Escrevi em prosa porque tenho pouco a dizer

Quando eu era pequeno tive uma namoradinha, Elisabete, era como se chamava. Eu não lembro se quando a pedi em namoro tinha rosas, se foi em algum lugar especial da escola ou se disse algo bonito, ou se, de fato, alguém fez um pedido oficial, mas eu lembro da mãe dela dizendo: “eles são tão bonitinhos que poderiam ser namoradinhos”.

Desde então, eu sentava do lado de Elisabete na fileira de cadeiras. Ela não falava comigo e eu entendia, porque era dedicada aos estudos. Eu não puxava assunto pela minha timidez, mas gostava de estar do lado dela e de como ela escrevia sem esforço com uma letra bonita, e de como dividia por cores os assuntos no seu caderno. Naquele ano, de tanto reparar nela durante a aula, fiquei de recuperação em quase todas as matérias.

Lembro de ter dito ao meu pai que eu estava namorando e ele, surpreso e com um sorriso largo no rosto, disse que eu cuidasse bem dela. Para não lhe tirar a expressão de orgulho, não perguntei como se fazia isso. Eu continuava sentando perto dela mesmo que suas amigas implicassem comigo, diziam que eu era esquisito e riam, mas ela não ria de mim. Elisabete me olhava pesarosa e depois afastava suas amigas perversas.

Eu gostava de ficar perto dela, ela tinha um uniforme novo e chegava sempre com seu cabelo penteado e uma mochila grande e rosa, uma lancheira da mesma cor com sanduíche de geleia de cereja. Passei a tomar banho antes de ir à aula, não subia nas árvores durante o recreio para não me sujar e molhava o cabelo para mantê-lo penteado para trás.

Certa vez, vi em um filme que mulheres gostavam de rosas. Então, se ela era uma versão menor da minha mãe — pensava —, que é uma mulher, devo dar rosas da metade do tamanho que minha mãe recebia de meu pai. Mas sem o dinheiro para comprar rosas, pedi que minha mãe apanhasse uma flor de hibisco amarela, que se sobressaía por cima do muro, de dentro de um quintal, no caminho para o colégio.

Chegando lá, esperei ela vir e se sentar. Virei-me em sua direção e, sem dizer nada, estiquei o braço com a flor. Exitou, mas apanhou-a e a colocou no canto da cabeça, prendendo na quina da orelha. Virou-se para mim novamente — era a primeira vez que fazia isso espontaneamente — e disse: só você, menino, que vê as coisas onde ninguém mais vê.

Aquelas palavras ficaram marcadas em mim durante os dias, meses e os anos que se passaram. Inclusive agora, que me lembro dela. Nas férias de julho não conversamos sobre os planos e nem nos despedimos como nunca fizemos nenhuma vez durante o namoro, mas eu escrevia cartas para ela contando sobre o meu dia e sobre o quanto gostava dela. Minha mãe entregava à mãe dela, que trabalhava no posto de saúde do bairro, endereçando a Elisabete.

Quando voltei das férias ela não apareceu na primeira semana e nem na seguinte. Ficou ao meu lado sua cadeira vazia, que de instante em instante eu olhava esperando que ela surgisse como em um passe de mágica. Não demorou para que eu soubesse que ela tinha sido mudada de colégio.

Eu não me lembro se fiquei triste de início, porque continuava a escrever para ela, dia e noite, comia à força, banhavam-me à força, até que um dia fui vencido pelo cansaço. E chorei, e chorei sem que meu pai nem minha mãe me dissessem nada que pudesse me consolar. Aos oito anos de idade eu já era um homem machucado pelo amor.

Eu nunca mais tive notícias de Elisabete, e quando me lembro dessa história me pergunto o porquê de deixarmos de nos apaixonar e namorar como as crianças. “Porque crescemos” poderia ser a resposta, mas… seria a resposta tão simples assim?

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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