A cegueira da luz

Há alguns dias venho pensando que deveria escrever sobre esse assunto, afinal, apesar de polêmica, trata-se de uma situação tão comum que não distingue espiritualistas, religiosos etc., sejam iniciantes ou experientes. Todos podem, estando desatentos, serem vítimas desse mal, pois ele facilmente é mascarado pelo ego, fazendo-nos confundir com a própria “convicção”, com “incompreensão” por parte do mundo, ou, em casos mais graves, as condições intrínsecas à missão espiritual.

Sem ter o objetivo findo de apontar situações, mas colocando-nos em exemplos pelos quais será possível divagar sobre o assunto, peço gentilmente que não se sinta acusado ou julgado, caso se encaixe em um deles, mas convidado à refletir sua caminhada até agora. Do que falarei, caro amigo leitor, é o que há muito se conhece como a cegueira da luz.

Os escolhidos de Deus

Convenhamos que se considerar chamado à uma missão espiritual é algo muito nobre. Isso — sendo pouco refinado em relação às inúmeras possibilidades presentes na próxima afirmação — tira-nos do padrão de pessoas que nascerão, viverão e morrerão numa linearidade comum, ou seja, nos achamos de alguma forma especiais, escolhidos por Deus para fazer a diferença no mundo profano, no Planeta de espiações.

Entretanto, esse pensamento precisa ser realmente dimensionado e compreendido, porque todos, sem exceção, são escolhidos por Deus e chamados para uma missão espiritual no Planeta. A questão levantada é justamente a impossibilidade de sermos nós mesmos os detentores do julgo, ou da balança que pesa a missão da vida do outro.

Se considerarmos a Doutrina Espírita e assumirmos que viemos para esse Planeta para cumprir carmas adquiridos de outras encarnações, que viemos já sabendo, mediante um acordo com a cúpula reencarnatória, de todas as nossas dádivas e mazelas, que já sabemos quem são os espíritos que virão conosco para nos auxiliar a seguir o acordado, então como dimensionar a missão de cada indivíduo?

Trazendo para o plano prático, ao passo que alguns têm uma facilidade para escrever com caligrafia, para outros, segurar o lápis é um enorme desafio. Sendo assim, quem de nós pode julgar a nobreza da missão espiritual de cada um?

Infelizmente, de alguma forma somos corrompidos ante à cegueira da luz, fazendo-nos acreditar numa predileção divina, que torna nossas dores e aflições diferentes das de todas as pessoas ao nosso redor. O que acessamos, graças a essa conexão com o mundo espiritual, não pode ser compreendido por mais ninguém, aliás, até pode, por aqueles que simplesmente concordam conosco e nos dizem palavras que soam como “tapinhas nas costas”: “você é muito iluminado!”

Mesmo que pessoas comuns — como consideramos aqueles que não são escolhidos — nos digam qualquer coisa a respeito de nós, ignoramos porque não foi um Guia Espiritual quem nos disse, ou não saiu em um oráculo do nosso hábito de consulta. As pessoas são invejosas quando nos revelam nossos exageros, são limitadas, e não devemos dar ouvidos a pessoas assim. Somente ouvimos a quem nos considera um ser de luz, por isso a caminhada é solitária, afinal, existem poucos como nós, escolhidos de Deus.

Por conta da espiritualidade

Admitir que somos seres espirituais que, através da encarnação, vivenciam uma experiência material, não nos dá o direito de nos eximir das responsabilidades que as escolhas do livre-arbítrio trazem. Inclusive, precisamos refletir sobre a forma como nos posicionamos nos ambientes em que estamos, e como as pessoas que nos cercam se relacionam conosco.

Dizemos que somos mal compreendidos e que, por isso, ao nosso lado existem poucas e leais pessoas, quando na verdade não queremos é enxergar como nos tornamos chatos, indispostos a tratar de qualquer outro assunto, em uma reunião de amigos, por exemplo, que não a própria espiritualidade.

Sabemos que a sensação é muito boa quando assimilamos aquele conteúdo denso e queremos simplificá-lo para que todos ao nosso redor também tenham essa chance de compartilhar do que foi adquirido. Apesar de parecer uma boa intenção, só reproduzimos o comportamento de uma criança que, ao terminar de colorir um desenho, corre para mostrar aos pais esperando aprovação.

Muitas vezes, as pessoas que nos cercam não querem saber sobre exercícios para fortalecimento do campo magnético pessoal, ou de como acendemos uma vela e conseguimos que fosse atendido tal pedido, ou mesmo como, através da experiência que o outro divide conosco, é a espiritualidade que está agindo. Na maioria das vezes, as pessoas querem ouvidos generosos que possam ouvir sem que as interrompam. Desabafar suas angústias sem que lhes sejam apresentadas soluções imediatas ou formas de agir. Querem dividir seus pequenos aprendizados sem serem abarrotadas por uma avalanche de conteúdo.

Lembra que falamos sobre a caligrafia e de pessoas que tem dificuldade de segurar o lápis? Para algumas pessoas não é fácil assimilar a espiritualidade. Digo que não têm facilidade, jamais que não têm capacidade. Para alguns, existe a dificuldade de entender os arquétipos, a simbologia, o ritual, então, para eles, toda novidade é uma grande novidade — e é, de fato! —. As sensações que sentiram ao acender uma vela e fazer determinada prece é, até o momento, a melhor coisa que essas pessoas podem ter experienciado desde que se propuseram à espiritualidade.

Então, como mais experientes, deveríamos sempre nos adequar à conversa e explorar mais a empolgação para ajudar o neófito, e não o contrário, de soterrá-lo com teorias, livros, pensamentos, palavras de efeito, muitas vezes falando de nós mesmos. Fazer isso é como se pisássemos em um broto.

Outro aspecto importante é, como disse no começo deste tópico, que nem tudo pode ser colocado na conta da espiritualidade. Muitas das mazelas de nossas vidas somos nós mesmos os responsáveis. É a nossa fraqueza moral que nos aponta sempre outros culpados e situações antes de admitirmos nossos erros. Ganhamos as discussões com retiradas estratégicas e o silêncio, ou alimentamos um discurso pomposo cheio de certezas, mas dentro de nós a raiva nos corrói, “porque quem está acostumado a aplausos, não aguenta uma vaia”.

Nossa vida pode estar sendo sofrida não porque Deus quer que seja assim, ou porque a caminhada do médium é sofrida, ou porque o sofrimento purifica. Nossa vida está sendo sofrida porque nós não nos libertamos dos vícios, não ouvimos as opiniões que contrariam nossa santidade, porque nossas torres foram construídas bem altas, nos tirando da terra e nos aproximando dos céus, mas com alicerces frágeis ou inexistentes. Qualquer pouca atenção, piada, sorriso atravessado, pergunta direta, nos tomba.

O sacrifício de viver num mundo de imperfeições

Ficamos impressionados em como as “pessoas comuns” não percebem como o mundo espiritual é óbvio. Como pode ter quem ainda beba em bares, ignorando que alimentam espíritos do plano grosseiro? Como pode alguém que se diz tão espiritualizado passar pelo porteiro sem desejar-lhe um bom dia?

Saturamo-nos de nossas perfeições, e para todas as imperfeições temos justificativas “plausíveis espiritualmente” para as pessoas que nos cercam: “Fui no bar naquele dia tomar minha cerveja porque em casa tenho minhas firmezas e estava cercado por um manto de proteção. Não desejei um bom dia ao porteiro porque ele estava vibrando numa sintonia mais densa que a minha, decidi não misturar”.

Fazemos parte de uma “biodiversidade espiritual”, portanto, comumente alimentamos espíritos que vagam e despertam interesse nas energias que estamos emanando. Cientes disso, não seria muito mais fácil para nós admitirmos que não há problemas em tomar uma cerveja em um bar, contanto que não nos permitamos exageros?  Não seria mais fácil reconhecer não estarmos em um bom dia e depois chegar para o porteiro e lamentar a descortesia?

Sempre é o outro quem está em desequilíbrio. É difícil para nós admitirmos que somos passiveis das mudanças de humor, dos vícios de maneira geral, que nossos corpos não são perfeitos, que nossa alimentação não é luz do sol, e que a imperfeição faz parte do nosso plano, pois, embora espíritos, ainda estamos matéria.

Nos excluímos, graças à cegueira, do grupo de seres humanos que, independente da idade e experiências, estão a sofrer constantes influências sociais, culturais, como também influências familiares, traumas de infância, etc. Assumir tudo isso é difícil, por isso, é mais fácil pregarmos a imagem do ser idôneo(a) , imaculado(a), nos distanciando para que nossos defeitos não sejam evidentes. Empolgados por nossa prepotência e arrogância, reservamo-nos o direito de exercer um papel regulador na vida dos outros, com orientações ostensivas: “Não façam isso! Façam aquilo!”, mas, escondido dos olhos iludidos por nossos “exemplos”, fazemos exatamente o contrário.

Afinal, onde queremos chegar?

Se você chegou até o final desse texto, deve ter lembrando de várias pessoas ao seu redor com quem gostaria de compartilha-lo, a fim de “dar um toque”, mas percebe que, talvez, em nenhum momento, ou em poucos, você pensou em você? Quais são os outros exemplos não abordados no texto que você pratica e que entrariam em conformidade com nossa conversa? Foi exatamente por isso que, em todos os exemplos deste texto, usei o pronome na primeira pessoa do plural, “nós”, porque não estou em um patamar diferente dos acima citados.

É necessário percebermos que não adianta devorar livros, conhecer teorias, técnicas e ter experiências práticas esperando que o retorno disso seja o reconhecimento dos outros, ou que isso nos dê motivos para nos segregar do mundo. O nosso axé individual, o que nos torna únicos, só nós podemos e devemos valorizar. Devemos respeitar-nos, zelar-nos, alimentar-nos, e não esperar que outras pessoas façam isso por nós. Quanto maior é a nossa necessidade de aprovação, menor é a nossa maturidade moral e espiritual.

Podemos e devemos julgar-nos escolhidos por Deus (Inteligência Universal), para realizar uma grandiosa obra neste Planeta hoje, agora e em um único lugar: nas nossas próprias vidas! É aprimorando-nos que aprimoramos o mundo ao nosso redor.

Tudo que acumulamos, nos nossos breves anos de existência, só pode ser útil se primeiro colocarmos em prática a aplicabilidade da reforma em nós mesmos. Só assim, entendendo nossos preconceitos, nossos temores, nossas angústias, nosso ego, nossa missão etc., é que podemos ser acessíveis à entender o preconceituoso, e ajudá-lo; o temeroso, e ajudá-lo; o angustiado, e ajudá-lo; o egoico, e ajudá-lo etc. Esses são alguns motivos que nos tornam o que somos: todos um.

“Ninguém acende uma candeia e a coloca em lugar onde fique escondida, nem debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a num local apropriado, para que os que entram na casa possam ver seu luminar.”

Lucas 11:33

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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