavera viria, embora ele não acreditasse mais na primavera.

Lembrar a estação da época não seria necessário em sua reflexão se a mesma não estivesse marcada pelo mesmo frio que habitava seu coração. Não era de se esperar algo melhor após o fim de mais um relacionamento.

Acreditou que ali seria em sua coleção, outra história de juras de amor interrompidas pela própria ocasionalidade, dos amores intensos e passageiros como fogo de palha. Mesmo ciente que eram laços que há muito tempo haviam se rompido, o costume e o apego lhe deixaram daquela forma, descrente.

Dos vários amores que o levaram a momentos de êxtase, todos definharam por terra, deixando apenas em frangalhos o que acreditava das peças de William Shakespeare. Na realidade, não existiam fugas em razão do amor que nascia entre um homem e uma mulher separados por famílias que se odiavam.

Decidiu que não cometeria o mesmo erro duas vezes, e seu romancista virou Raul Seixas ao afirmar em sua música que ninguém consegue ser feliz tendo amado uma vez, bastava uma vez. Entre álcool, cigarro e festas conseguiu se livrar daquele momento, não substituindo, mas aceitando que a vida é sim cheia de escolhas estúpidas e dentre elas a estúpida escolha de amar.

Desde então, o amor próprio era o que lhe movia. Não importa o quanto fosse tentador, poderia até deixar-se levar por alguns segundos e até tocar os lábios de várias mulheres, mas jamais com a intenção de amar outra vez.

Ela o olhou, notou seu olhar distante e a diferença de suavidade com que começou a alisar seus cabelos comparado como fazia agora, de maneira cuidadosa, mas rude. Ela colocou sua mão na dele e, voltando a si, sorriu para ela. Beijou-a na testa e voltou a olhar o mar.

Passados alguns meses que já estava de acordo com seu coração, sentiu uma batida estranha, mais forte, quando a viu entrar na sala da faculdade.

Com um coque amarrado de lado no topo da cabeça, uma calça roxa, uma camisa bege e um bolero de algodão, entrou na sala e ignorou o fato de estar atrasada e de interromper a aula do professor. Com o celular na mão e o caderno segurado pelo braço, foi caminhando lentamente sem tirar os olhos da tela. Chegou até uma das últimas cadeiras e sentou.

Aquilo lhe incomodou, na verdade lhe incomodava o fato dela ter atrapalhado a aula – afinal ele não perdoa ninguém – mas mesmo que não entendesse o porquê, achou meigo o jeito desleixado com que ela andava sem se importar com as coisas que estavam à sua frente.

Observou-a por alguns momentos na sala enquanto ela anotava o que o professor escrevia na lousa. A forma que seus dedos pequenos seguravam a caneta e como parecia se importar com cada letra que estava sendo desenhada no caderno.

Os dias foram passando e ele a observava chegar ao mesmo horário, atrasada, mas cada dia mais bonita, cada dia mais meiga. Até que um dia ela não veio e ele ficou curioso, se perguntando onde ela estaria. Estava indo contra tudo que prometera a si mesmo, mas não era amor, era o que lhe convinha no momento assim como seria com qualquer outra mulher — pelo menos era no que ele queria acreditar.

Quando se falaram pela primeira vez por telefone, sentiu a meiguice de sua voz e algumas semanas depois de trocas de olhares e conversas, estava tudo caminhando. Qualquer coisa ao alcance do desejo, uma simples aproximação, um beijo e quem sabe um pouco mais, menos amor.

Naquela noite, próximo ao início da primavera, observou como o ambiente estava diferente, o céu limpo sem estrelas, as flores começavam a surgir nas pequenas plantas no jardim. Sentou-se e aguardou ansiosamente. Então ela surgiu — como era linda — e antes que ele lhe dissesse qualquer coisa eles se abraçaram. O abraço durou mais que alguns segundos. Após isso conversaram e falaram um pouco de suas vidas diferentes e interessantes.

Estudaram-se até que o silêncio se estabeleceu enquanto os dois se olhavam nos olhos. Os corpos lentamente se aproximaram, cortejaram-se e pediram permissão ao beijo. Quando, enfim, bem próximos, ele investiu e ela recuou, abriu um sorriso com o canto da boca e depois o beijou.

Um beijo encaixado como se tivessem treinado antes um com o outro. Como se há muito se aguardasse embora não um para o outro.

Nada mais fazia sentido. Voltou para casa a pé, aproveitando que ela morava a poucos quilômetros de sua casa. Não sabia, aliás, sabia, só não queria aceitar o porquê dela não sair de sua cabeça. Não somente o beijo que o deixou em chamas, mas o abraço que ganhou naquele dia.

O abraço que o acolheu mesmo ele sendo tão maior que ela. O que parecia mesmo é que ela abraçara sua alma que descansou do tanto que havia sofrido. Não somente no passado, mas na vida que não lhe dava trégua. Novamente se via confrontado com seu juramento ao seu coração.

Os dias foram passando e a vontade de se encontrar e de ficar juntos era cada vez mais frequente. As horas passavam rápido quando estavam perto e devagar quando estavam longe. Era inexplicável como ela o deixava calmo, como conseguia, com seu jeito, deixá-lo entorpecido. E se isso não fosse amor, certamente era algo que nunca havia experimentado por nenhuma mulher ou por nenhuma outra coisa.

Reconheceu a grande mulher que encontrou no meio de tantas outras no mundo e baixinho disse que a amava, emocionado, pois não sabia encontrar uma palavra que explicasse o que sentia. Contra tudo que prometeu a pediu em namoro.

E com o passar dos anos, desde esse dia, muitos momentos especiais aconteceram e mereceriam ser lembrados — para isso passaria o dia pensando —, mas agora que a data que a conheceu se aproximava, lembrou-se do homem que era e do que se tornou.

Com ela, descobriu aos poucos que o amor romancista de Shakespeare ou das novelas não existe. Que aqueles “amores” que fracassaram não tinham sido vividos em sua profundidade, na verdade nem foi amor, e sim algo da superficialidade humana em acreditar que o amor era, de fato, sentido no coração.

Quando na verdade o amor é o que se constrói e o que foi construído ao longo do tempo. Em cada passo dado juntos, frágeis no começo, apoiando-se um no outro, suscetíveis a possíveis deslizes e desencontros, até o momento que os passos se tornam firmes e que um passa a confiar no outro. Confiar em todos os terrenos, até os mais escorregadios. Confiar que por mais que um fraqueje na caminhada, o outro estará lá para sustentar.

Descobriu então, ao apaixonar-se lentamente, sem pressa, que o amor estava no toque, no cheiro, no abraço, no sorriso, na presença e principalmente na ausência. Que amar era contemplar o outro como uma parte única de você, e tratá-lo não como um adereço, mas como um marca-passo do qual depende sua vida.

Amar é dar o melhor de si sem esperar em troca, pois quando se recebe amor — falo de amor verdadeiro — só se tem amor a retribuir.

E olhando para o horizonte, passando a mão nos seus cabelos, viu que o amor vem quando menos esperamos, e que quando ele chega, deve-se dar motivos para que queira ficar, pois quando se ama não importa o que aconteça, é primavera o tempo inteiro.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: