Reflexões sobre Magia

A Magia e a forma como nos relacionamos com ela mudou. Todavia, as mudanças são esperadas quando tratamos de algo que está em constante movimento e que acompanha as civilizações e a evolução da raça humana. Com tantas ferramentas à disposição, seria muito rude de minha parte querer condenar novas práticas (embora ache algumas inúteis por não terem fundamento algum), mas tantas manifestações causam-me certa estranheza. O motivo pelo qual reflito neste texto é que a essência de sua existência pode estar sendo comprometida pela banalização de seus praticantes.

A própria palavra “Magia”, que aqui coloco entre aspas para dar apenas destaque, vem perdendo significado (e a força que a palavra tem), passando a ser usada muitas vezes para definir algo fantástico como nos filmes, ou “bobagens de mentes férteis”, ao ponto em que presenciei, em um diálogo entre dois amigos e eu, onde um não era umbandista, e justamente o que não era umbandista nos perguntar: “…mas na umbanda tem aqueles negócios de magia?” e a pessoa ao meu lado respondeu: “Não, lá é Umbanda, não tem essas coisas não”.

Dentro do contexto apresentado, é fácil entender o equívoco. Não era da Magia, essa que representarei com “M” maiúsculo, a que ela estava se referindo. Era a magia, com “m” minúsculo, dos filmes, a “do mal”. É indiscutível que o cinema, como exemplo, certamente foi uma grande revolução para a humanidade. Quando se fala de filmes de fantasia/magia, além da brilhante interpretação dos atores, que dão vida à personagens tão singulares imaginados pelo autor, os efeitos especiais nos ajudam a mergulhar profundamente no mundo apresentado, com suas cores, seres mágicos, luzes faiscantes, encantamentos e feitiços usados na incessante luta do bem contra o mal, fazendo-nos acreditar que é assim que funciona na prática, mas não é.

Vejamos o exemplo a seguir.

Dona Maria, no interior do Ceará, recebe uma ligação de parentes informando que seu filho, Eduardo, está com uma forte virose que o debilita há alguns dias. Maria vai ao seu quarto, acende uma vela branca nos pés da imagem de São Lázaro, reza seu terço pedindo que o Santo interceda pela cura de seu filho. Ela repete isso todos os dias, no mesmo horário, com a mesma oferta de uma vela branca. Enquanto reza, na sua mente ela imagina seu filho, alegre, bem, se alimentando, se recuperando. Dona Maria recebe outra ligação três dias depois, seu filho está curado.

A Magia não é boa, nem é ruim. Não pertence ao bem e nem ao mal. A Magia existe e é manipulada pela vontade do magista. É através dele e por seus instrumentos que a Magia desencadeia sua força energética, estando, como eu disse anteriormente, a mente ciente ou não. Para Dona Maria, a fé curou seu filho, e não tenho dúvidas da verdade disso, mas saliento que sua vontade, alimentada pelo ritual (mesmo horário, acender a vela, rezar a mesma oração), promoveu não só uma egrégora de cura em volta do filho, formando um escudo de proteção contra as energias densas (atraídas naturalmente pela enfermidade) como, a pedido de sua vontade, aproximaram-se Falangeiros Espirituais de Cura que intercederam pelo seu filho. Foi o milagre de Deus que habita a mente de Dona Maria.

A prova de que a Magia não é boa e nem ruim e de que tudo depende do operador, é que muitos condenam os terreiros de Umbanda acusando-os de separar casais, de atrasar a vida das pessoas, sem lembrar-se que as Igrejas estão cheias de mães pedindo no Terço que a filha se separe do atual marido por considerar que ele não é o homem ideal para a ela. Que existem pessoas levando peças de roupas do cônjuge ao Culto da Libertação pedindo que a esposa/marido desista da promoção no emprego porque terá que morar em outro estado e ficar distante dos mesmos. Percebe?

Um dos mais impressionantes magistas que já conheci, não por ser meu pai, mas por ver a partir de sua manipulação feitos inacreditáveis, explicava-nos de forma bem didática que a magia é como uma fiação de alta-tensão. Essa energia que corre na fiação pode ser usada para acender as luzes de uma cidade, mas também pode ser utilizada para ligar uma cadeira elétrica e executar o condenado. O magista é aquele que sobe na escada e puxa o fio, determinando a corrente para o seu fim.

O Mundo Mágico é real?

Afirmo que o Mundo Mágico é tão real quanto minhas mãos, meus braços, este teclado que digito neste momento. Existem, claro, inúmeras leituras, principalmente nas doutrinas religiosas, mas nenhuma religião desconsidera a sua existência. Discorda? Basta que eu cite, por exemplo, os elementais. Mesmo que não os admita como criaturas mágicas, toda religião tem referências aos 4 elementos: o Fogo, a Terra, a Água e o Ar, que para a Magia são as Salamandras no Fogo, os Gnomos na Terra, as Ondinas na Água e os Silfos no Ar. E esse é apenas um exemplo.

Ainda sobre essas forças, nenhuma doutrina as explica de forma definitiva. Simplesmente porque elas não pertencem a racionalidade humana. Toda leitura criada desses seres por uma mente humana consegue apenas limitá-los ao entendimento de nossa racionalidade e não explicar o real potencial e a dimensão de tais forças da natureza. Independente da crença religiosa, não se pode negar a atuação de forças invisíveis que são independentes de denominações como anjos, demônios, espíritos etc.

O perigo presente nessa pluralidade é que cada indivíduo vivencia a Magia como sua mediunidade permite, porque o ser humano é mágico em si. O limite é a mente do operador. Portanto, minha crítica não é em relação a como as pessoas manifestam suas crenças, mas à   falta de sobriedade com que levam algo tão sério. É perigoso (e trataremos disso a seguir) quando o magista encara ao pé da letra de sua imaginação os efeitos, tratando a Magia e sua operação como um jogo de RPG (Role-Playing Game), onde os jogadores assumem o papel de personagens em um mundo.

Vi um exemplo bem próximo de um Magista que disse que conversou com um Gnomo sobre como ele poderia aumentar sua capacidade de força mágica, e narrou toda a sua viagem astral como um narrador de RPG conta o cenário da idade média. Considero, também, que possa ser uma limitação da minha parte, mas de tudo que já vi, estou quase certo de que elementais não falam. Além de não falarem, elementais são forças puras próximas à Criação, seria muita honra, ou o magista muito poderoso, para que um viesse falar exatamente com aquele que o evocou para dizer como ele pode ter poder. Por último, não se evoca elementais meditando no seu quarto, aliás, até se evoca, mas é de uma irresponsabilidade e estupidez tão grande que prefiro parar por aqui.

Ouvi toda história calado, por respeito, mas esse é apenas um exemplo de como as pessoas estão vendo a Magia e as operações mágicas, como no filme de Harry Potter (nada contra, até gosto bastante do filme). Magia é para todos, mas são poucos os que não serão vítimas dela tentando ser seus senhores.

Eu posso operar Magia?

Todo ser humano pode operar Magia, porque a Magia é natural do indivíduo. Ela não está presa a nenhuma doutrina, mas lembro-me de um amigo que recentemente me fez a seguinte afirmação: “Tudo posso, mas nem tudo me convém”. Se você me fizesse de fato essa pergunta, eu diria que você já faz.

Quando você agradece o dia e pede que ele seja bom, você movimenta energias sutis que lhe propiciam um dia bom. Quando você reza, você eleva a sua vibração de tal forma que as energias densas não conseguem penetrar. Quando você xinga o motorista que lhe fechou e deseja que ele bata o carro, você também operou magia. Agora, se estamos falando de coisas mais específicas como evocações e invocações (é diferente, vide prefixo), acender velas para entidades distintas, viagens astrais etc., desencorajo veementemente, claro, se você não sabe e não tem preparo para o que está fazendo.

Lembra do exemplo da fiação de alta-tensão? Quando vemos uma manutenção sendo feita nos postes basta observar o técnico. Ele sobe em uma escada, usa uma roupa própria, isolante, protege a cabeça com um capacete, protege os olhos e as mãos, justamente porque lidar com tanta potência pode, por um descuido, eletrocutá-lo até virar, literalmente, carvão.  Ele não vai com o corpo nu. A religião, de forma análoga, é a escada e o material de proteção, por isso a magia dentro das religiões, quase sempre, é isenta de graves consequências para o operador.

Se eu não estiver sendo claro, vou colocar aqui o que Eliphas Levi usa como advertência no seu livro Dogma e Ritual da Alta Magia:

“… O homem que é escravo das suas paixões ou dos preconceitos deste mundo não poderia ser um iniciado; ele nunca se elevará, enquanto não se reformar; não poderia, pois, ser um adepto, porque a palavra adepto significa aquele que se elevou por sua vontade e por suas obras. O homem que ama suas idéias e que tem medo perdê-las. Aquele que teme as verdades e que não está disposto a duvidar de tudo, antes do que admitir qualquer coisa ao acaso, esse deve fechar este livro, que lhe é inútil e perigoso; ele o compreenderia mal e ficaria perturbado, mas ficá-lo-ia muito mais se por acaso o compreendesse bem. Se estiverdes presos por alguma coisa ao mundo, mais que à razão, à verdade e à justiça; se vossa vontade é incerta e vacilante, quer no bem, quer no mal; se a lógica vos espanta, se a verdade nua voz faz corar; se vos sentis ofendido, quando apontam vossos erros, condenai imediatamente este livro, e, não o lendo, fazei como se não existisse para vós, porém não o difameis como perigoso: os segredos que ele revela serão compreendidos por um pequeno número, e os que os compreenderem não os revelarão. Mostrar à noite a luz aos pássaros, é ocultá-la, pois que ela os cega e torna-se para eles mais obscura do que as trevas. Falarei, pois, claramente; direi tudo e tenho a firme confiança de que só os iniciados ou os que são dignos de o ser, lerão tudo e compreenderão alguma coisa”.

Acredito que a principal pergunta que deva ser respondida não é se você pode, mas “para quê?”. Se você quer operar magia para prosperidade é uma questão, para ser rico é outra. Se você quer operar magia para conseguir um amor é uma coisa, para conseguir uma pessoa específica, é outra. Percebe? Talvez, penso eu, que seja por isso que a existência de pseudo-magistas iguais ao que citei seja algo positivo, pois, se o ser humano não só tomasse consciência, mas fosse também capaz de impor sua vontade tal qual ela nasce em seu âmago, o mundo estaria perdido.

Aqueles que não tem uma ombridade moral, com o poder da Magia se tornarão maus. Tornarão-se, porque usarão a consciência e o poder adquiridos para seus fins egoístas, para se vingar do motorista do ônibus que não parou no ponto quando ele deu sinal, para amarrar a sua mulher ou o seu marido. Esses, criam inimigos imaginários e assassinam, com suas obras medonhas, pessoas possivelmente inocentes, simplesmente por acreditarem que essas pessoas eram suas inimigas. E para essas aberrações prevalece a impressionante sentença: “O Diabo vem pessoalmente estrangular o pescoço dos feiticeiros”.

Magia, sempre será importante o “Conhece-te a ti mesmo”. O mundo espiritual respeita aquele que é digno não porque tem posses ou sobrenome, mas pela sua dedicação, pela sua ombridade, pela sua moral, e servem àquele que pode ter o amor através da magia, mas não a usa para esse fim. Que pode ter riqueza através da magia, mas não a tem. Que controla seu ego, portanto nada o compra. Que controla sua ira, portanto sua cólera e capaz de partir o mundo. Que controla o seu medo e por isso todos o temem… e o Sacerdote se faz, não pela mão do homem, mas pelo seu próprio sacerdócio.

Considerações finais

Compreendo que trata-se de uma visão minha, e por ser minha não é absoluta para todos. Existem, quando se fala de um universo tão plural, pormenores a serem considerados, mas esse não é o objetivo desse texto. Reconheço que minha visão pode parecer puritanista e segregadora, mas a Alta Magia assim o é. Não importa os livros que leia, por isso não temo revelar as fontes. Se não lhe for de ser revelado, não será.

A reforma íntima ainda é a mais poderosa ação de Magia, porque é a Magia pura e universal atuando em você mesmo, um individuo consciente que está sob influencia de pensamentos, ações e palavras. Quer praticar Magia? Comece praticando a Magia do sorriso, das boas palavras, dos bons pensamentos, das boas ações. Pratique a Magia do perdão, do amor, da compaixão, da empatia.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: