Cada gota que caía

Ouviu o barulho familiar das gotas de chuva ricocheteando nas telhas de amianto. Olhou pelo portão e viu a terra ficar escura, exalando aquele mormaço que hoje, na fase adulta, trazia a possibilidade de uma gripe.

Mas essa, diferentemente das outras, chegou repleta de saudades. Vinha tímida como quem pede licença para invadir o seu olhar, seu ouvido, seu olfato e trazer as melhores lembranças de infância gravadas naqueles sentidos.

Lembrou com saudades do mês de fevereiro que era ansiosamente aguardado por ele e seus amigos, no bairro de casinhas pequenas e ruas estreitas. Contavam e esperavam a terceira chuva — pois as primeiras serviam para limpar os canos das calhas que formavam as bicas — e quando o momento certo chegava, iam, às vezes desobedecendo aos pais, banhar-se.

A água gelada adormecia o lombo dos meninos que provavelmente levariam uma surra pela desobediência ou logo pegariam um resfriado deixando-os acamados. Sabendo o que os aguardava, aproveitavam chutando a água com os pés e os mais corajosos corriam para deslizar nas calçadas de cerâmica.

Quando a chuva estava em seu auge, todos disputavam à biqueira mais alta, a da casa de dona Maria que tinha dois andares. Valia a pena.

O campinho de areia alagava e, aproveitando dessa “piscina”, corriam até lá com a bola em baixo do braço. Às vezes ficavam deitados na água barrenta, sendo advertidos pelos adultos que entendiam como era alto o risco de se contrair alguma infecção, mas não era preocupação para aqueles garotos.

Era apenas observar a chuva e se sentir parte de toda aquela história. Que criança teria sido se não passasse pelo menos uma vez por essa experiência? Não saberia responder.

Naturalmente, com o passar dos anos, esse tempo ficou para trás, mas a chuva que engrossava pouco a pouco lhe trazia de maneira viva as lembranças. Mesmo que não soubesse dizer onde estavam os meninos da rua cinco, ou as promessas de amizades eternas e nem mesmo os planos de dividir os melhores momentos também na vida adulta.

Eram planos de papel que o tempo dissolveu e corrompeu com as tempestades que vieram a seguir. Nos quinze anos seguintes, passou apenas a observar a chuva da janela do trabalho ou de casa. Hoje, contemplava aquela que passou a ser um infortúnio, um problema diante de sua rotina caótica.

Mesmo assim, percebeu que a chuva não havia desistido dele, embora ele dela. Lembrou-se das vezes que as goteiras ameaçavam alagar sua casa. Isso sem falar quando a chuva molhava sua farda, tirava o gel do seu cabelo e, como não mais irritante, molhava seus calçados para que passasse o dia de meias ensopadas lembrando-se dela.

A chuva, que agora lhe pegara desprevenido em casa, descansado, seduziu e o convidou para dançar esta dança que há quinze anos dançava só. Aceitando, abriu o portão. Timidamente observou a rua. Lembrar-se-ia de como dançar? Não teria que se importar com isso, pois não havia ninguém, era só ele e ela. Onde estariam seus amigos eternos agora?

Era só ela e ele.

Saiu olhando para cima diretamente nos olhos da chuva que o via do alto. Foi gentilmente abraçado e pouco a pouco preenchido de sua confortante companhia. Relaxou-lhe os ombros, lavou sua alma e trouxe-lhe vida, trouxe-lhe paz.

Cada gota que caía, renovava.

Dirigiu-se à biqueira mais alta, dessa vez não disputada pelos colegas. Era dele.

E como a chuva quando cai no mar vira mar, renova o mar, bem como uma chuva no rio traz um novo rio, vira rio, a chuva na cidade veio para trazer um novo homem.

Sorrindo aceitou.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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