O amor que nunca vivi

Me flagro tendo saudade
de amores que nunca tive.
Há, porém, quem duvide
que se tenha saudade assim.

Para o espelho ensaio o discurso,
conto a empolgante paixão em curso,
de uma declaração de amor promovida,
que nunca existiu, nunca, em vida,
que nunca, nunca, se deu em mim.

Agora, todo os dias
passo café com alegria
pensando no meu maior amor,
a minha mais bela companhia,
tudo aquilo que me restou
e sentando-me à mesa
espero contendo a tristeza
da saudade de alguém
que por aqui nunca passou.

Sinto-a aqui do meu lado
e para dar-lhe espaço, me ajeito
lembro do rosto pequeno,
do cabelo espalhado em meu peito,
a respiração enquanto dormia,
de tudo que sorrir a fazia,
soube então que jamais cessaria
a saudade de tudo que nunca foi feito.

Eu sei que parece estranho,
mas se pode-se morrer de amor
sem, de fato, ter morrido,
por que não posso ter um amor,
amor que nunca foi vivido?

Sigo, então, saudoso
agindo em um afane sutil
da literatura e da música,
tocada repetidas vezes em meu vinil,
que para todos meus amores me doei,
mas tenho certeza que nenhum mais amei
do que esse amor que nunca existiu.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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