O poder da fé

Quando éramos pequenos, minha irmã e eu fomos educados a anotar nossos pedidos em um papel e pôr em baixo da imagem do Guia que queríamos que intervisse por nós. Então, com meus grandes problemas de criança, eu escrevia: “Proteção e inspiração para que eu consiga fazer uma boa prova e passar de ano.”, e colocava em baixo da imagem de gesso que representava o preto-velho que meu pai recebia, o Pai Congo do Mar.

Lembro-me de fazer isso em várias ocasiões, não só pendido para passar de ano (a matemática sempre me pegava), como também para interceder pela cura do meu pai, quando ele precisou fazer um cateterismo, e também quando colocou uma válvula mecânica na artéria do coração. Engraçado que à época, eu achava que aquela era uma forma de crianças fazerem os pedidos, já que meu pai costumava usar muitas outras coisas como: velas, frutas, charutos, etc., até que, no dia em que ele foi internado para fazer a cirurgia do coração, sem que ele soubesse, eu fiz como me ensinou com meus pedidos, porém, ao levantar a imagem de gesso do Pai Congo do Mar, já havia um papel em baixo com a letra dele, circulada por pemba, grafado com um símbolo, pedindo saúde, proteção espiritual e uma boa recuperação. Nunca me esqueci desse gesto dele.

Confesso que em alguns momentos eu me perguntava: “mas se a entidade é um espírito, por que temos que escrever e colocar em baixo da imagem dela?”. Nunca fiz essa pergunta ao meu Pai, mas mais tarde tomei conhecimento. Escrever é grafar uma sequência de letras formando uma palavra que carrega significado (símbolo). Imaginem que para a magia todo o universo cabe na escrita da palavra “universo”. Que um coração pode representar todo o amor. Que a estrela com a ponta para cima representa o homem no poder da Ordem, e que com a ponta para baixo representa a Desordem no poder do homem. Quanto mais natural é o material com que se escreve (grafite, carvão, pemba), mais energia é capaz de se movimentar. Desta forma, a mironga está em colocar o verbo (vontade) contido no símbolo em baixo de uma imagem de gesso (terra) consagrada a uma entidade e em contato com o chão (Terra).

De uma forma lúdica, meu pai aplicava seu conhecimento no dia a dia e eu, por não saber nada do que mencionei acima na época, aprendia como funcionava a fé.

“Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá.”

Mateus 7:7

A fé 

A fé é imaterial, impalpável, e acredito que também é uma forma de inteligência. Digo, porque tenho por “inteligência” uma “habilidade”. Fazer cálculos é uma inteligência, pedalar é uma inteligência, escrever é uma inteligência. Dentro desses exemplos citados, a fé é, mesmo sendo natural do indivíduo, uma habilidade que pode ser exercitada e aprimorada como todas as outras.

Veja, admito ser muito racional, e toda vida que me deparo com alguma questão mediúnica ou espiritual, a princípio, tenho dificuldade em associá-la, se julgá-la muito subjetiva e sem fundamentos palpáveis às minhas referências. Tive muita dificuldade para ancorar as sutilezas das práticas esotéricas orientais. Foi ao fracassar repetidamente tentando colocar à prova a ineficácia do Reiki, que passei a utilizá-lo como ferramenta para uso próprio. Eu era capaz de entender todo processo explicativo pelo qual a manipulação da energia universal era realizada, tal qual tinha nos livros. Somente após a minha iniciação é que pude testemunhar a sua eficácia. Entretanto, confesso que para práticas místicas, esotéricas e ocultistas contemporâneas, sou ainda reticente.

Vale criar um parágrafo só para dizer, caro leitor, que não sou eu quem valido ou não determinada prática, pois seria um absurdo de arrogância da minha parte. O que estou dizendo é que, no meu caso, uso apenas aquilo que assimilo. Para mim, para minhas referências e experiências, faz mais sentido acender uma vela do que usar um gráfico radiestésico, ou mesmo usar os dois a usar somente o gráfico, ou ainda, caso usasse somente o gráfico, seria riscando-o com pemba e não impresso e emplastificado como já vi usarem. Portanto, não digo que a prática é inútil, digo somente que não consigo utiliza-la como forma de conexão com o sagrado, e está tudo bem com isso.

Recentemente perguntaram-me: “…, mas como você consegue ter tanta fé tendo a cabeça tão racional?”. A questão é que, quando uma mente racional testa exaustivamente infinitas possibilidades e se convence da força presente em um ritual/reza/simpatia/etc., não há mais quem tire a fé adquirida. Por exemplo, não há quem consiga me provar a ineficácia do Reiki, por usá-lo constantemente somando seus fundamentos aos fundamentos da cultura ocidental.

Contudo, a ideia de ofertar, seja uma vela, uma fruta, um chumaço de fumo ou uma bebida, é enraizada em mim, nas práticas da Umbanda que acompanho desde que nasci, até mesmo agora na fase adulta com novos entendimentos das oferendas, graças à eficácia comprovada pela experiência. Lembro-me que em 2016 recebi uma ligação do meu pai, ele já estava internado há três meses devido a um problema nos rins, mas poderia ter alta para continuar o tratamento de casa assim que conseguisse uma vaga para fazer hemodiálise fora do hospital. Como dependíamos de vagas públicas, no local mais próximo habilitado para realizar o procedimento era praticamente impossível conseguir uma, devido a procura altíssima.

Após resolver as demandas burocráticas para solicitar a matrícula no Instituto, percebi que naquele dia comemorava-se o Dia de Santo Antônio, e lembrei do auspício do Padroeiro dos Pobres: “Se milagres desejais recorrei a Santo Antônio…”. Dirigi-me até o congá, peguei a imagem do Santo, o coloquei em cima de uma mesa coberta com um pano branco e ofereci pequenos pães, uma taça de vinho e uma vela branca. Anotei em um papel o nome completo do meu pai, o endereço do Instituto e o pedido. No momento da prece eram 10h, fiz as orações e saí. Às 16h me ligaram do Instituto, na sede mais próxima à minha casa, oferecendo uma vaga que havia surgido graças a um paciente que voltou para sua cidade natal e iria continuar o tratamento lá.

O nome do meu pai, segundo a auxiliar administrativa do Instituto, lhe saltou aos olhos.

É possível treinar a fé?

Sim, porque a fé se inicia pela causa e se fortalece no efeito. A mente humana é facilmente convencida quando inflada de referências ou quando dentro de um ritual. Quando se deixa de terceirizar o poder que cada um tem e passa-se a assumir a responsabilidade pelos feitos e efeitos, ela se fortalece. É só observar que, na maioria dos casos, é em meio às turbulências da vida (causas) que nós a aprimoramos, pois é justamente nesses momentos que mais nos apegamos à espiritualidade.

Entretanto, não é preciso sofrer para fortalecer a fé. O hábito de rezar, por exemplo, a fortalece. Não digo o ato de pronunciar palavras decoradas e vazias como quem recita um poema frio. Falo de oração, orar, pronunciar as palavras, fechar os olhos, sentir as afirmações na sua mente.  

Assim, quando você pronuncia: “São Miguel à minha frente. São Miguel às minhas costas. São Miguel ao meu lado direito. São Miguel ao meu lado esquerdo. São Miguel sobre mim. São Miguel sob mim.”, o magista é capaz de ver São Miguel Arcanjo materializar-se em seu pensamento, vir em auxílio às suas preces e posicionar-se com sua espada e escudo em todas as direções indicadas pelo verbo. Essa é a evocação verdadeira.

Somos uma matéria rica, capazes de grandes obras, mas para que isso aconteça precisamos fortalecer a nossa fé, principalmente a fé que temos em nós mesmos, na capacidade de guiar nossos próprios passos. Precisamos valorizar menos as opiniões alheias que não nos edificam, os julgamentos desnecessários e a autocobrança excessiva. Precisamos exercitar a fé não só para pedir, mas para que, criando uma egrégora “positiva” ao nosso redor, as nossas necessidades sejam atendidas sem que seja necessário pedir. Por muitas vezes, comentava meu pai, que numa época difícil aqui em Fortaleza, ele terminava de pôr o último quilo de feijão na panela sem saber quando entraria o próximo dinheiro para comprar outro alimento, quando de repente chegava um filho de santo ou um amigo, sem que combinassem, com uma cesta básica para ele.

Do nada? Eu não acredito.

Considerações finais 

A fé é um instrumento poderoso. Acreditar, explicando de uma forma sem romantismos, é um esforço enorme, requer um esforço enorme, um autocontrole emocional e mental, e tanta energia não se perde. É essa energia que entra em ação, a qual alimenta o verbo, sintonizando com energias que vibram na mesma intensidade e possibilitam que os caminhos se abram e o retorno do pedido chegue logo depois que realizada a prece.

Sempre busco ser cuidadoso quando reflito sobre temas tão sensíveis. Isso porque, por se tratar de algo tão amplo, corro o risco de ser apenas mais um a tecer comentários que desinformam. No meu caso, me tranquiliza saber que nada mais tenho a oferecer, caro amigo leitor, além das minhas próprias experiências.

Não pretendo te dizer como deve agir, mas refletir junto a você para que possa encontrar os meios mais confortáveis para seguir a sua caminhada. Sei que escrevo, de certa forma, para pessoas que procuraram em algum lugar “Como fortalecer a fé”, ou que receberam como indicação de leitura porque buscavam essa resposta. Desculpe-me se não posso dar uma fórmula para isso.

Eu não ensino espiritualidade, eu a comento; e espero que meus comentários possam ajudar você a encontrar seu próprio caminho.

Das muitas coisas de que não duvido, das muitas coisas em que eu tenho fé, tenha certeza, uma delas é em você, leitor.

Tenhamos fé.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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