A rua do fogo

Por toda cidade, as tradicionais banquinhas de comidas típicas estavam sendo montadas e as quadrilhas ajustavam os últimos detalhes nos ensaios. O rádio anunciava, entre um intervalo e outro das marchinhas de Luiz Gonzaga, a programação. Os carros de som rodavam sem parar e as pessoas corriam para o Centro da cidade comprar seus chapéus de palha e blusas xadrez.

Neste ano, o arraiá também era anunciado na Rua do Fogo. Feitas de jornais e revistas em tons vermelhos, verdes e amarelos, as bandeirolas penduradas por um barbante na grade da quadra se agitavam com o vento. Seu balanço previa o rodar das saias das moças e davam vida ao lugar.

Dona Ana desde cedo reparou o preparo: a criançada ajudando os adultos a cortar, amarrar e pendurar as bandeirolas, uns ali juntando às folhas e outros só observando mesmo. Riam, descansavam e voltavam aos seus afazeres. Lembrou-se que, na sua época, não perdia uma organização, mas desta vez ela fazia parte dos moradores que apenas presenciariam à festa.

Tirou o ar da panela de pressão e, enquanto esperava o marido voltar do trabalho, sentou-se na sua cadeira de balanço, em baixo de um pé de castanholeira. Dona Ana há dez anos não via tanto movimento, nem mesmo tanta alegria. Mas não esquecera também do motivo pelo qual o festejo anual cessara.

Enquanto lembrava, seu olhar se perdeu como se hipnotizado por uma bandeirola vermelha que se soltou do barbante e rolou pelo chão da praça. Ali, em um súbito e doloroso recordar, pôde ver Francisco Oliveira Neto, filho de seu Alceu da Banca, deitado, imóvel. Seu sangue escorria e tingia gentilmente o chão da praça.

Nesse dia, os estampidos foram facilmente confundidos com o som das bombinhas que as crianças soltavam bem próximas ao local e se não fosse o alvoroço, a correria e o corpo que desabava, ninguém teria distinguido.

Triste ver seu Alceu da Banca segurar seu filho nos braços como São João Batista a abrigar seu cordeirinho junto ao peito. Ele não tinha motivos para morrer, ali era Netinho, como seu pai o chamava e aos prantos implorava por sua vida.

Desde então, a chama que inflamava o coração dos moradores se apagou. O desgosto amargou os sonhos de junho e Netinho não voltou para brincar. A partir desse dia, não se sentiu o cheiro do milho, do mugunzá e muito menos se viu à festa da quadrilha. O tempo espalhou as cinzas e tudo foi cinza desde então.

Dona Ana foi recobrada de seu terrível passeio nostálgico pelo marido. Antônio estava com tanta fome que passou direto sem perceber o que acontecia na rua. Ninguém acreditava que depois de tanto tempo ainda houvesse quem fosse prestigiar uma quadrilha ali.

Mesmo assim, Jairo trabalhava ávido e sorridente. Baixo, esguio e de uma doçura que quase confundia-se com ingenuidade, mantinha-se atento à cada detalhe da festa. Quanto mais trabalhava nos preparos, mais rápido o dia escurecia, e antes mesmo que ele e seus amigos dessem conta, já era noite e chegavam à praça os primeiros convidados.

Jairo tinha cinco anos quando aconteceu o tiroteio na Rua do Fogo. Alguns de seus amigos nem eram nascidos. Não se lembrava desse dia porque era tarde e já dormia quando aconteceu, mas tinha em sua memória viva e saudosa as lembranças de como era a rua naquela época do ano. Principalmente de como as músicas embalavam o sono de seu corpo exaurido de pular, dançar e brincar. Essa lembrança o acompanhou durante os anos angustiados em que a via completamente vazia no dia de São João.

Decidido em fazer algo junto aos amigos, também moradores do Bairro, fez a proposta do que parecia não passar de um sonho. Aos poucos, foi convencendo os moradores até que conseguiu juntar às pessoas para ajudar a realizar o arraiá. Dias suados até o grande dia da realização.

Tímidos, os moradores puxavam suas cadeiras para fora das casas e sentavam-se. As crianças brincavam, correndo umas atrás das outras. Janira, dona do melhor pratinho, Roberto, dono do melhor espetinho e Flavinha, vendedora de pinga, vendiam seus primeiros preparos.

Dona Ana se alegrara e tomara um banho bem demorado. Seu Antônio, menos vaidoso, tirou a blusa pondo-a no ombro em seguida, exibindo sua redonda barriga. Depois de banhada e cheirosa, Dona Ana sentou-se ao lado do seu marido e de mãos dadas observavam o movimento.

E assim, a brasa que resistiu no pavio do candeeiro apagado, fez surgir uma chama. Os rostos das crianças, encantados diante de tantas cores, foram iluminados. O cheiro de comida boa dominava o local. Os moradores riam e brincavam entre si. As calçadas abarrotadas iguaizinhos aos olhos de Dona Ana com lágrimas, emocionados.

Jairo cantava junto aos amigos, felizes e sem vaidade. Contentes por saber que fizeram algo que jamais pensariam naquela noite: reacenderam uma tradição, a identidade da praça, a identidade do bairro, além do tributo aos antigos moradores, ali, sentados nas calçadas, que antes organizavam à festa para ele e tantos outros no passado. Cientes e orgulhosos de que, apesar de toda tragédia, a celebração à vida supera qualquer tempo ruim.

E até seu Alceu da Banca, que agora não tinha mais uma banca na praça e sim uma Borracharia em casa, atreveu-se a pôr os pés na rua. Olhando à festa, sorria estranhamente como se soubesse que em algum lugar — ao lado de São João, quem sabe… — Netinho estaria vendo aquela luz que vinha da Rua do Fogo. Das chamas alegres da fogueira, dos sorrisos e da vida que ardia em felicidade.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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