Dona Moça

Arlindo deveria esperar um pouco, mas partiu antes do tempo estimado. Dona Moça balançava a cabeça em frente ao espelho como sinal de reprovação. — Ah, esse Arlindo! Sempre o apressadinho! — Disse, enquanto procurava seu batom vermelho na gaveta da penteadeira. Lembrou que era desse que ele gostava quando saíam com os amigos para as noitadas, que não eram como as da juventude desta época, mas certamente melhores aproveitadas.

Aquele dia — embora a ideia de Dona Moça parecesse maluca — era especial. Contava na mente às pessoas que encontraria na despedida de Arlindo. Lembraria junto a eles as histórias da época em que lhes sobrava energia e faltava sabedoria, mesmo que agora Arlindo não pudesse mais fazer parte das testemunhas.

Não era o fim, pois lá haveria outras pessoas que, embora nesse culto ao fim de uma vida, estariam cheios de vida novamente. Hoje, sem arrependimentos, via o quanto seus olhos cor de mel, pintados com o lápis preto, traziam a força de segurar a dor de uma despedida, com alegria.

Alto, cabeçudo e palhaço. Arlindo não podia ser levado a sério. Todos sabiam. Tinha brincadeiras pesadas, bebia sempre mais que os outros, mas muitas vezes era quem levava todos para casa. Era esperado que ele fosse um dos primeiros a ir embora e deixar à frente anos de saudades. Sempre desprendido de qualquer bem, ganhou dinheiro, teve carros, mas tudo perdido pelas vivências.

— Arlindo sim é um apaixonado pela vida. — Disse Dona Moça, sorrindo um sorriso nostálgico.

Perdeu a conta. Agora, sem Arlindo, sobraram quantos? Quantos que poderiam lembrar-se da vez que levaram uma carreira ao roubar as frutas dos pessegueiros de Lionel. Ou a vez em que Arlindo quebrou o violão nas costas do guarda que interrompeu a seresta. E quem lembraria, a ela mesma, das frases que ela dizia, do jeito que ela mexia nos cabelos ou mesmo a roupa que usava naqueles verões da Belle Époque.

Enxugou o olho e soltou um discreto palavrão. Não havia ninguém lá que pudesse a ouvir e flagrar sua breve deselegância junto àquela gota que caía pesada de saudade.

— Estou pronta, neto. — Disse, achando-se tão linda quanto seu amigo merecia.

Ao chegar ao velório, logo foi saber se Arlindo estava bem arrumado, vaidoso que era não gostaria de estar de qualquer jeito, mesmo morto. Viu Maria, viu Luiza, viu Ricardo. Todos pelos cantos procurando um substituto para aquele que trazia a alegria em outros tempos, mas ela fez questão de se manter transitando por todos os lados da sala.

Arlindo estava diferente, aquela vida que estava em seus olhos foi consumida pelo fumo, seu companheiro desde os primeiros anos da adolescência. Estava em um caixão de marfim, coberto pela bandeira do seu time favorito e ao lado, seu violão.

Só Dona Moça lembrava o quanto ele era bonito. O quanto era cheio de vida e por isso não se permitia ser lembrado com tristeza. Era Arlindo, O Arlindo, e não aprovaria uma despedida qualquer.

Tomou um café, perguntou à pessoa que a serviu qual marca era, viu se os convidados estavam bem acomodados, e agia indiferente, como se nada tivesse mudado. Dona Moça fazia certo esforço, não queria demonstrar cansaço e nem tristeza, mas sabia que não era apenas Arlindo que ia, eram suas lembranças que iam com ele.

Alguns amigos e conhecidos, bem mais jovens, observavam aquela linda senhora e comentavam entre si que, com o passar dos anos, ela foi ficando pessimista porque considerava que essas situações eram janelas para o passado que iam se fechando. Isso, enquanto ela lutava para lembrar-se das histórias contando a todos que via, fazendo questão de mantê-las vivas assim.

O passado é o que importa para os mais velhos, ao passo que o futuro é para os mais novos. E a cada enterro, de um fura fila ou não, deixaria para trás as lembranças que tanto queria que fossem novamente vividas.

Dona Moça deixou transparecer sua tristeza quando ficou silenciosa e inerte diante de Arlindo. Neste momento foi tocada levemente no ombro pelo seu neto. Ela o olhou com olhos mais parecidos a uma represa de lágrimas prestes a transbordar.

Aproveitando o breve silêncio, seu neto contou a história da melhor lembrança que tinha dela. E a melhor história que sua esposa contou dela. E tantas outras histórias que circulavam, ou mesmo menções — não do passado a quem ela abraçara com tanto vigor, mas do presente que ela faz parte — que a tornava tão importante para eles.

Abraçaram-se, o que a trouxe novamente à lucidez. Dona Moça lembrou que, para toda janela que se fecha, outra se abre, e que ninguém melhor que ela para testemunhar a brevidade das coisas e o quanto se perde do futuro olhando para o passado.

Lembrou que a vida é uma dádiva, principalmente nesta geração aonde muitos jamais chegarão à sua idade. Onde não terão a mínima oportunidade de construir o que ela construiu e de ser amada como ela é.

Dona moça nem lembrava — e talvez por isso o esforço — de todas as suas histórias, mas sabia que muito melhor era relembrar da primeira palavra do filho, do neto, da roupinha da escola que comprou para eles vestirem e todas as sutilidades que a tornavam grata por viver.

Percebeu que estava na vida de várias pessoas das quais ela se tornou referência. E que, mesmo que suas testemunhas deixassem de existir, haveria outras pessoas para testemunhar a graça que é tê-la como Dona Moça, a incrível Dona Moça.

Agora mais calma e aliviada, podia, no seu íntimo teimoso, acreditar que a memória só faz sentido se compartilhada e que o segredo da velhice é um pacto com a solidão. Mas tudo à sua volta — sorrindo, abraçou seu neto mais forte — fazia perceber sua vida nas sábias palavras de Pitágoras, que uma bela velhice é, comumente, a recompensa de uma bela vida.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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