Vento que tudo cabe

Parecia morrer
e talvez fosse mais fácil
se assim fosse.

Se por um descuido bobo,
um tropeço na calçada
jogasse-a
na frente de um carro
colhendo-a
sem deixar nada.

Mas ali,
diante de seus olhos
embaçados d’agua,
a última vez que veria
aquele olhar
que tantas vezes
a confundiu
com constelações.

A voz grossa
que parecia
ora sossego,
ora intensidade,
ora fluido,
ora ancoragem.

— Ora por mim,
tens piedade!

Mas era tarde.
Precisava ir.
Já era tarde.
Já era tarde demais.

Ia também
por sequer suportar a ideia
de fazer sofrer
a quem em troca
dedicou-se
com tamanha ternura.

Enxugando o rosto
com as mãos tremulas
disse-lhe apenas

— Meu bem, preciso ir.

Beijou-o.
Mais uma boca
[quem sabe]
a maldize-la
como criatura.

Mais um olhar perdido
tentando entender
e reconhecer
a moça
que há pouco lhe fazia sorrir
e agora lhe faz sofrer.

Maldito seja,
quem a ancorou no medo,
que a fez tomar como verdade.
Seduzindo-a,
apresentando-o
como liberdade.

Até parecia ser
como diz o poeta,
vento que tudo cabe,
mas no âmago era só
solidão.

Por medo
não compartilharia.
Sua verdade era dizer
que quando realmente sentia,
não tinha mais controle
de nada.

Ao se tornar mais uma vez
arrependimento
de alguém, de vários,
de quem, com algum cuidado,
a desatou.

Deu as costas na certeza
de ter se transformado,
em algo ainda mais triste,
que o monstro
que a criou.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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