A verdadeira religião

Sabemos que as religiões são formas do homem se conectar com o divino. Elas concentram um grupo de indivíduos que, unidos, louvam, pedem, se espelham em uma ou mais divindades. Temos, dentre as mais conhecidas, a Umbanda, o Candomblé, a Quimbanda (esta última, no Brasil, está mais para um “conceito religioso” do que de fato religião e se é com “k” ou não, falaremos mais a seguir), a Católica, a Evangélica, a Mórmon e, também, o Espiritismo, que está junto a outros movimentos que não se definem necessariamente como religiões, mas como seitas, agrupamentos, rituais. Todas têm um objetivo: a conexão com forças inteligentes capazes de auxiliar o ser humano no seu caminho de evolução na Terra e depois da morte.

O meu objetivo aqui não é falar sobre as religiões, mas trazer questionamentos e colocações que possam ajudar você a responder esta pergunta: qual é a única e verdadeira religião?

Basta olhar as redes sociais para presenciar uma guerra virtual entre Pais de Santo, Tatas de Quimbanda, Pastores, Padres, todos pregando os seus métodos como únicos e verdadeiros, suas filosofias como únicos caminhos. Quando se fala de religiões que não são codificadas por um livro (como é a Bíblia para os cristãos) e muito menos regida por um único padrão (como o Vaticano padroniza a Igreja Católica), a Umbanda, Candomblé e Quimbanda saem na frente promovendo um lamentável espetáculo em busca da razão.

É fácil existirem conflitos baseados nas diferenças entre os Ilês de Candomblé e Barracões de Quimbanda, pois a primeira coisa que precisamos levar em questão é que tais religiões ou conceitos religiosos, como existem hoje aqui no país, têm seu embrião no Brasil Colônia. A vinda dos escravos da África trouxe com eles seus dialetos, práticas e crenças que de lá, dentre as Nações Africanas, já eram distintas. Portanto, é curioso ver que existem aqueles que afirmam ter o “Mais Puro Candomblé”, assim como “A Mais Pura Quimbanda”, “raiz”, ou se é “Kimbanda com K” ou “Quimbanda com Q”, quando é, na minha opinião, impossível alegar pureza. Dado a nossa história de miscigenação, não acredito ser possível impedir que palavras adotem outros significados quando adaptadas para a pronúncia do brasileiro, do ameríndio e o mesmo para as práticas, uso de materiais etc.

Não é por ser umbandista que a deixarei de lado. Pesquisadores como Renato Ortiz, no livro “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”, já nos mostra como em seu breve período de existência (comparada a outras religiões) a Umbanda se pluralizou. Vemos um movimento de “Embranquecimento” da religião, quando ela adota parte da doutrina/prática espírita e influências europeias (abolindo o uso de atabaques e utensílios africanos e incorporando, por exemplo, símbolos ao seus ritos, como a Estrela de Davi), e depois um outro movimento de “Empretecimento”, como um resgate às “origens”. Mesmo que seja mais brando ao olho leigo e mascarado sob o discurso de que todos servem a “uma só banda”, a Oxalá, basta observar que tem umbandista capaz de se irritar verdadeiramente se outra pessoa aborda um tema, prática, fundamento, que não condiz com a filosofia/prática do seu terreiro.

Ao Espiritismo, que aqui poupei em vários exemplos, lembro-me só de um colega de trabalho que sempre ao explicar algo, por eu ser umbandista, afirmava: “talvez você não entenda, pois o espiritismo é a religião para os homens iluminados”.

Então, se não desistiu de continuar a leitura, você leitor me dirá que “não é culpa da religião, mas sim do religioso”. E eu lhe pergunto: e há religião sem religioso? As Igrejas, Templos, Terreiros, Ilês, existem sem seus adeptos? É justamente aí onde quero chegar, vida religiosa ou vida espiritualista?

Um professor universitário, brasileiro, escritor e filósofo contemporâneo, Mario Sergio Cortella, trouxe recentemente, em um vídeo publicado no seu canal no You Tube, a seguinte reflexão: “O que importa é saber o que importa”. Nesse vídeo a que me refiro, Cortella usa o sentido da palavra “importar”, que é o mesmo que “trazer para dentro/si” para definir o que é de fato importante a um indivíduo. Logo, o que importa é o que associamos e incorporamos como nosso, como do nosso ser. Essa reflexão ajuda-nos a, com tantas informações do mundo moderno, selecionar o que de fato levaremos conosco e difundiremos.

Para a religião isso não é diferente. A questão aqui não é discutir qual a mais pura ou não, a mais verdadeira ou não, mas tentarmos juntos entender que cada indivíduo, munido de sua liberdade, é capaz de escolher qual caminho espiritual lhe convém, seja ele dentro das religiões tradicionais aqui citadas ou não. E, principalmente, que não existe o certo e errado, existe, claro, uma tradição que precisa ser respeitada (por exemplo, não se vai ofertar terra de cemitério para Xangô), mas obedecendo as tradições (que são práticas e conceitos centenários dentro de cada religião) a forma como cada Sacerdote conduz seus trabalhos e prega a filosofia pertence apenas a ele e seus adeptos.

Não cabe a nós julgar a conduta de outro terreiro baseada na nossa. Não cabe, aos cristãos, condenar a Quimbanda e vice e versa. Não cabe a Quimbanda condenar a Umbanda e ao Candomblé. Não cabe ao Candomblé condenar a Umbanda e aos cultos de Quimbanda. Cada indivíduo escolhe e eu acredito que ela também o escolhe!

— Calma!

Veja bem, se no mundo espiritual os espíritos se unem de acordo com as suas egrégoras, assim como nós seres humanos nos unimos à pessoas que partilham de nossas ações, opiniões, condutas, ideologias e vibrações, também as Igrejas Cristãs, Terreiros, Ilês, Barracões etc. tem, não só espíritos que pertencem àquela egrégora, como pessoas que conseguirão encontrar apoio nesses lugares.

Quando fui a um terreiro de Umbanda que praticava sacrifico animal em seus cultos (ressaltando que minha posição é de profundo respeito aos Sacerdotes que assim o fazem) percebi como minha vibração se comportava e logo concluí que não faz parte da minha egrégora pertencer a uma doutrina que o pratique, percebe? Se fui criado embasado pela doutrina cristã, se fui educado à lei do retorno, a lei do Karma, o que faria eu na Quimbanda? Não que a Quimbanda seja errada, mas seus conceitos de moral são diferentes dos conceitos de moral aos quais fui criado e educado religiosamente. A Quimbanda não é imoral, é amoral, e existe uma grande diferença nisso.

Quando decidi começar de fato meu desenvolvimento espiritual, em 2014, aos 21 anos, não foi a Umbanda a quem procurei primeiramente. Antes fui a uma reunião na Barquinha, que traz, numa explicação pouco refinada de minha parte, um misto de Umbanda, Espiritismo e o uso do Santo Daime. Eu nunca havia incorporado antes deste evento, jogava Tarot, ajudava meu Babalorixá na época com seus trabalhos, mas não achava que eu tinha mediunidade de incorporação, nem mesmo vocação para a religião de meu Pai.

No dia em que tomei o Daime, muitas sensações se abriram e eu vi o potencial mediúnico que eu desacreditava dentro de mim. A pergunta que me cercou durante alguns dias, após a sessão, foi: se eu nunca havia manifestado nada na Umbanda e manifestei no Daime, por que não continuar com o uso do Daime?

Apesar de ter muito respeito e gratidão pela experiência na Barquinha, a resposta para essa pergunta foi que o Daime não pertence a minha tradição. Logo seu uso e a doutrina da casa entrariam em choque com meus princípios e, por isso, decidi que para alcançar a espiritualidade seguiria a doutrina de Umbanda. E mesmo hoje, estando a Umbanda tão enraizada na minha vida, não desconsidero ser apenas espiritualista um dia.

Particularmente, acredito no que já disseram os Iluminados, que a única e verdadeira religião é o amor. O amor além da nossa limitação material. E deixo a vosso julgo, mas assumo para mim como verdade, que a vida religiosa nos convém, mas o que nos evolui é a comunhão do ser humano, cujo o único meio é a fé, e a Espiritualidade.

Uma vez escolhida uma religião, essa deve servir como caminho, como aspectos filosóficos e práticas que não ferem os seus princípios e, sim, os complementam. É a escolha da forma como compreende a caminhada necessária para conduzir seus passos na Terra. É onde você escolheu espelhar-se em um Sacerdote e incorporar na sua vida os valores das divindades. É onde você escolheu, e que trouxe para dentro de si, os valores, a história e tudo que ela engloba.

Uma vez assumida a postura espiritualista, há de se fazer, como afirma Eliphas Levi, o bem não porque Deus quer, mas fazer o bem pelo próprio bem, o amor pelo próprio amor, a compaixão pela própria compaixão, o perdão pelo perdão etc. Há de não se limitar apegando-se aos fragmentos que compõem verdades relativas da Luz Primordial, mas de encontrar no “conhece-te a ti mesmo” o caminho de volta para dentro, onde verdadeiramente habita o Templo de Deus.

“A Luz Primordial, por não ser composta, é a única “substância” plenamente Absoluta em nosso Universo. Sempre que acessamos a dimensão Luminosa transcendemos as formas, as diferenças, e adentramos ao mundo no qual a Consciência Espiritual é Livre de incoerências. A Luz Absoluta está para a Sabedoria dos grandes Mestres como a verdade relativa está para as instituições que os representam. A Espiritualidade é o instrumento que transforma conhecimento em Sabedoria. Na qualidade de Espiritualistas, nosso compromisso é encontrar, na Luz, o significado da Vida.”

Fragmento do 2º princípio da Filosofia Guaracyana.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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