O cidadão comum

Às quatro da manhã o despertador toca. Não foi tempo suficiente para que pudesse descansar, mas mesmo assim levantou-se prontamente da cama. Beijou sua esposa na testa enquanto ela dormia, passou a mão suavemente nos seus cabelos e sentiu seu cheiro já imaginando a hora em que voltaria para casa.

Abriu as cortinas da janela e viu os primeiros raios de sol, tímidos, rasos, surgirem entre as nuvens e os prédios. Andou pelo corredor em direção ao quarto de seus filhos e, ao chegar à porta, passou alguns minutos observando aquele lindo casal, se perguntando sobre seus futuros ainda incertos. Será que seguiriam seus ensinamentos e seriam pessoas de bem?

Não tinha como prever. Aproximou-se beijando cada um e ao se despedir fez uma oração a São Jorge, pedindo que mesmo com a violência diária que enfrenta, seja capaz de voltar para casa e vê-los mais uma vez. Era tudo que mais queria ver novamente o rosto de seus filhos e de sua mulher.

Guardou sua roupa de trabalho na mochila e dirigiu-se à cozinha. Neste instante, sua mulher, que já estava acordada, o abraçou com as mãos ensaboadas, deixando de lado a louça suja para lhe dar um abraço e um beijo. “Ovos, torradas e suco de laranja para ficar forte” – falou com um sorriso enorme no rosto e a meiguice que só ela tem.

O noticiário local, logo cedo, fala sobre a criminalidade. Uma sequência de noticias sobre roubos, assassinatos e militares feridos nos confrontos com quadrilhas, ressaltando o despreparo da polícia em combater os criminosos. Prontamente sua esposa desligou à TV enquanto ele tomava seu café da manhã, fingindo não ter notado a feição de preocupação e indignação dele sobre a reportagem. “É fácil ver um repórter almofadinha criticando a policia, difícil seria vê-lo trocar tiro com uma pistola semiautomática contra bandido atirando de fuzil” – pensou.

Mesmo assim, ambos sabiam que essa era uma angústia partilhada: o medo de não voltar pra casa. A angústia dela ao vê-lo sair, imaginando que horas depois talvez pudesse receber uma ligação do hospital, informando que ele foi vítima da violência urbana. Ele pensava da mesma forma, – enquanto se despedia vendo seu sorriso do portão – em como isso era possível a partir daquele minuto em que se dirigia à parada de ônibus, mesmo sabendo que cedo ou tarde poderia acontecer. O que não queria mesmo era pensar nisso todas as manhãs.

Ficou na parada de ônibus atento, olhando para todos os lados, fitando todas as motos que passavam. Olhava para os maus vestidos assim como para os bem vestidos. Isso porque somente no ano passado os números de assaltos cresceram cerca de 394% e nesse ano reduziu apenas 8,9%. De certa forma, a impressão que passava é a de que ainda existia 385,1% de chances de ser assaltado em qualquer local da cidade.

Dentro do ônibus a situação não era diferente. Outro dia viu no noticiário que em média cinco assaltos a ônibus são registrados por dia na grande Fortaleza. Será que este seria o dia dele? As pessoas estavam claramente assustadas, olhando umas às outras, evitando como podiam – embora o ônibus estivesse lotado – ficar próximo ao motorista ou ao trocador, o alvo dos assaltantes.

Ao descer no terminal observou que, da mesma forma que no ônibus, aquele local não representava mais nenhuma segurança aos usuários de transporte público. Além de assaltos e arrastões, lembrou-se dos dias de jogos dos grandes clubes da capital, onde alguns homens de suas torcidas organizadas faziam dali seu campo de batalha, como presenciou há dois dias.

Da entrada do terminal surgiam os de vermelho, azul e branco, gritando as palavras de ordem de suas torcidas e na saída entravam os torcedores do alvinegro. Foi um confronto inevitável. Pouco pôde fazer, ele e seus colegas, que estavam ali. Apesar de ser minoria, foi movido pelo instinto de cidadania que os fez tentar proteger os trabalhadores, estudantes e civis que voltavam para suas casas.

Conseguiram sair ilesos, graças ao Batalhão de Choque que chegou provocando a correria dos marginais, prendendo apenas alguns deles que seriam soltos, no máximo, na manhã seguinte. Ficou com certa raiva ao lembrar-se daquele dia, mas foi contido pelo barulho do próximo ônibus que chegava à plataforma.

Agora no ônibus novamente, poucos minutos após sair do terminal, cedeu seu canto para uma senhora sentar. Era quase inevitável – graças aos gritos – não ouvir sua conversa no telefone. Relatava estar em um ônibus que foi assaltado na noite anterior, cujo policial que reagiu foi alvejado com um tiro. Notou que a mulher pouco falou sobre o policial que desarmou o assaltante, e que lutava pela vida após salvar a dos 56 passageiros a bordo.

Falava mais da gratidão por não ter se machucado, por não ter perdido a bolsa com suas maquiagens e o celular que ainda estava pagando. Talvez nem tenha passado pela sua cabeça a imagem sofrível do Capitão da Companhia sendo recebido pela esposa do militar, para dar noticias de seu marido, o Super-Homem dos filhos, que estava internado no IJF em estado grave.

Provavelmente ela nem pensou no quanto a mulher do policial se segurou, em como ela foi forte ao não derramar uma lágrima na frente dos filhos. Em como ela estava ao lado dele, segurando sua mão pálida, sabendo que ele foi um herói para ela e um anônimo para muitos. Rezando para que a próxima manchete do noticiário não seja a confirmação de mais um para a estatística de mortos em combate.

Era assim até chegar ao quartel, e cada dia se tornava mais difícil, mesmo que ele soubesse que sua profissão era uma escolha: a de proteger e servir. Sabia que no outro lado da moeda teria que abdicar do seu sono, do conforto de casa e da companhia da família para dar esse privilégio ao cidadão comum.

“Acho que é isso,” – iniciou em seu pensamento enquanto se vestia ao lado de seus colegas militares, depois de ser confirmada a morte do policial da história que ouviu quando estava no ônibus – “talvez ninguém se dê ao trabalho de refletir e se conscientizar que existe um ser humano por debaixo desta farda, por debaixo deste colete”.

“Um ser humano que sente medo, que é tão frágil, tão emotivo e vulnerável quanto qualquer um. Cuja única diferença entre nós e as pessoas comuns é o fato de todos correrem para dentro de suas casas, para se proteger, enquanto nós estamos nas ruas, tendo a nosso favor apenas a legítima defesa, e todo resto a favor do ‘menor’, ou do maior abandonado ‘vítima’ da sociedade”.

“A imprensa muitas vezes colabora, mostrando somente os casos das minorias que abusam do poder, unificam e criam a ideia de que toda policia é milícia, desmerecendo, na maioria das vezes, a ação do policial que tenta agir dentro da lei. Sujam a imagem do militar honesto, tratando-os como se fossem iguais, como se o policial ao fazer o juramento à bandeira deixasse de ser humano e fosse um simples operário do sistema que não pertence à ordem, e só mantém a ordem”.

“Os íntegros – provavelmente é assim que as pessoas os veem – são esses que morrem, como o policial que reagiu ao assalto no ônibus, e que agora está com toda sua família em volta dele chorando pela perda e pela honra de ter um exemplo de heroísmo tão próximo de si. Esses, depois de mortos, é que são reconhecidos”.

Após o hino nacional e um minuto de silêncio, entrando na viatura para mais um dia de trabalho, se concentrou para esvair toda a frustração que o levou até ali. Não por estar fardado, com colete e armado, mas por ter a consciência que as pessoas dependem dele e de seus colegas. A missão dada tem seu preço e deverá ser cumprida.

Era preciso deixar de lado a descrença da população e se motivar, acreditar, manter acesa a chama interior, a fé, não da mudança social imediata, mas de que enquanto ele continuar fazendo a sua parte ela se manterá acesa. Até que em casa, aproveitando a velhice, ou em uma tocaia ao dobrar uma esquina da boca de fumo, tudo isso acabe, deixando a saudade e a sensação para quem fica de que aquele homem cumpriu sua missão.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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