Meu nome é Helena

Lá está ele, sozinho na mesa do bar. A mesma mesa, a mesma cadeira, a mesma posição. Nunca deixando o copo esvaziar como se relacionasse este ato involuntário ao seu medo subconsciente: o vazio. Dizem ser a mais pesada e bela cruz dos líricos poetas.

Anotava ideias com aquela invenção do húngaro László Bíró, 84 anos depois, em um moleskine de capa azul escuro como os usados por Vincent Van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway entre outros. “Um dia estarei entre eles!”, dizia-me quando falava sobre a história da arte e como tornou-se escritor.

De onde estou ele não pode me ver, mas está exatamente como a primeira vez que nos encontramos. Se eu soubesse, nem sairia de casa naquele dia. Nem mesmo me descuidaria ao deixar os olhos passearem pelo salão. Neste descuido eu o vi, ele me viu, e tudo mudou.

Olhando-me, sorriu um sorriso discreto como quem espera uma rejeição e voltou rapidamente o olhar para seus escritos sem ver-me retribuir o sorriso. Depois, tentava disfarçar seu interesse enquanto eu conversava com minhas amigas e tomava Martini. Lembro como fiquei desconcertada e atraída por seus olhos duramente sensíveis.

Quando se levantou fiquei tensa, minha respiração ofegante me fazia parecer uma menina. Eu que já havia passado por tantos, mais bonitos, mais bem vestidos, me via eufórica e inquieta. De alguma forma ele sabia existir com quase proposital desleixo que passei a achar elegante seu cabelo bagunçado, suas roupas lisas descontentes e o cheiro de café, fumo e conhaque do seu blazer velho.

Mas por mim passou direto e, meu deus, como me senti frustrada. Devia estar ficando louca. Certamente foi um dos poucos momentos da minha vida em que eu não sabia de nada do que estava acontecendo comigo. Logo me recompus e tentei esquecer tudo que acabara de acontecer.

Na tarde do dia seguinte, estava na cafeteria de uma livraria tomando um frappé de cappuccino quando ouvi uma voz grave pedir um café expresso sem açúcar. Olhei suavemente para baixo e reconheci sua mão discretamente roubar alguns biscoitos do balcão. Ao virar-me, deparei-me novamente com seus olhos e ele mais uma vez sorriu.

Suas primeiras palavras já foram um convite para dividir o banco ao meu lado. Aceitei com um gesto sutil. Em um átimo terminou o seu café. Disse-me que, assim como Millôr Fernandes, sabia que esnobar era exigir café fervendo e esperá-lo esfriar. Rimos. Tentei manter-me composta e confesso mais ter ouvido do que falado qualquer coisa de mim.

Conversamos sobre tantas coisas, assuntos que pareciam não acabar. Ali mesmo interpretou alguns de seus poemas, pequenos ecos de sua cabeça confusa, e todos ao nosso redor pararam de conversar. Saímos de lá para tomar uns drinks e em poucos instantes estava perdidamente apaixonada.

Tão envolvida no poder de seus beijos e versos, dei conta de mim, nua, na cama de um motel, sendo observada pelo seu olhar romântico, lida detalhadamente em braile com o mesmo tesão em que folheava seu moleskine, com a mesma firmeza que segurava seu cigarro e a agilidade que entornava um copo de rum.

Os seus versos em minha cabeça continuavam enfeitando o céu de estrelas, sua respiração no meu ouvido falava mais que as poesias lidas e meus orgasmos foram tão doces que o quarto cheirava a rosas.

Agora, eu estou aqui e lá está ele. A mesma mesa, a mesma cadeira, a mesma posição. Nunca deixando o copo esvaziar como se relacionasse este ato involuntário ao seu medo subconsciente: o vazio. Dizem ser a mais pesada e bela cruz dos líricos poetas.

Está a escrever sobre mim? Quem sabe. Ou talvez sobre uma outra qualquer que também conheceu numa cafeteria e a fez ter a sensação de que teria para sempre seu coração. De que jamais poderia se sentir feliz se não fosse do seu lado. Que se tornaria a inspiração de todos os seus medíocres versos de amor.

Talvez ele não se lembre do meu rosto, nem meu nome, mas certamente saberá o porquê deste desfecho e o motivo de ser pelas minhas mãos, que mal conseguem segurar o peso desta arma.

O final de um poema de amor como jamais sonhou escrever.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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