Confia na espiritualidade

Quando ouço pessoas dizerem que a espiritualidade respondeu todas as suas perguntas, eu acredito. Acredito em quem viu sua vida se transformar do caos em algo minimamente organizado, ou uma vida sofrida encher-se de paz. Eu acredito em pessoas que dizem ser testemunhas do agir da espiritualidade em suas vidas. Comigo, exceto alguns detalhes, também foi assim, e são justamente esses detalhes que me fazem refletir: será mesmo que a espiritualidade age constantemente em nossas vidas?

Em 2014, ano em que dei início ao desenvolvimento na Umbanda, não tive respostas para todas as minhas perguntas imediatas e digo ainda que algumas andam comigo esperando alguém que as dê atenção. Na verdade, novas dúvidas surgiram, mais inquietantes, mais profundas. A partir daquele ano, todos os meus conceitos e certezas foram redefinidos. Era consideravelmente mais fácil viver na superfície, onde as coisas simplesmente refletiam, onde eu apenas reagia aos estímulos do mundo. Tomar responsabilidade sobre grande parte do que acontece na minha vida foi e está sendo uma empreitada desafiadora.

Não tenho dúvidas ao dizer que todo indivíduo vivencia a espiritualidade, queira ele ou não. Por mais indisponível que esteja para assimilar qualquer tipo de manifestação espiritual, mística, etc., todo ser deste planeta entranha-se na trama universal do Criador. Diga-me o que o rico, mas infeliz e solitário, tem a aprender com seus trilhões? O que o indivíduo em situação de miséria, que encontra em outros seres a gratidão pela doação do pão de cada dia, tem a aprender com sua condição? Esses dois exemplos antagônicos nos mostram que foi tirado de nós o direito da plenitude para que possamos valorizar o pouco que temos e que, por ventura, pode ser muito para o outro. A lição está nas variáveis.

Tudo que acontece é para o nosso bem? 

Meu pai dizia, “Tudo acontece para o nosso bem!”, se for verdade, a princípio seria muito cruel que o sofrimento fosse nossa principal escola e que o mundo nos fustigasse o tempo inteiro a desistirmos de nossos sonhos, anseios, metas, independente das proporções. Isso ao passo que, diante de tantos obstáculos, nos pareçam poucos os motivos para continuar.

O ano de 2016 foi muito decisivo para mim. Foi o ano do Eremita, o 9º arcano do Tarot. Para algumas escolas de numerologia o número 9, por ser o último que compreende a sequência numérica do 0 ao 9 (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9), já que a partir do “9” todos os números são formados por repetições dessa sequência (10, 11, 12, 13…), simboliza o fim dos ciclos.

Na sua interpretação mais usual, o Eremita é aquele que se mune de uma capa para proteger-se das influências exteriores e ocultar-se, que usa o cajado, símbolo da vontade e da magia, e uma pequena lanterna que não ilumina nada à frente, apenas os seus próprios passos. Que simbolismo, não é mesmo? O arcano, quando aparece no tarô, nos diz que é hora de proteger-se, ocultar-se e encarar os fins de ciclos como uma importante jornada de autoconhecimento, apontando a lanterna da verdade para dentro de si. O Eremita testa nossa paciência e nos força rupturas que nos farão ver o mundo com novas posturas.

Naquele ano, vejam só, terminei um namoro, meu pai faleceu, meu Babalorixá consequentemente faleceu, eu herdei um terreiro e, em seguida, encerrei as atividades ritualísticas do mesmo, com mais de 30 anos de existência. A casa passou a ter outra dinâmica. Minha irmã, mãe e eu passamos a assumir outros papeis e posturas. Tudo precisou recomeçar do zero.

Não, caro amigo leitor, não estou aqui para desabafar sobre minha vida espiritualista, mas para refletir a respeito dos caminhos da espiritualidade, que muitas vezes nos são controversos, mas que quando estamos dispostos a aprender com ele, o sofrimento torna-se menor e a fé se fortalece.

Tenho uma amiga astróloga que vez por outra me diz: “Nivartan, o universo é criativo…”, e como é! Hoje, quando paro para pensar no desenrolar desses quatro anos, na véspera de completar 27 anos de idade, vejo com gratidão tudo que aconteceu. Ser grato pela morte do próprio pai pode parecer um egoísmo tremendo e é claro que, se pudesse escolher, queria estar ao lado dele, mas ao desencarnar meu pai pode me ensinar as lições que só através da perda foram possíveis de ser aprendidas. Se ele estivesse aqui hoje, eu não estaria escrevendo esse texto agora e, digo mais, talvez não seria quem sou.

Esse, é claro, é apenas o meu exemplo. Aposto que você também tem seus motivos para te levar a diante, mesmo que te seja ainda doloroso como a saudade é para mim de vez em quando. Por isso, quero te sugerir que faça uma reanálise dos seus problemas atuais ao fim deste texto, e tente acompanhar junto ao meu raciocínio para chegar, por sua conta, a uma nova forma de lidar com eles.

A espiritualidade age constantemente em nossas vidas?

Sem dúvidas! Lembra daquela rua que você ia seguir e, pressentindo um perigo, decidiu ir por outro caminho e percebeu que se livrara de uma tocaia de assaltantes? Lembra daquele dia que você voltou mais cedo pra casa, mesmo com todos insistindo para você ficar, e você soube no outro dia do tiroteio que houve depois que saiu? Lembra daquele dia que você tirou o pé do acelerador e um motorista embriagado avançou a preferencial e por pouco não te pegou? Lembra daquele dia que você perdeu o ônibus que foi assaltado no ponto seguinte?

Agora… lembra do dia em que você foi assaltado na rua, e que sua intuição dizia para não seguir em frente e você não ouviu? Lembra daquele dia que você ouviu seus amigos mais do que a você mesmo e assistiu em pânico a execução de pessoas no bar em que estavam? Lembra daquele dia que você ignorou seu instinto e pisou mais no acelerador batendo num motorista bêbado que avançou a preferencial? Lembra daquele dia que você correu atrás do ônibus, sinalizando até ele parar, logo o que já havia passado do ponto, e que justamente foi assaltado horas depois?

Os incrédulos atribuirão ao acaso os exemplos citados acima. Ao meu ver, e o que quero mostrar a você leitor, é que em todos os exemplos as ações foram provocadas para que você percebesse uma lição importante: ouvir a sua intuição. Dificilmente nos primeiros exemplos o indivíduo percebe que trata-se da sua intuição, afinal, tudo ocorreu bem. No segundo, o sofrimento ensina. Uma vez a lição aprendida, casos como esses não serão provocados pelo destino. Não teme a vida quem sabe ouvir a voz de Deus dentro de si. Seja pelo bem ou pelo mal, a forma como aprendemos a fortalecer nossa fé se dá nesses momentos em que nos deparamos com as encruzilhadas da vida.

Através da espiritualidade entendemos o que nos acontece.

Dirão alguns: “mas isso é manipulação!”, e eu os entenderei. Não irei, de maneira nenhuma, dizer como cada um deve lidar com suas experiências. Os exemplos acima são, mesmo graves, ainda simples diante das atrocidades de que é capaz a vida e a criatividade com que ela tenta nos elevar espiritualmente. Para nós tudo é tão grande. Para o Plano Espiritual trata-se de um ponto, não menosprezado, mas apenas um ponto.

Acredito que possamos considerar as duas questões: que a espiritualidade age em nossas vidas e que através dela conseguimos enxergar e entender melhor as situações que passamos. Isso porque dividir as causas e os efeitos é dividir a consciência de que tudo que acontece, seja bom ou ruim, nos edifica, se quisermos fazer dos escombros a base dos nossos alicerces. Portanto, a espiritualidade é o todo, é a causa e o feito.

Quando trilhamos o caminho da bestialidade, como bestas vivemos, somos sacrificados e chamados a comparecer novamente aos Senhores do Karma. Quando buscamos a evolução espiritual, quando trabalhamos a evolução moral, mais distantes ficamos das tragédias, dos acidentes, etc. A tragédia vibra na mesma intensidade que o ser trágico. A proteção vibra na mesma intensidade do indivíduo que se protege.

Portanto, como você tem cuidado da sua espiritualidade?

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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