Qual o sexo dos pombos?

Certo dia sentou-se no banco da praça, acendeu a metade que sobrou de seu charuto e deu algumas baforadas. Meteu a mão em um saco de papel cheio de migalhas de pão para alimentar os pombos. Deu outra baforada, e sua fumaça atribuía gentis tons alaranjados quando era refletida pelos raios do sol que estava perto de se pôr.

À sua frente, em um pequeno lago onde patos e marrecos nadavam, ilhava uma choupana feita em madeira envernizada, situada bem no meio, cujo único caminho que os levava até lá era uma ponte de madeira enfeitada pelas trepadeiras que nasceram por ali.

E lá um casal, sentados um de frente para o outro, acariciavam-se com ternura. Mesmo que ainda lhe causasse certa estranheza, veja bem, considerando seus cinquenta e poucos anos e todos os conceitos de sua criação machista, não lhe incomodava ver dois rapazes em uma demonstração tão meiga de afeto.

Continuou alimentando os pombos até que, de rabo de olho, notou a aproximação do guarda da praça, que vinha rodando o cassetete na mão, com passos firmes e metódicos como se fosse o marechal do exército de guardinhas do parque. Sentou-se de pernas arreganhadas, enchendo a mão direita com as partes, acomodando-as.

— Está vendo que absurdo? – o guarda iniciou a conversa.

— Oi, boa tarde. Do que estás falando?

— Todos os dias esses dois ficam aqui se pervertendo! Ah se eu pudesse tirá-los daqui!

— Perversão?! — repetiu e olhou novamente para o casal — Mas o que eu vejo são apenas duas pessoas trocando afeto. Que mal há nisso?

— Sim, mas são dois homens. Isso é nojento! Desde quando afeto de homem é beijo na boca? Se fossem meus filhos daria uma surra pra voltar a ser homem. — falou o guarda de forma ríspida.

— Mas eles são homens ainda… Não são?

— O senhor tá frescando com a minha cara? Homem não beija outro homem, meu senhor! Onde o senhor, na sua idade, dá época de meu pai, da época boa do passado, há de concordar com isso?

— Não concordo. — respondeu para a surpresa do guarda.

— Mas como assim? Eu já tava pensando que tu era um velho bicha também, pra defender esses promíscuos. — nesse momento deu uma puxada bem forte no charuto, fechando um olho e com o outro o encarando. Tão forte foi a puxada que a brasa ficou estridente.

— Não quis ofender ao senhor! — iniciou o guarda ao notar seu descontentamento, e enquanto ele falava, voltou a jogar farelos aos pombos — Brincadeira de homem! É que me tira do sério ver esse pessoal aqui na minha praça, no meu turno. Aproveitando da casinha pra trocar beijinho e à noite ir pro motel ali do lado como homem e mulher, que é o certo, mas tão fazendo errado. — fez uma pausa para cuspir e retomou — E o senhor, por que diz que não concorda? Como funciona isso? Ou gosta ou não gosta, né não?

— Meu caro, veja esses pombos — apontou para uns 10 pombos que se alimentavam — Me diga como posso identificar quais desses são machos e quais desses são fêmeas?

— Ora, claro, os mais parrudos é os machos e a menos parrudas é as fêmeas — respondeu o guarda sem entender o porquê da pergunta.

— Certo, agora veja aqueles dois ali, separados do grupo, são iguais em tamanho, tonalidade, e comportamento. Dentre esses dois, qual é o macho e qual é a fêmea?

— Aí o senhor complica. Como é que eu vou saber? Pode ser os dois, tanto macho como fêmea.

— Então, você usou uma forma heteronormativa pra definir o que é macho e o que é fêmea.

— E agora quer complicar? Tu não tá vendo que é macho o mais parrudo e é fêmea a menos parruda?

— É exatamente isso que a heteronormatividade faz a gente pensar. É nisso que crescemos, fomentados por essa ideia de que carro é de menino, boneca é de menina; azul é de menino e rosa é de menina. De fato não faz diferença nenhuma para mim, e creio que também para o pombo, se o que está ao seu lado, naquele momento e naquela circunstância, com a mesma cor, o mesmo tamanho a mesma postura, aparenta ser macho ou fêmea.

Sei que são dois homens, como o senhor falou — continuou enquanto o guarda o olhava desconfiado —, mas não vejo certo ou errado nisso. Tudo só me leva a crer que dar essa importância toda em torno do gênero a ponto de desclassificar e julgar alguém como certo ou errado, superior ou inferior, é uma patologia humana.

— Mas o pastor disse que o sexo tem sua função, segundo a bíblia. É de gerar filhos e constituir uma família!

— Então toda vida que tu transa com uma mulher tu tem um filho com ela?

— Deus me livre! Prefiro socar punheta do que ter mais um, tenho seis já.

— É, você não me parece um homem religioso. Mas essa questão levantada pela igreja, da construção da família, a meu ver é bobagem. Há tantas famílias de héteros completamente desestruturadas… Educação, honestidade, clareza, responsabilidade é que faz uma família e não os personagens que a compõe.

— Tá, mas e o que tem a ver os pombos com aqueles dois ali?

— Bom, foi a forma mais rápida de te dizer que não podemos julgar uma pessoa como inferior ou como errada somente pela forma que ela se veste ou pelo seu comportamento. Pombos independentemente do sexo, da cor ou do tamanho continuam sendo pombos. Nós independentemente da cor, da opção sexual, tamanho ou idade, continuamos sendo humanos. E é isso que vale.

— Mas tu defende muito bem pra quem não concorda viu?

— Não sou obrigado a concordar, nem achar normal, assim como não concordo e não acho. Digo isso baseado nos meus conceitos que julgo serem os certos, baseado nas experiências que adquiri ao longo dos anos. Eles provavelmente se baseiam nos seus conceitos e experiências para julgarem o que é certo e errado. Não sou eu que vou fazer isso por eles, vivo minha vida e pronto! – tentou encerrar o assunto e se afastou, mas o guarda o seguiu.

— Mas isso é ser homofóbico! Outro dia, disse na comissão dos guardas que não tinha nada contra, contanto que fosse bem longe de mim, como o senhor disse agora. E todo mundo me olhou torto.

— Eu não disse isso, existe uma diferença sutil. Veja bem, hoje em dia está difícil se posicionar. Principalmente porque vivemos em uma sociedade que quer uma resposta definitiva e um posicionamento concreto para todos os conflitos existentes. Você não pode não concordar e respeitar. Ou você concorda ou discorda. E essas duas palavras tem significados limitadores.

— Rapaz, contanto que fiquem bem longe de mim! — desdenhou.

— Eu acredito que discordar seja um direito seu, a meu ver você não será uma pessoa ruim por isso, o que te torna ruim é ser desrespeitoso. Dizer que não tem nada contra e os querer longe não é sinal de respeito, e sim de intolerância. Muitas pessoas usam desse argumento para se manter em cima do muro. Essa é a frase mais contraditória que já ouvi. Se eu disser que concordo, para ser aceito, estaria mentindo, mas não me importo com o que cada um quer fazer da sua vida, longe ou perto de mim, contanto que haja respeito em ambos os lados.

— Mas olha lá! — apontou para o casal interrompendo seu discurso — Vão se engolir, só pode! Vou lá acabar com isso! — mas foi impedido por ele que segurou o braço do guarda.

— Me diz uma coisa. Por que tu estás indo lá?

— Ô pergunta besta da porra, tá vendo que tem um bando de criança pequena aqui não?

— E se fosse um casal de héteros, homem e mulher, como preferir, você deixaria? — perguntou enquanto o outro guardava o cassetete.

— Não vejo problema!

— Então não está sendo correto! Deverias, ao invés de pensar em quem são os protagonistas, pensar na cena. Não é o que eles representam por serem gays, mas é pela falta de pudor que é crime pelo código penal independente do sexo. Um casal de héteros é tão desrespeitoso dando esses tipos de amassos, em praça pública, quanto um casal gay. Se quiseres ir lá em defesa do pudor, vá; se não, fique aqui e largue de ser besta, deixa o povo namorar em paz! – concluiu.

Para amenizar a situação, o casal, envergonhado ao ver a reação do guarda, se conteve.

— Taí uma coisa que eu nunca vou entender! Nunca vi um coroa tão esclarecido como tu. Teus filhos devem ser felizes, né não?

— São sim, tenho dois do primeiro casamento e um mais novo do segundo.

— E se ele virar gay? Tu vai vir com esse papo novamente?

— Se um dia meu filho assumir essa opção, será a escolha dele. Também acredito que ele não vai ‘virar’. Se ele tomar essa decisão é porque sempre foi, porém só agora se entendeu, se encontrou, e estaria bem consigo mesmo, feliz,  que é o que mais desejo aos meus filhos, a felicidade. Sua coragem superará qualquer frustração que possa ocorrer. Não estou dizendo que seria fácil para mim, mas como já lhe disse, não sou eu quem vai julgar.

— É velho, tu é esperto, mas não entra na minha cabeça esse negócio de homossexualismo.

— Bom, não sou um militante GLBTT. O que quis com essa conversa prosaica – notou que havia se estendido –  em resumo, é dizer que ninguém tem nada a ver com a vida do outro, e que a vida é curta demais para perdermos tempo odiando o que é diferente. A homoafetividade, se me permite lhe corrigir com o termo correto, não é sinal de promiscuidade, nem mesmo um segmento, uma nova espécie dentro da raça humana. Somos todos de carne, osso, e seremos enterrados na mesma terra.

— Nunca pensei por esse lado. — confessou.

— O importante é saber quem você é independente de tudo, e saber em que você contribui positivamente para o mundo. Nunca precisei de experiências homossexuais para saber que sou hétero. Assim como quero que respeitem meu direito de ser, devo respeitar o direito deles de ser o que bem entenderem! Ponto final. — concluiu de maneira ríspida para encerrar o assunto.

— Tá, tô sabendo agora. – falou o guarda reflexivo.

— Então, deixe-me ir – despediu-se enquanto apagava o pito do charuto e via o guarda, iluminado pelos últimos raios de sol, observando o casal abraçado, vendo o sol se pôr, e depois olhando para os pombos. Olhava o casal e olhava os pombos, coçava a cabeça como se refletisse sobre tudo aquilo que lhe foi dito.

Não resistindo à curiosidade o senhor perguntou:

— Seu guarda, já sabes qual é o pombo macho e o pombo fêmea?

— Não faz diferença, velho. – respondeu após alguns segundos de silêncio absoluto – É tudo pombo, é isso que importa.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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