Mojubá

Pouco mais das onze da noite, a lua grandiosa ocupava quase todo o céu, iluminando as cadeiras e a mesa onde ele estava com sua namorada e um casal de amigos. Bebia o segundo litro de cana que compraram naquela noite, já que fatalmente o primeiro escorregou de seus braços e se encontrou com a mesa de mármore, espatifando o vidro e jorrando bebida para todos os lados. Se ainda fosse mais supersticioso diria que foi o “santo” pedindo uma dose, embora este tenha levado seu litro inteiro.

— Um bebum com um santo alcoólatra! — Falou em tom de chacota para seus colegas que riam e o ajudava a juntar os cacos. A bebida estranhamente parecia água, não tinha mais o cheiro forte de álcool. Justificou a todos o deslize pondo a culpa na ventania que surgiu repentina, embora o local onde estivesse já o colocou em algumas situações inusitadas no passado.

Era um prédio antigo, mais de trinta anos, inalterado, uma enorme área de lazer para quatro blocos de onze andares, dois apartamentos por andar. Pela manhã era um condomínio como todos, mas à noite, principalmente quando as luzes eram apagadas, o local ficava com um clima nefasto e quase ninguém transitava.

Há quem diga que uma moradora havia pulado do décimo andar do bloco três há alguns anos, mas essa história não o preocupava. Isso, claro, quando não estava sozinho e via nitidamente o vulto de uma mulher passar correndo, de camisola e descalça, onde supostamente seu corpo havia caído.

Quando mais novo via essas aparições constantemente, mas agora, adulto, a frequência diminuíra. Tudo graças a sua mãe que lhe levou a um centro de umbanda e pediu a um babalorixá que afastasse estas visões. O chefe do centro até insistiu no desenvolvimento de sua mediunidade, alegando que tudo seria mais fácil, mas sua mãe sabia que não existia forma natural de um contato paranormal.

Tudo que o babalorixá falou, após ouvir um não definitivo, foi que não poderia tirar dele esse dom — embora, no pavor que se encontrava na época, não visse nada de dom nisso —, mas que poderia colocar um de seus “compadres” para afastá-los temporariamente, até o momento que atingisse a maturidade. Com o passar do tempo às coisas se normalizaram e eventualmente via algo suspeito, mas preferia ignorar e fingir que não era nada, até que não os viu mais.

Naquela noite, isso não passava de lembranças despertadas pela cachaça que papocou. Para ele, um gozador, foi a oportunidade perfeita para se munir de piadinhas infames sobre seu santo alcoólatra. Não sei se era para ele, digo, para seu “santo”, mas para seus amigos resultava em gargalhadas.

— Um litro que foi embora antes mesmo de ser aberto é um desperdício, um crime passível de prisão — continuava a brincar com a infelicidade. E assim entre conversas e risadas, o amigo lhe trouxe uma garrafa de Hidromel — que mais tinha gosto de vinho seco — e ao tomar uma dose despertou-lhe uma vontade incontrolável de fumar.

Tateou os bolsos e não encontrou nada. Lembrou que guardava um charuto cubano legítimo, manufaturado nas coxas de virgens — Não sabia se era de fato, mas lhe dava ainda mais prazer pensar assim — e foi buscá-lo.

Antes de acendê-lo voltou a beber e, enquanto a boca se encharcava de aguardente, ao olhar para o charuto, sua língua saboreava a folha do fumo, e salivava. Era estranho, mas sentia o gosto do fumo e também do alcatrão que queimava-lhe os lábios.

Aguardou que o vento cessasse para acender seu charuto, mas a ventania estava quase insuportável e apagava em instantes a chama do fósforo aceso. Já lhe tinha levado um litro de cana, não deixaria que lhe levasse seu único charuto. Poderia o vento arrancar o charuto de seus dedos e fazê-lo rolar para a piscina. Tudo estaria perdido.

Levantou-se e procurou abrigo em um velho salão de jogos desativado por desuso. Para proteger a chama virou-se de frente para a parede bloqueando o vento frio com o tronco. Aguardou até o vento cessar completamente. Riscou o fósforo e em seguida ele apagou sozinho. Isso se repetia toda vez que tentava acender, até dois ou três palitos juntos ao mesmo tempo não surtiam efeito.

Aproximavam-se os últimos palitos quando uma voz rouca rompeu o silêncio e o chiar do fósforo a se inflamar:

— Me dá um trago? — Disse.

Continuou de cabeça baixa pensando que estranho era seu amigo, que bebia Hidromel e nunca fumara na vida, lhe pedir um trago de charuto. Ignorou.

— Me dá um trago? — Insistiu.

Virou-se para negar e viu que na sua frente, por detrás de algumas mesas, havia um homem negro, de paletó branco desabotoado sobre uma camisa listrada branca e vermelha. Seus pés descalços tocavam o chão frio. A falta de luz não o permitia ver direito, mas o que parecia é que o homem segurava um litro de cana de Viçosa igual àquele que havia se estilhaçado e o álcool evaporado no chão.

— Me dá um trago? — Repetiu.

O homem — assim foi mais fácil defini-lo — falou gentilmente enquanto ele, atônito, segurava o charuto e reconhecia sua garrafa de cana. Pôs o charuto na boca e resmungou baixinho:

— Se me deixar acender, eu te dou um trago — foi o que o medo deixou que dissesse com a voz trêmula.

Antes que a chama tocasse a folha do fumo, o charuto acendeu. Deu duas grandes baforadas, sem sabor. Tirou da boca e recolocou. Não sentira o gosto amargo, nem mesmo o cheiro de fumo na fumaça. Deveria ser o álcool — ou o medo — que adormecera sua boca e estragara o sabor.

Baforou umas duas vezes antes que ficasse bem aceso. Virou de lado em direção ao homem para oferecê-lo, mas este sorria um sorriso branco brilhoso, exibindo o implante de ouro que enfeitava seu canino. Ouro polido que reluzia a chama da brasa de um charuto recém-aceso na outra extremidade da boca. Satisfeito.

Não entendia bem o porquê de lhe pedir um trago do seu se ele já tinha um charuto, e mais ainda porquê levou seu litro inteiro de cana. Que não era qualquer cana. Era a mais pura água ardente de Viçosa conhecida pelo gosto forte e seu potencial alcoólico.

Olhando-o sorrir voltou a baforar o charuto, tossiu com a fumaça e o gosto forte que repentinamente se restabeleceu. Compôs-se e cauteloso passou por ele que agora se encostara à parede bebendo a cachaça e fumado o charuto cubano como um malandro elegante.

Observando a cana — sua cana que agora era dele — corajosamente, perguntou:

— Mas por que o litro inteiro? — No tom de quem reivindica uma conquista.

— É o do santo, meu filho! É dos santos… — Respondeu enquanto gargalhava uma gaitada jocosa, quase imoral, colocando a mão, enfeitada com anéis de ouro e um relógio dourado mais frouxo que o braço, na cintura, pondo a barra do terno branco para trás. Exibindo a fivela do cinto com tridentes em cruz, apontando para os quatro pontos cardeais.

Laroiê Exu Mojubá.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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