O bicho

O fim do verão levava consigo a seca e tudo estava tão vivo como há muito não se via. O cheiro de mato, agora úmido, saía de cada raiz, folha e fruto. O canto dos grilos, dos pássaros e o barulho das folhas se movendo ao rastejar algum pequeno habitante dali soava confortável como em uma sinfonia.

Nas poças d’água, girinos e peixes alimentavam maçaricos. Crustáceos se escondiam em meio a lama do pântano fervilhando em morte e vida. Ele era um estranho ali, o que naturalmente deixou todos os animais apreensivos.

Pensou que não deveria ficar surpreso ao notar o descontentamento em vê-lo. Seu perfume cheirava a flores, mas não era como as flores que nasciam na mata. Era um cheiro de dezenas delas mortas embebidas em álcool, fixador sintético e dipropilenoglicol.

Ali, entrando na mata, o mais estranho dos bichos. De pele pálida, andando bestificado em aparente desnorteio, pés calçados com chinelos de borracha, vestido com roupas de algodão e envolto numa aura cansada e amargamente solitária como nenhum outro ser vivo jamais viu em sua espécie.

Observando-o chegar, as árvores inclinaram-se em sua direção como se tirassem os olhos do céu e voltassem seus galhos a fim de acolhê-lo. O bicho estendeu sua mão tocando no galho, tímido, parado como quem pede permissão para renascer. Absorvendo sua profunda carência, aquela parcela do pulmão do mundo recebeu-o, oco, cinza como um bloco de concreto que se movia entre o verde para sua transformação.

A chuva caiu como uma torrente. O barulho das gotas nas folhas desentupiu seus ouvidos abarrotados de reclamações, maldizeres, praguejos, buzinas e vozes. A água que molhava seu corpo levava aquele cheiro sintético de flores mortas. A pequena corrente que se formou sob seus pés arrancou-lhe as sandálias. Sua blusa, de tão encharcada e pesada, por ele foi retirada.

Seminu diante da natureza crua, seus pulmões foram varridos de toda a fumaça e plasma bege que o impregnava após os cigarros da ansiedade, da fumaça dos carros, os odores do lixo, das chaminés e usinas. Seus olhos, ao ver tanta beleza, foram limpos das mais atordoantes cenas lambuzadas na profunda miséria. Sua pele, esfoliada pelo vento por micro-grãos de areia, pode finalmente respirar.

Parou de chover tão repentinamente como começou. Vagarosamente, os habitantes retomavam a sua sinfonia, as árvores olhavam novamente para o céu e ninguém nunca mais viu aquele bicho ali.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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