O desafio de ser seu próprio mestre

Naquele dia 14 de julho do ano de 2016 sentei-me no chão do Congá e chorei. Chorei até a vontade acabar. Passaram-se 6 dias que meu Pai de Sangue e Babalorixá havia falecido. Para mim, naquele momento, só as imagens de gesso testemunhavam meu pranto. Muni-me de uma vela branca, um copo com água e cantei para os pretos velhos como um neto que pede o colo. Subitamente incorporei o preto velho que me acompanha, Pai Cipriano de Angola, que chamou minha mãe e irmã. 

Disse-lhes ele que era preciso entender que a missão do meu Pai havia sido cumprida e que, ainda que faltasse um membro, deveríamos nos manter juntos como família. Que por respeito ao egum e seu despertar no mundo espiritual, não seriam acesas velas, nem lhe feitas preces e evocações. Que a partir desse dia os tambores seriam silenciados e cobertos por 21 dias. No nascer do Sol do dia seguinte ao final do preceito, eu poderia procurar um lugar para dar continuidade ao desenvolvimento. Que eu tivesse paciência, que eles sempre estariam comigo. Fez uma prece, e desincorporou.

No dia seguinte, 15 de julho do mesmo ano, tomei uma das decisões mais importantes e difíceis da minha vida. Sem a segurança do Babalorixá, segui as orientações de Pai Cipriano, mesmo sem conhecê-lo, temendo o animismo (quando o médium passa a frente da entidade) tendo em vista a minha falta de experiência com a incorporação, mas fiz. Ali estava eu, aos 23 anos de idade, fragilizado emocionalmente, herdeiro de um terreiro que há mais de 30 anos ajudou centenas e centenas de pessoas, recebendo, naquele dia, todos os ativos do corpo mediúnico para uma reunião. 

Foi a primeira vez que vi a cadeira que o Babalorixá ocupava vazia. Me vi pequeno. Olhei para todos aqueles rostos emocionados e soube que, naquele momento, embora eu me esforçasse, não conseguiria preencher o espaço que a presença física e de espírito que meu pai, nosso Babalaô, ocupava. 

A mensagem foi curta como golpe de uma foice, e lembro-me palavra por palavra como se fosse hoje: “Bom, por não ter condições emocionais e não ter tido instrução para dar continuidade ao trabalho desenvolvido nesta casa, eu, em nome do nosso Babalorixá, sob a orientação de Pai Cipriano de Angola, na condição de Filho de Santo e herdeiro de sangue deste chão, dou por encerrada as atividades desta casa. Todos aqui presentes estão livres para procurar um local para desenvolver. Se isso acontecer primeiro comigo, certamente indicarei a vocês”. Eventos como esse marcam não só a memória, mas acredito que eu renasci naquele dia. 

Uma série de eventos curiosos aconteceram até que, por fim, pudesse encontrar um terreiro que me acolhesse e que as entidades que me acompanham permitissem que eu desenvolvesse. Um deles foi aprender a confiar e ler corretamente um outro método de comunicação com o sagrado para amparar-me espiritualmente. Meu pai me ensinou a leitura do Tarô aos 14 anos, instrumento que o companhou por toda a vida espiritual, e essa foi uma ferramenta fundamental, um guia, um oráculo pelo qual consultava o próximo passo deveria dar. 

Eu costumo ver pessoas desdenharem do Tarô resumindo-o dentro de suas limitações (e preguiça de estudar) a um simples jogo de adivinhação. Sim, existem adivinhos que profanam a essência do Tarô, existem baralhos com cartas que são simples combinações do quotidiano, como vi recentemente um arcano que se chamava “A CASA”, e o adivinho dizia de forma pomposa: “Você está com questões para resolver em casa? Com a família? As cartas indicam isso”, como se isso fosse algo fora do comum, como se só aquela pessoa no mundo tivesse problemas em casa ou como se existisse uma família perfeita que não exigisse de nós atenção. O que justifica a difamação do oráculo com tais preguiçosos. O Tarô faz a sua seleção natural.

O Tarô ao qual me refiro aqui são os 78 arcanos e, mais especificamente, no meu caso, os 22 arcanos maiores. Para Constantino K. Riemma, autor do blog Clube do Tarô,

Trata-se de um jogo de 78 cartas, que se difunde a partir da segunda metade do século 14, na Europa cristã, com iconografia cristã. Não dispomos de registros históricos que indiquem alguma escola ou corporação de ofício que tenha criado esse conjunto ou feito adaptações de jogos tradicionais anteriores. Tudo indica que ganhou a forma que hoje conhecemos pelas mãos de artistas e artesões que tinham conhecimentos e habilidades adquiridas entre os edificadores dos palácios e igrejas no período pré-renascentista, bem como suas pinturas, imagens e vitrais.

É importante lembrar, do ponto de vista histórico, que existe um exemplar de baralho com 52 cartas, anterior às versões que hoje conhecemos. Trata-se do baralho Mamlûk, utilizado pelos guerreiros mamelucos e que, evidentemente, tiveram suas cartas copiadas pelos impressores europeus. Continua uma incógnita, até hoje, quais foram os autores dos 22 trunfos (arcanos maiores) agregados ao modelo do baralho mameluco.

Cada Arcano do Tarô é, em suma, o capítulo de um livro que se abre para a questão perguntada. Cada arcano tem uma história, lenda, iconografia, que lembram os odus do Jogo de Búzios, onde o oraculista interpreta de acordo com o que é apresentado (ou não) pelo consulente, sendo que a diferença entre o Jogo de Búzios e o Tarô é que quem fala no Tarô não é Exu, e sim a sincronicidade da “manta do destino” que é captada pelo Tarô e interpretada pela intuição do médium de acordo com a disposição das cartas.” 

Constantino K. Riemma

O Tarô não pergunta, não adivinha, ele diz. É assim que funciona um oráculo. Essa é a diferença do tarólogo que citei acima versus o oraculista. O oraculista lê um oráculo, busca questões filosóficas dada a caída das cartas, sua simbologia, seu arquétipo para suprir, para alimentar sem dúvidas e, principalmente, sem extorquir com suas mentiras no mercado da fé.

Se me perguntarem quem me guiou antes de estar onde estou hoje digo sem receios: certamente os guias que me acompanham e os 22 arcanos maiores do Tarô.

Assimilar essa bagagem às novas práticas, entender e respeitar a minha tradição e me adequar a uma nova, conservando os princípios sem ofender os princípios espirituais de ninguém, entender as críticas motivadas pela ignorância, lidar com o isolamento, manter-me firme em minhas convicções sem ser rude ao ponto de não aceitar a mudança é o que me faz reescrever esse passado sem culpas nem medos, nem do futuro. Certo de que naquele dia Pai Cipriano fez o que um guia espiritual faria: me ajudou a continuar caminhando para frente.

Alguns anos depois voltei ao Congá e sentei-me na cadeira do Babalorixá, que agora era só uma grande cadeira de frente para o altar. Pensei que dessa vez era outro homem que estava diante de Oxalá. Senti que ali se reuniram as imagens de gesso, o Caboclo Urubatan da Guia e Eu. Em silêncio vimos a degradação do espaço. Toda aquela vida, toda aquela movimentação diária, oferendas, aluás, padés, o acordar e dormir com o som dos atabaques, não estavam mais ali.

Tomado pela saudade e o que posso dizer ser uma “ira santa” confrontei meu guia, dizendo-lhe: “Por quê? Por que eu tenho que ser a testemunha deste Templo que se resumiu a um altar? Por que tenho que simplesmente colocar uma pedra em cima desse terreiro como se nada tivesse por aqui acontecido, como se aqui tivesse morrido junto com o seu Babalorixá?”. Então, o Caboclo Urubatan da Guia respondeu em meio ao meu choro:

“Filho, foi justamente onde eu te vi colocar uma pedra em cima, pesarosa e abnegadamente, que eu ergui as colunas do teu Templo”. 

E eu só chorei mais, de vergonha da minha revolta, embora saiba que ele entendeu e me perdoou pela revolta movida pela comoção.

Quando aceitamos a caminhada espiritual, quando a colocamos como princípio, muitas coisas irão nos por em dúvida. Essa insegurança é natural. Você vai até se perguntar: “mas eu rezo, eu me trabalho, por que as coisas não dão certo?”, quando a reflexão deveria ser: “Tudo que acontece na minha vida está sob judice daquele a quem entreguei a minha caminhada. Por isso, dá-me, meu Pai (minha Mãe), não o que te peço copiosamente, mas o que é melhor para mim”.

Agora, entender que todo o sofrimento passado foi necessário para a construção do meu Templo, do meu EU, que abriga os meus princípios e repousa meu espírito quando me sinto cansado, mostra o quanto devemos ser gratos às experiências que nos levam até o hoje. Que mesmo que a vida, as pessoas ao seu redor, lhe deixem nas leis naturais dos encontros, você nunca estará sozinho se comungar com seu Guia. A caminhada não precisa ser solitária, mas precisa ser tratada como única. Só você sabe sua luta e o que foi preciso para chegar até aqui. Não dê ao outro o direito de reconhecer ou legitimar sua história, aprenda a só ser.

É possível ser mestre de si, principalmente se excluir a comparação e substituí-la pela inspiração. Me inspiro em muitas coisas e em muita gente. Me inspiro nos guias espirituais que me acompanham. Eu disse recentemente que, no meu caso, agora que vos apresento minha história, “não se pode tirar algo de alguém que já perdeu tudo”. 

E você, o que acredita e diz de você?

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Um comentário em “O desafio de ser seu próprio mestre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: