José Bonifácio, o louco

Na ponta do Mucuripe, as jangadas repousavam ancoradas no mar e outras estavam em terra. Entre elas, os pescadores realizavam sua festa costumeira: cachaça prata entre uma garfada e outra do peixe pescado há pouco, saboroso, assado na brasa, azedinho do limão, samba de lata e caixinha de fósforos. Homens barbados, sem blusa, cheirando a mar, dançando entre as mesas com as mulheres seminuas. Felizes.

Bem lá no fundo, o pescador José Bonifácio mascava fumo, balançava a rede empurrando com os pés e ajeitava sua tarrafa. Protegido do sol no seu “barco-casa”, interrompia seu artesanato vez por outra, levantava e gritava — Eram mais de 15 metros, 200 quilos! 200 quilos! — Referindo-se ao último peixe que traria se não tivesse que cortar a linha para não ser puxado ao fundo do mar. Todos riam e o chamavam de louco.

— 200 quilos! — Gritava. — 200 quilos!

Embora no meu íntimo duvidasse, fiz um esforço para não desdenhar de um homem do mar. Pai de três filhos vivos, marido de três mulheres, amante de todas. Um bom homem de voz rouca pouco audível, cabelo longo e loiro desbotado, peito cabeludo e pele vermelha.

Aproximei-me como quem nada queria. O ritual era o mesmo porque de toda forma não se lembraria de mim, apesar de eu estar ali todos os dias nas últimas três semanas. Deixei propositalmente a boca suja de peixe e derramei cachaça na blusa, na tentativa de não permitir que sentisse meu cheiro doce de perfume caro em pele tenra.

Pescadores são homens espertos, mas o velho tinha a visão ruim naqueles grandes olhos castanhos, que era compensada nos outros sentidos. Dizia, por exemplo, prever a chuva pelo cheiro do vento.

Mesmo assim, olhou-me franzindo a testa vermelha e ressecada, tentando identificar-me. Pouco mais de alguns segundos mostrou os poucos dentes que tinha, sorrindo, e chamou-me para beber. Achava que eu era Fernando, seu amigo que lhe vendia coco.

Antes que eu perguntasse sobre seu dia, desandou a falar como quem não tem — e não tinha — atenção de ninguém. Bebia aos goles, já eu o driblava cuspindo a cachaça de volta na garrafa. Ele nem reparava.

Bonifácio, o louco, era apenas um velho carente. Falava, entre uma pausa e outra, sobre o dia que quase pegava um peixe de 200 quilos! Uma pena que teve de cortar a linha para não ser puxado para o fundo do mar, e contava mais uma vez com o mesmo entusiasmo das outras dez.

Se tivesse conseguido pescá-lo, dividiria com os outros pescadores. Aqueles mesmos que o chamavam de louco, que urinavam nas suas coisas enquanto estava no mar, que desamarravam o barco quando o deixava ancorado nas colunas submersas.

Ele já não se lembrava de quase nada da sua infância. Não conheceu a mãe, não viu o pai morrer e nem o primeiro filho crescer. Esta era, de todas, sua história mais triste e sofrida. O motivo de sua loucura. Só contava quando estávamos quase bêbados.

Quando o sol estava perto de se pôr, lembrava em um doloroso despertar na memória o dia em que sua primeira mulher, o único amor, o deixou, levando o primeiro filho. Mesmo com três outros de outras três mulheres, aquele era um trauma irrecuperável. Um dos filhos não pode receber todo amor que tinha para dar, nem a mulher aceitou ser amada como ele poderia amar.

Os planos de Bonifácio eram ambiciosos. Queria viver do mar, ensinar o filho a pescar, viver sem medos, sem angustias, sem necessidades forçadas de consumo. Queria viver em cima de um alicerce de valores reais. Contemplar todos os dias o nascer e o pôr do sol lado a lado com a natureza. Um lar, um filho e a mulher que se ama, mas estes não eram planos ambiciosos ao olhar de seu amor.

Deixou-a ir caminhando pela areia com seu filho no braço porque não se pode obrigar alguém a estar onde não se quer estar. Nem mesmo contar com alguém cujos planos são diferentes dos seus. O amor não é como nos livros, às vezes ele não é suficiente para unir um casal. De uma hora para outra tudo passou a ser saudade e um sentimento de culpa sem ser de fato culpado pelo que aconteceu.

Assim, passaram-se todos os dias, meses e anos desde então. Acordava, ia pescar, voltava com quase nada devido ao peixe de 200 quilos que ia pescando, se não tivesse que cortar a alinha para não ser puxado ao fundo do mar. Tirava um par de pilombetas para si e dava os peixes maiores para as mulheres, agora casadas com outros homens.

Abraçava os filhos pequenos que dele tinham medo, bebia e deitava-se na rede trançando com suas mãos grossas o mesmo bracelete infinitas vezes. Fazendo, desfazendo e refazendo, sempre nas cores que minha mãe mais gostava.

Escrevendo o nome dela e o meu, lembrando-se do peixe e o pôr do sol do dia em que partimos. Sem condições de reconhecer o filho que bebe com ele e ouve pacientemente a este grande homem e suas histórias loucas sem fim.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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