A joia do céu

Caminhava com a mochila pesada de velhos amigos. Centenas de páginas sobre uma ciência tão antiga quanto a humanidade, tempos em que buscava-se nas salamandras do fogo, nos gnomos da terra, nas ondinas na água e nos silfos do ar os caracteres ocultos do Grande Arcano. Princípios que sabiam, queriam e ousavam práticas cujas revelações calavam aos olhares curiosos das almas incrédulas, insensíveis e vulgares.

Símbolos e fábulas que continham os mais profundos mistérios do bem e do mal, propondo àquele que os dominar ser o dono deles. A síntese da persona de Deus e do que é criado quando se caminha rumo ao escuro que habita à sombra Dele.

O tempo em que não haviam dividido o homem e a divindade, o tempo dos filhos de Adão e Eva, o tempo dos herdeiros que almejavam a chave dos portões do Éden e serem novamente bem-vindos pelos querubins que os guardavam dos condenados de provar do fruto proibido da Árvore do Conhecimento.

Seguía discípulo destes mestres póstumos que outrora pereceram à loucura ou nas chamas da fogueira. Comigo, passo a passo, acompanhava-me uma gentil e cruel amiga de todas as horas desde que busquei equilibrar as proporções do enxofre, do mercúrio e do sal para tornar todo metal em ouro e possuir o elixir da vida eterna.

Esta sublime aliada, ao passo que me trazia santas inspirações e soprava-me o entendimento destes grimórios, estrangulava meu diafragma com suas mão gélidas.

— Ah, solidão! Como poderei pagar seu alto preço por me dar tudo que queres tal como mereço. Por que me marginaliza? Por que me cobre com o manto da loucura e me veste com estes trajes de bobo, fazendo que todo aquele que me ouça pense que sou celerado? Por que me dá de comer este banquete numa mesa imensa e sem cadeiras?

Em resposta, ela escancarava-me as pálpebras e mostrava que as fogueiras inquisidoras já não mais existiam fisicamente, mas mentalmente e socialmente elas se multiplicavam, assim como o número de inquisidores. Há um motivo para, como um velho eremita, esconder-se sob o manto da invisibilidade. Era certo de que nesta caminhada já havia sido expulso de muitos paraísos.

O Sol se punha e a Joia do Céu, Vênus, sorria para mim com seu amor e beleza enquanto o lugar onde eu estava na Terra dava as costas à estrela magnífica. Vinha então a discreta Lua presentear-me com os reflexos de luz que minguavam sobre as marés.

Exausto, depois horas de uma longa caminhada enquanto a solidão se apossava de mim, sentei-me no banco de uma praça, numa área coberta que me abrigasse da chuva grossa que caía e fiquei em silêncio, um absoluto e cruel silêncio. Foi quando inebriado com a fumaça do meu cigarro acreditei ter visto uma sombra se formar pouco adiante.

A fumaça ardeu em minha vista e após esfregar os olhos, aos poucos, pude observar que vinha em minha direção um velho homem arrastando sua tralha em um carro improvisado. As roupas surradas, escuras de cor e de sujeira, eram amarronzadas e frouxas como a túnica dos franciscanos. No pescoço alguns colares artesanais de sementes e um grande chapéu que lhe cobria levemente o semblante.

Sentou-se ao meu lado, estava completamente seco contrariando a tempestade. A igreja dava suas badaladas sinalizando a chegada da noite. Os cães que latiam, silenciaram com um gesto de sua mão e deitaram-se mansos próximos de nós. Havia uma presença de espírito naquele senhor que me sugava, sentia-me estranhamente atraído a sua pessoa, embora a antipatia para com as suas vestes e sua situação de rua.

Após alguns instantes sentado, rompeu o onipresente barulho da chuva com sua voz grave, perguntando o motivo de minha chateação.

— Nada. — Respondi atravessado.

Riu descrente, dizendo que sentira-me a quatro quarteirões e cedeu à curiosidade vindo ao meu encontro. Fez um cigarro com fumo picado e, enquanto a fumaça vinha toda para mim, repetiu a pergunta.

— Nos conhecemos? — Retruquei.

— Talvez, sim. Talvez não…

Repetiu a pergunta uma última vez, mas ele já sabia da resposta, pronunciou ao mesmo tempo que eu o nome da minha grande amiga e carrasco: solidão. Sorriu e olhou para o tempo, voltamos ao silêncio.

O céu se cobrira de nuvens cinzas e ele permanecia sereno. Então perguntou-me se eu conhecia algo sobre as estrelas. Respondi-lhe que pouco, já com a língua entre os dentes na ânsia de compartilhar as minhas recentes descobertas da astrologia. Perguntou-me então onde estava o Cruzeiro do Sul em meio as nuvens e apontei a direção. O mesmo fiz para Orion, para a Ursa Maior, para Vênus.

— Ora, viajante, por que te queixas de solidão se tens teus grimórios? — Olhou-me profundamente.

— Não entendo a que se refere, senhor.

— Ora, vamos! — Fez com a mão um símbolo secreto, tão simples e tão antigo, o pantáculo de Levi. Vi então que falava com um Iniciado.

— A magia te deixou assim?! — Espantei-me com medo de estar me deparando com meu futuro.

— Que deselegante de sua parte. Não te julguei pela nuvem cinza que te acompanha, viajante, nem por essas larvas que te sugam a vitalidade. Por que, então, julga minhas vestes? Mas se quer dizer livre, se queres dizer leve para caminhar por cima e por baixo das folhas, sim, é o que te responderei. Ande, agora responda-me!

— Não tenho com quem dividir tais maravilhas.

— Divides nas folhas destes livros que tanto devora.

— Mas a sua voz é muda… queria compartilhar aos outros como eu.

— E que fizeram para serem merecedores do que conquistastes com todo esforço?

— Nada.

— Então não são como tu.

— Mas me são queridos.

— E se tu compartilhasse, o que diriam teus queridos? — Houve um silêncio em seguida.

— Nada! — Pronunciamos juntos a mesma palavra.

O diálogo foi seguido por outro breve silêncio enquanto em meio aos seus colares ele parecia procurar algum específico, segurou dois na mão e após uma baforada no seu fumo acenou com a cabeça para si mesmo.

— Segue, viajante, ainda há tanto para caminhar e quando olhares para trás verás que nada foi em vão.

— E o desconhecido?

— Saiba!

— E a dúvida?

— Queira!

— E o medo?

— Ouse!

— E quando eu chegar lá?

— Cale.

A chuva diminuíra e o céu começava a se abrir. O senhor tirou o chapéu mostrando um rosto maduro e de fortes traços indígenas. Desfez-se do casaco e tirou de seu pescoço o colar escolhido, que segurava com as mãos, e o colocou em mim. Saiu abandonando suas vestes primárias e a bagagem sem nem olhar para ela. Só assim reparei como era alto. Despediu-se com um até breve e parecia sumir ao passo que se distanciava.

Ergui-me em um átimo e gritei:

— E quanto a solidão?

— A sente? — E continuou caminhando sem olhar para trás.

— Não mais, mas é temporário. Ela sempre voltar para sufocar-me!

— Deixe seus pés caminharem sem a supervisão dos seus olhos e olhe para o que realmente importa. — Virou-se respondendo.

— Mas me diz então tu, por que veio aqui se só reproduziu o que minha fé afirma e o que minha razão comprova?

— Uma estrela me guiava e quando lhe senti sabia que chegara a hora de cumprir minha missão. Vim de pé e vim de longe, andei noite e andei dia. Serei teu guia, chamo-me Urubatão, mas tu me chamará Urubatão da Guia. Trago a força do sol, trago a força desta guia — falou-me apontando para o colar de contas marrons que botara em mim.

— Eu aceito sua ajuda, Urubatão da Guia, mas me dizes então como continuar?

E sumindo diante dos passos que se tornavam cada vez mais largos e distantes, fiquei sem resposta. Exausto, porém leve, olhei para o céu limpo — e como ficara bonito após a tempestade — e uma voz, a voz daquele senhor dentro de mim disse:

— As estrelas, viajante, quem se guia pelas estrelas nunca se perde, quem enxerga a sua luz nunca viaja sozinho.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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