Orar é a solução

Esses dias tive acesso a um conto escrito pelo meu pai intitulado “Caminhos do Destino”. Nele, temos uma narrativa de como toda a sua vida espiritual começou e o levou até o Sacerdócio na Umbanda, no Centro Espírita Maria da Conceição do Mar, na Penha (RJ). Dentre todos os casos e seus detalhes, relatos de uma vida batalhadora e solitária onde a fé era o único porto, um deles me chamou mais atenção, este que foi durante toda a sua vida, ao meu ver, uma de suas principais características: estar constantemente em oração.

“Uma noite deixou a sede da prefeitura, onde conversava com o prefeito, perto da meia-noite. Ao passar próximo ao cemitério da cidade, no início de uma curva de descida, o carro teve a parte elétrica cortada. O motorista havia bebido umas cervejas, e não teve reflexo de acompanhar a estrada. O carro por pouco não caiu num precipício, mas ficou totalmente destruído, ao bater numa enorme rocha.

…Na hora do acidente, com a pancada no diafragma ficou sem ar. Lembrava-se das orações repetidas na mente… “Aquele que repousa no socorro do Altíssimo pode permanecer tranquilo debaixo da proteção do Deus dos Céus…” Desde bem pequeno era devoto do Salmo 90. Muitas vezes fora salvo ao rezar esse salmo que já sabia de cor” .

Caminho do Destino, Professor Orion, 2016

Todos os dias ao acordar, depois de cumprir seus preceitos, Professor Orion munia-se de seu livrinho de orações, aliás, de seus livrinhos de orações e rezava. Nesse momento, pedia a sua esposa e filhos que, pelo motivo que fosse, não o interrompessem até que ele terminasse. Cresci vendo essa cena se repetir, até que eu mesmo passei a reproduzi-la.

No começo, imitava até as nuances da sua voz e confesso que nem sempre tinha a dimensão do poder contido nas palavras que proferia. Com seu ensinamento de prática constante e com o passar do tempo, logo eu atestava o poder da oração e a capacidade que a mente tem de moldar nossas vidas.

Existe uma forma certa de rezar? Eu acredito que não. O ato de orar é muito íntimo e sendo assim compartilho de uma luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, quando ela esclarece:

“A prece é agradável a Deus?— A prece é sempre agradável a Deus quando ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para Ele. A prece do coração é preferível à que podes ler, por mais bela que seja, se a leres mais com os lábios do que com o pensamento. A prece é agradável a Deus quando é proferida com fé, com fervor e sinceridade. Não creias, pois, que Deus seja tocado pelo homem vão, orgulhoso e egoísta, a menos que a sua prece represente um ato de sincero arrependimento e de verdadeira humildade.”

Capítulo IV – Da Prece – 658, O Livro dos Espíritos.

Por tanto, meu objetivo não é tratar de como se reza, mas tecer aspectos que podem lhe ajudar a alcançar níveis cada vez maiores de consciência a partir do hábito de rezar, pois acredito que o homem é capaz de orar não somente para se aproximar de Deus, louvá-lo e entregar seus pedidos, mas para fazer de sua oração um cavalo (falaremos sobre isso mais à frente) cuja vontade faz montaria e chega ao seu objetivo.

Um conceito básico de energia 

Antes que possamos iniciar a analogia a seguir, é preciso que seja feita uma pequena introdução sobre “energia”, que tem o conceito um pouco mais abrangente do que a ciência humana nos propõe. Por “energia”, entende-se uma “força vital” capaz de realizar ações e obras. Várias culturas, além da nossa ocidental, têm suas leituras dessa energia universal. Na Índia chamam de “PRANA”, na China chamam de “CHI”, no Japão “KI”, os africanos de “Axé”, todas fazendo referência a essa força vital do qual nosso Planeta, e todas as coisas que nele estão, são abundantes.

Nós humanos, por sermos feitos de matéria somos energia (E=MC²) e capazes, não somente de senti-la (Energia da Consciência), como emiti-la (Energia de Emanação).

A mente como capacitor

Os circuitos eletrônicos, em sua maioria, dispõem de uma pequena peça muito comum e importante para seu funcionamento: os capacitores. Esses componentes acumulam energia eletrostática e a liberam para que cumpra sua função determinada pelo circuito. A mente humana, de forma análoga, é capaz do mesmo feito, de armazenar energia (cósmica) e depois direcioná-la a um propósito.

Ao passo que o capacitor é alimentado pela corrente elétrica, nossa mente e o seu estado alterado de consciência são alimentados pelas preces, cânticos, o uso de velas, instrumentos musicais, incensos etc. Ao atingir o ápice de concentração de energia, a mente passa a ser não só receptora, mas também emissora (Energia de Emanação).

Por isso, quando a oração é realizada em um grande momento de apelo, de entrega e de concentração, pode-se movimentar e armazenar uma grande quantidade de energia e, por ela ser vital e divina, projetá-la e assim conseguir-se tudo. O mesmo se aplica às correntes de oração. Não temo estar sendo exagerado ao alegar que tudo, inclusive o impossível, pode ser realizado através da oração, mas, para isso, somente uma mente muito capaz, extraordinariamente ciente de seus poderes, dotada de um alto nível de concentração, poderia fazê-lo. Foi assim que Jesus Cristo, a exemplo de seus milagres, andou sobre as águas, curou o cego e ressuscitou Lázaro, morto há três dias.

Não é à toa que os cristãos evocam o Pai, o Filho e o Espirito Santo, a trindade por qual todas as coisas são feitas, mas encerram suas orações com “Amém”, determinando que assim seja, mostrando ainda o poder do homem sobre suas vontades.

A oração como cavalo

Certo dia, conversando com uma amiga, ela me falou sobre seus pais que moram no interior e de que desde sempre rezam o terço para tudo. O terço passou a ser para eles como um membro do corpo, inseparável. Para todas as situações eles se sentam e rezam, desde uma gripe simples que um filho passa, a uma situação de vida ou morte. Duvidaria você que eles conseguem atingir seus objetivos? Eu não.

Meu pai contava sobre uma difícil época em que as vacas que ele criava eram atacadas por bernes. Buscando uma solução, foi procurar um feiticeiro do mato que morava em um sítio próximo ao dele. Chegando ao lugar, encontrou o velho perto da cerca e, depois de se apresentar, contou o caso e pediu ajuda.

O feiticeiro perguntou o que meu pai carregava em uma pequena bolsa junto ao cós da calça. Era fumo. Pediu-lhe um chumaço, pôs na boca e começou a mascar. Enquanto isso, perguntou ao meu pai como era o sítio e onde as vacas ficavam. Quando a descrição terminou, o velho tirou o fumo mascado da boca e pôs no galho de uma árvore dizendo-lhe que ficaria tudo bem.

Contrariado, achando que tinha perdido tempo indo atrás de um feiticeiro no lugar de buscar um veterinário, meu pai, ao chegar ao seu sítio viu que os bernes das vacas haviam estourado, sem que ninguém os espremessem. Livre dos bernes, os animais conseguiram se recompor a partir dali.

Não acredito que possamos entender o que faz desses senhores e rezadores do mato, que não têm nenhuma das noções que citei superficialmente acima, serem tão bem sucedidos em suas curas, feitiços e rezas. Isso porque não tem como precisar como cada um vive a sua espiritualidade, mas, certamente, podemos atribuir à manipulação dessa energia vital, através de uma mente potente e pouco corrompida com o saber das Ciências Ocultas, mas munidas pelo saber da Grande Escola Natural, a Natureza. Daí a realização de seus feitos extraordinários.

A oração, seja ela qual for, é um cavalo que conduz o desejo e realiza as obras. Há de se trabalhar a mente para ser um bom domador de cavalos.

Com meu pai, pela oração ser tão presente em sua vida, ele passou a fazer as coisas acontecerem antes de acontecerem. A dizer antes das coisas serem ditas. Ele, muitas vezes, estava tão embebido dessa energia vital que temia dizer palavras chulas, ou mesmo praguejar, porque sabia do poder que suas palavras tinham. Sua boca dizia e bastava esperar o acontecimento.

Embora tenha que lidar com os incrédulos que me perguntarão se ele me deixou os números da Mega Sena, deixo que ele se defenda com a narrativa de seu conto, em terceira pessoa, de como desfez um trabalho de magia direcionado a ele, antes de ser sequer umbandista.

“Um dia, num sábado no final da tarde, viu uma luz dentro do mato, um pouco à frente da entrada do sitio. Como não tinha medo de nada mesmo, foi ver do que se tratava. Era uma vela acesa. Voltou em casa, apanhou uma caixa de fósforos e voltou para o local onde estava a vela acesa. Foi tomado por uma “força estranha” e uma voz falou com a sua voz:

— Dá licença quem está trabalhando, porque vou virar esse ponto. José não merece o que estão fazendo com ele. E pegou a vela, mordeu no final, fazendo outro pavio e o acendeu a vela virada. Deixou o local e foi para casa. 
Não se passaram dez dias e apareceu o dono do terreno vizinho, onde o posseiro fizera uma choupana.

O Proprietário deu seu ultimato:

— Ou sai ou passo o trator por cima!

Seu Manoel, o posseiro, não teve outra alternativa. O proprietário já chegara acompanhado por um trator. Foi colocando as tralhas de Manoel na estrada e em seguida o trator derrubou a casa, demolindo tudo.

No outro dia, bem cedo, Manoel apareceu na porteira de José e disse:

— Isso é que é uma macumba bem feita!

Novamente a voz tomou conta de José e disse:

— Macumba feita por sua mulher, para tirar José da sua casa. A casa que comprou com o suor do rosto! O feitiço só se voltou contra o feiticeiro!”

Capítulo IV – Da Prece – 658, O Livro dos Espíritos.

Orar é a solução? 

Sem sombra de dúvidas a oração cumpre um importante papel na vida do ser humano. É isenta de religiões, é democrática, portanto, basta se dispor a conversar com Deus. Existem orações específicas capazes de movimentar grande energia? Existem orações próprias para emanar energia? Sim, mas a oração genuína, feita mais com o coração do que com os lábios, ainda é a melhor forma de ascensão, de aprimoramento e defesa.

Contudo, dadas as nossas condições, só orar não basta. A oração é um importante auxílio na busca dos nossos objetivos pessoais, sejam eles quais forem, mas nossa limitação não nos permite manipular energias a ponto de nossos atos serem dispensáveis. Sei que muitos pensaram que rezando conseguiriam tudo sem esforço, e digo que até conseguem se forem extraordinários como foram os grandes iluminados tal qual Jesus, mas, sem querer duvidar do potencial de ninguém, acredito que não é o caso. Orar é a solução? Sim, contanto que caminhe lado a lado com nossas ações.

A oração nos aproxima de Deus, dos bons espíritos, nos aproxima dos grandes iluminados e de suas obras. Nos aproxima, principalmente, de nós mesmos. É através da oração que tomamos coragem onde há medo, companhia onde há solidão, amor onde há ódio, compaixão onde há rancor.

“Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito; E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.”

Mateus 21:21,22

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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