O primeiro dia de toda minha vida

Vi aproximar-se um cruzeiro de madeira, iluminado por luzes azuis, brancas e amarelas, preso à proa de um barco que navegava no mar agitado, contornando as ondas que batiam violentamente no casco. Tudo era a noite envolta em uma neblina que não me permitia ver além daquela luz radiante que emanava do cruzeiro.

Havia comigo uma senhora Negra que me deu a mão de forma cortês e afável, a segurei. Em silêncio ela permanecia e, embora seu semblante me causasse certo desconforto devido a Máscara de Flandres, seu toque me trazia estranha segurança. Aguardamos a chegada da embarcação.

Sereno, vinha entre as ondas o pequeno barco que parou poucos metros mar adentro, diante de nós. A Negra me puxou pela mão e me pôs ao lado de outros seis maltrapilhos cobertos por uma densa lama da cabeça aos pés. — Acalme-se filho. — Disse, pondo a mão no meu ombro, impedindo que eles de mim se aproximassem. Dividimos a mesma balsa até a embarcação.

A bordo, haviam outros tripulantes sentados diante do cruzeiro e, entre o cruzeiro e eles, em bancos da madeira nobre, remadores vestidos de branco, usando um enorme chapéu que lembrava o formato usado pelos papas. Uma âncora à direita do peito, uma estrela a esquerda do mesmo.

Diante do cruzeiro, vários moribundos pareciam encantados, presos como mariposas que circundam a luz ignorando sua própria morte. Sentaram-me ao lado dos tripulantes e levaram os seis moribundos, que comigo vieram, até o cruzeiro, ali ficaram. Uns choravam, outros riam, outros silenciaram. Algo os regia e pensei ver alguns homens de branco a dizer-lhes palavras de consolo, mas não tenho certeza.

Após o embarque, os remadores iniciaram ao comando de uma voz que vinha da casa do barco. Olhei para trás e vi a Capitã, de uma firmeza e hombridade nítida, olhou-me nos olhos como quem dá breves boas vindas, mirando depois o olhar à frente do barco. — Deus te guie! — Disse a Negra se afastando.

Puseram uma venda em mim e partimos.

Os remadores começaram a cantar, a rezar e eu já não tinha noção em que altura do mar estava. Deixei o salmo tomar conta de mim, comecei a rezar o Creio, uma Ave Maria. Senti a Negra se aproximar, de algum modo sabia que era ela, sua mão pesada se apoiou no meu ombro. — Beba esse chá, iremos começar os trabalhos. — Pôs em minhas mãos um copo. — Deus te acompanhe! — Repetiu a voz da Negra, se afastando.

O santo chá espesso com gosto de melaço de cana descia por minha garganta. Depois de algum tempo, pude ouvir os grunhidos escandalosos de uns tripulantes enjoados, vomitando. Eu, de olhos vendados, apenas ouvia e nada sentia até que fui tomado repentinamente por uma sensação quase indescritível, pensei depois ser a mais pura euforia.

Algo tão íntimo e surreal tomou-me de forma que me emocionei. Estava leve, meu pé se prendia ao banco em uma tentativa de não levitar diante daquela luz tão forte quanto o dia, expressa em uma mandala violeta, com grossas colunas de raios azuis e dourados.

De olhos fechados eu vi. A luz. Aquela Luz. A luz dos primeiros. A Luz dos magos. A luz dos crentes.

E de repente, tão rápido quanto veio, a sensação passou. Fiquei pesado novamente. Busquei induzir aquele momento que se esvaiu, sem êxito. Frustrei-me. Retirei a venda e abri os olhos.

Então eu vi, de olhos abertos: é real.

Todos nós estávamos em uma grande tempestade. Ondas gigantes, escuras e sem vida, atingiam aquele pequeno barco que se mantinha firme. Cada onda que o cobria trazia corpos finos de aspecto gélido, aturdidos circulando entre nós.

Os moribundos se abraçavam no cruzeiro, corpos corriam, mães procuravam seus filhos aos prantos, filhos às suas mães, por maior esforço que fizesse não saberia explicar de onde surgira tanta gente triste que se jogava aos pés do cruzeiro e clamavam perdão.

Estranhas silhuetas zombavam dos remadores e tentavam atrapalhar sua sincronia. Zombavam da cruz embora não suportasse seu brilho, essa que era o único abrigo dos moribundos escorraçados pelos atormentadores.

Aproximavam-se de nós rindo e zombando. Fiquei sentado, imóvel, perplexo, até que dois grandes olhos brilhantes, vermelhos, notaram que eu os via. Olhei nos seus olhos e em um passo medonho a criatura se aproximou. Senti-me estranhamente atraído pela morte, embora não tenha pensado nenhum momento em morrer.

“Trôco trôco vem chegando
Trôco trôco já chegou
Com a força e cavalaria
Que Jesus Cristo mandou”

A voz da Capitã preenchia o ambiente seguida de seus remadores. Com o cântico, a criatura que de mim se aproximava parou bruscamente olhando para ela e em seguida para o alto.

Raios surgiram preenchendo a escuridão em um único segundo com a luz. Pude ver o pânico nas faces desfiguradas dos zombeteiros, andando sobre as ondas negras que atingiam o barco. E caíram todos. Esmagados por uma força que não sabiam de onde vinha.

Fortes homens negros surgiram trazendo cordas e correntes. Amarravam os zombeteiros e os jogavam de volta ao mar revolto. Um negro, mais esguio de todos, de paletó branco e gravata vermelha, se aproximou. — Feche os olhos, filho. — E assim o fiz.

Ouvi gritos, senti calafrios, o calor do fogo, ouvi latido de cães, pessoas correndo, palavrões e então, silêncio.

Abri os olhos novamente e de olhos abertos eu vi.

O mar serenou e tudo estava calmo.

Estávamos novamente eu, os demais tripulantes, os remadores e a Negra. — Estamos voltando. O pior já passou, mas continue atento! — Falou sem olhar-me diretamente.

Quis perguntar o que havia acontecido, mas ela desapareceu. Tentei falar e não consegui. Levantar-me muito menos. Os tripulantes sentados ao meu lado levantavam constantemente para vomitar. Eu apenas tentava entender o que estava acontecendo.

Fechei os olhos e creio ter adormecido. Quando os abri novamente notei que diante de mim havia uma criança corcunda de cabelos longos. Sorriu para mim com uma ingenuidade tão sombria que fui atingido por um misto de medo e angústia. — Você pode me ver? — Perguntou surpresa ao notar minha cara de pavor, mas a única coisa que consegui balbuciar foi um pedido apavorado de que ela se afastasse.

— Ele pode nos ver! — Apontou com seu corpo curvado de frente para mim, enquanto sua cabeça se torcia para trás olhando em direção ao cruzeiro. A forma com que o pescoço se torceu me deixou enjoado, fiquei fraco, e pensei que desmaiaria.

Seu rosto apático franziu a testa observando minha reação. Rezei o Creio, um Pai Nosso e ela continuava a me encarar, mudando seu semblante para o ódio. Pedi desculpas não sei bem certo o porquê e em seguida implorei que se afastasse, em vão. Uma voz ríspida soprou no meu ouvido uma oração ensinada por meu pai.

Olhei-a com autoridade.

“Afasta-te cruel inimigo
Eterno vencido do leão de Judá
Aqui quem manda é a Cruz de Cristo
E nada poderão contra mim os meus inimigos”

“Afasta-te cruel inimigo
Eterno vencido do leão de Judá
Aqui quem manda é a Cruz de Cristo
E nada poderão contra mim os meus inimigos”

“Afasta-te cruel inimigo
Eterno vencido do leão de Judá
Aqui quem manda é a Cruz de Cristo
E nada poderão contra mim os meus inimigos”

Fechei os olhos.

“Afasta-te cruel inimigo
Eterno vencido do leão de Judá
Aqui quem manda é a Cruz de Cristo
E nada poderão contra mim os meus inimigos”

A criatura sumiu bem como apareceu e voltei a sentir-me seguro.

Fiquei em completo silêncio, exausto e confuso. A Negra trazia-me o chá novamente. Tomei esperando ser abraçado por aquela luz, mas não foi como da primeira vez. — Feche os olhos. — Disse a Negra sentando ao meu lado e intimamente comecei a ter as respostas para minhas perguntas. Respostas das quais carregarei comigo sem poder compartilhar com ninguém.

Mesmo que acreditasse na fé que achava que tinha. Mesmo que visse desde pequeno a providência divina e as artimanhas do diabo. Mesmo que acreditasse no que há por trás dos vultos, das aparições e do arrastar dos móveis. Ali eu confirmara que era real.

É real.

Pondo finalmente os pés na areia, a Negra tirou sua máscara de ferro revelando seu belo rosto. Agradeci, sem saber naquele momento quem era ela, por algo que não poderei retribuir proporcionalmente.

Não tinha mais perguntas porque sabia que não precisaria de respostas melhores do que tudo que tinha visto, de olhos abertos e fechados. Afastando-se, Anastácia, a Negra, desapareceu entre os tripulantes, renovados, em terra.

Todo aquele amor que senti da luz e o temor das trevas marcaram-me a existência. O sol despontava no horizonte nos iluminando. Ainda sobre efeito do chá observei a natureza gritando continuamente as respostas para minhas perguntas.

Depois daquela experiência, fiquei me perguntando se voltaria ao normal, se sairia daquele estado de hipersensibilidade que estive enquanto navegava nas ondas do Daime.

E para ser bastante sincero, ainda hoje, não estou convencido de que voltei.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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