O sarau que sarou o ego

Havia uma luz azul projetada em direção ao microfone e ao banquinho que receberia os escritores, músicos e poetas. Nas paredes, barbantes penduravam fotografias, vinis e frases aleatórias impressas em papeis recortados, dançando a mercê do vento. Em um banquinho próprio repousava uma Olivetti Studio 45, que fechava sutilmente o toque vintage daquela noite de sarau. Diante deste palco montado aos improvisos, algumas dezenas de cadeiras aguardavam vazias, silenciosas, a chegada de todos os convidados.

Ao fundo, se preparando para sua apresentação, observava a inquietação dos demais, ensaiando as expressões artísticas que iriam mostrar naquela noite. Isolado, lia enfaticamente o texto buscando uma forma natural de não transparecer o nervosismo que tomava conta de cada fio de cabelo.

Era tão fácil apenas escrever e se esconder por trás de personagens que todos acreditavam ser outro alguém que não ele mesmo. E tão mais fácil justificar as perguntas com o mistério da escrita — o de que a vida imita a arte e a arte imita a vida — à arriscar ser desmascarado num trejeito sutil que ligasse diretamente o personagem ao seu criador. Desta vez seria dada a devida interpretação ao que quis dizer e não ao que se foi entendido.

A ansiedade dava náuseas. Não tinha nenhum comprimido no bolso ou na mochila naquele momento que o acalmasse. Gaguejaria e seria um desastre. Nas mãos um texto longo e crítico. Um metido a escritor — cuja função trabalhista é a de preservar a imagem da empresa de ensino privado — prestes a discursar sobre a desvalorização do docente e o malicioso mercado que se faz com a educação. Seria um tiro no pé? Rezava para que o dono — se tivesse calos — não o visse e ouvisse.

Abriu um bombom de uísque que ganhou mais cedo e o mordiscou desavisadamente sem saber que havia nele uísque de verdade. Ao sentir o gosto amargar a língua, devorou o resto imaginando ser uma dose forte que o deixaria entorpecido. Torcera por aquilo. Precisava daquilo. Bêbado falaria melhor, estaria menos inibido, menos tímido e ganharia toda a plateia.

Aos poucos as cadeiras se preenchiam de rostos vazios de expressões e olhares repletos de curiosidades. Pelas conversas paralelas, teve uma sutil sensação de que o interesse não era de prestigiar bons textos. Ouviu alguém dizer que a máquina de escrever exposta era feia e ultrapassada, desconsiderando 65 anos de história e as incontáveis estórias que ela escreveu. Então o que diriam de seu texto? Seria um “textocídio”! Até imaginou nos jornais do dia seguinte a manchete: “Morrem 40 pessoas simultaneamente após escritor ler em sarau um texto de cinco páginas”. Breve para um sarau, longo para uma geração breve.

Observou as primeiras apresentações darem vida àquela experiência. De repente, o azul não era azul quando refletia na madeira do violão ou quando era projetado sobre a barba escura do esquisitão e no vestido da poetisa. As vozes tímidas, outras nem tanto, davam graça à noite e eram encerradas por aplausos.

Ouviu a caixa de som gritar seu nome. Dirigiu-se lenta e obstinadamente em direção ao banquinho. Ajeitou o microfone, pensou dizer algo engraçado, mas só saíram verdades. “Alguém me traz água, ou vodca”, disse. E quando lhe trouxeram água enfatizou que preferiria vodca. Conseguiu assim arrancar alguns sorrisos discretos.

Leu o texto como quem fala do próprio filho. Enfeitou-o de ações, de sentimentos, ainda que seu jeito engessado não lhe tenha permitido ser melhor. Defendeu — o texto e a sua ideia — arduamente, mesmo com a maioria dos espectadores dispersos após a primeira página. Esqueceu que diante de si existia uma plateia naturalmente entediada, inconsciente de sua condição nesta geração sedenta de constante entretenimento. Leu para si, ignorando os corpos triturados por sua voz grave que lia parágrafos de cinco linhas, guiados por um dedo grosso e trêmulo. Sem a doçura que pede a poesia ou o belo canto.

Encerrou com aplausos aliviados — aparentemente não de gratidão e sim de cansaço. Estava feliz. Sabia que o problema não era o fato de saber ou não escrever pouco. A questão é que não gostava de escrever pouco. E ao ler-se percebeu envaidecido como seu texto era de fato seu, por meio de um grande diferencial: não gostava de ler pouco também.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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