A entropia do ser

Sentiu o calor da forja amolecendo tudo aquilo que sempre tomou como verdade. A agitação das moléculas incandescentes já não mais reagia ao açoite. Era fogo por todos os lados, o calor, o confinamento, o estalar dos ossos e a tensão fazendo ranger os dentes.

Frágil, ansioso e incrédulo, desabafando com as árvores, chorando lágrimas secas e soluços sem som.

Quem nunca se sentiu tão sozinho que nem parecia ser, ao menos, gente?

Gente como gente? Gente como a gente.

Diante do espelho, ruíram as certezas e este, tido como coração valente, era na verdade uma massa mole como o barro, frágil como um sopro, aprisionado por uma carcaça que não lhe cabia e muito menos o sustentava mais.

Agora, nu, como um artrópode na eminência da muda. O calor e o desconforto o fez olhar para as estrelas com desespero acentuado em busca de uma resposta. Talvez uma estrela cadente a quem faria um pedido de socorro ou, quem sabe, algum sinal de que existia um destino regendo todos os acontecimentos.

E há!

Ei-lo aqui recebendo pacientemente cada martelada que este gentil ferreiro dá, dobrando sua enorme língua, tirando lascas do ego, formando pensamentos, burilando sentimentos e fomentando ações.

Ah, é a vida que em sua bárbara gentileza dá forma e personalidade ao ser humano. Forçando-o ao processo de entropia. Mudando o estado a partir da desorganização.

Não importa o esforço das palavras, nem os mais sábios dos conselhos poderão exprimir com precisão tamanha falta de romantismo sobre estar vivo, experienciando a penitência por pura teimosia.

Resistente, não à mudança, mas sim para não ceder demais e desistir. E isso, por mais absurdo que pareça, é uma oportunidade única de aprender a viver.

Assim, o ferro bruto tonou-se flor.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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