Seja você mesmo


Nos dias de hoje, onde constantemente somos bombardeados por informações que nos dizem como devemos agir, o que consumir, o que vestir, como nos portar etc., “ser você mesmo” é uma forma de se blindar contra essas “necessidades” que, na maioria dos casos, são alimentadas por uma indústria. O autoconhecimento é uma importante ferramenta para nos tornarmos conscientes do espaço que ocupamos no mundo e, também, a forma mais assertiva de nos afirmar como seres individuais e únicos.

O próprio autoconhecimento fomenta um nicho desta indústria de coachings, mestres, sacerdotes e testemunhas, que com livros, vídeos, frases de efeito e cursos online — de quatro parcelas de R$ 499,90 —, tornaram cada vez mais difícil se chegar a algum lugar, afinal, a todo momento surgem novos métodos “verdadeiros e infalíveis” para tornar os seus dias melhores sendo seu próprio mestre.

De certa forma, alimentamos essa indústria porque encaramos o autoconhecimento como algo que começa e termina num prazo estipulado por alguém de fora, ou a quem nos comparamos, e achamos que, ao fim do curso, seremos donos de nós mesmos. Quem não se ilude tão fácil, vivencia a profundidade e a dificuldade implícita nesta afirmação: “seja você mesmo”.

Aqui não estou levando em consideração as pessoas que usam o autoconhecimento como desculpa para mascarar seus conflitos internos como, por exemplo, alguém que não consegue discernir o momento certo de se posicionar e fala tudo a toda hora, a forma de dizer e é grosseiro(a) etc. e se esconde por trás da alegação de uma autenticidade: “sou assim porque sou autêntico(a)”, quando é, em seu íntimo, frágil tal qual a forma em que sua “autenticidade” pode vociferar.

Escrevo para pessoas que, neste momento, estão avaliando e já pondo em prática o seu processo de autoconhecimento e reforma. Que cansaram de ser extorquidas em sua boa vontade. Portanto, não quero ser mais um a dar treinamentos, mas compartilhar o que ponho em prática e no que acredito, sem querer nada de você, leitor, apenas alguns minutos de sua atenção.

Algumas perguntas nos guiarão neste texto:

1 – Sabemos quem somos para sermos?
2 – Somos a soma de todas as pessoas que nos cercam, ou somos a soma para as pessoas que nos cercam?
3 – Sucumbimos às exigências, ou nos tornamos resistência?

Sabemos quem somos para sermos?

Por não termos essa resposta bem definida é que somos levados à Indústria do Autoconhecimento, que é falha e só enriquece seus autores. Isso porque grande parte dessas publicações não levam em conta o indivíduo como um ser único, portanto, muitas das orientações não se encaixam a mim especificamente ou a você. Em um exemplo prático, é como se receitássemos um complexo vitamínico para milhares de pessoas, sem saber as necessidades do organismo de cada uma. Por mais que sejamos espirituosos e busquemos, a partir do exemplo do autor, tirar nossas próprias conclusões e aplicar em nossas vidas, não é isso que o material vende. A propaganda diz: seja você mesmo, “hoje”, “agora”, “com 10 passos simples!”.

Indicam ao hiperativo que medite, ao que gosta de comer, o jejum, ao que não tem interesse em roupas, a vestir-se melhor, ao comunicativo, falar menos e ouvir mais, ao artista, que se adeque ao gosto do consumidor etc., mas, embora reconheça aspectos positivos em cada recomendação, a proposta ainda é apontar caminhos e não ouvir o que o coração — ou a intuição, se quiserem chamar assim — diz.

Acredito que a forma mais próxima de atingir objetivos de maneira satisfatória está na auto-observação. Nos observando, podemos compreender os contextos que nos dão formação como indivíduos e, também, nos quais estamos inseridos. Ou seja, “quais são suas referências culturais?”, “ao que tem acesso?”, “o que ignora?”, “o que assimila?”, “no que apresenta dificuldade?”, “quais são suas referências familiares e fora delas?”, tudo isso para identificar repetições voluntárias ou involuntárias, enraizadas nessas referências. Não podemos, claro, ser deterministas, mas esses aspectos influenciam fortemente na forma como nos relacionamos com nós mesmos e, consequentemente, com o mundo.

“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.”

Zygmunt Bauman

Não adianta que eu lhe diga quem você é, ou que você responda essa pergunta pensando em alguém que você não é. Quando busca-se responder à pergunta “quem eu sou?”, deve-se, inclusive, esquecer o discurso da autopromoção, afinal, a quem você quer agradar, ou melhor, enganar?

Seria mais fácil dizer francamente diante de um espelho, olhando em seus olhos: “eu sou fulano(a), sou assim, assim e assim. Gosto disto, disso e daquilo outro. Quando as pessoas me elogiam eu ajo assim, quando me criticam, assim. Quando ninguém vê eu sou assim. Quando me veem eu sou de tal maneira, longe de todos eu sou assim etc.”, sem julgar prontamente se isso é bom ou ruim. Da mesma forma podemos fazer com um caderninho, anotando a nós mesmos livremente.

Se esse exercício for difícil, pense nas situações chave da sua vida. Momentos em que você se viu confrontado, onde seus valores e princípios foram colocados à prova. Não justifique, apenas lembre-se dessas situações e de como foi a sua reação. Nela está presente você. Pode já não ser mais, pode até ser um motivo do qual não se orgulha, mas foi justamente naquele momento em que uma habilidade ou uma deficiência se provaram reais na sua vida. Agora, se já não o fez, é hora de refinar.

Essas são só algumas formas das quais podemos utilizar na busca pela resposta do que somos, contanto que partamos da observação e autoanálise com honestidade, pois a principal questão a ser levantada é o fato dessas perguntas só poderem ser respondidas por nós mesmos.

Encorajo você a tentar, não há como não conseguir. Você pode até me dizer que fez tudo e não achou nenhum defeito, nada relevante e eu irei pedir que, por favor, entre em contato comigo, pois gostaria muito de conhecê-lo(a), mas temo que só irei constatar que a ilusão da perfeição é um grande defeito não considerado por você.

Quem se propõe ao que é preciso para identificar o “eu”, acima de tudo, realiza a autocrítica sem ofender-se consigo mesmo. Se sua autocrítica é capaz de te ofender, imagina o poder que o outro tem sobre você, sem esforço algum?

Quando penso sobre esse assunto a fundo, faço uma comparação do “ser” com a confecção de um perfume, cuja a fragrância comumente tem três níveis de percepção: a “nota de cabeça” é a mais leve e fresca, é a que normalmente desperta o interesse pelo perfume. A “nota de corpo” é a alma e a personalidade, que lhe dá propriedade. Por último, a “nota de fundo”, que é mais densa e substantiva, quando mesclada às demais notas dão o caráter individual da fragrância.

A empreitada de “saber quem somos” não é uma tarefa fácil, de fato. Mudamos facilmente nossas notas de cabeça (gostos, hábitos, consumos) e que influenciam no nosso corpo (posições ideológicas, sentimentais e espirituais). Portanto, o objetivo não é nos definir limitando consequentemente, mas saber quais são as nossas notas de fundo, às quais somadas às outras, nos tornam um indivíduo único.


Somos a soma de todas as pessoas que nos cercam, ou somos a soma para as pessoas que nos cercam?

Como seres sociais nos associamos com pessoas que são, ou pelo menos deveriam ser, parecidas conosco em pensamentos, ações e posições ideológicas. É natural que esse círculo de amizades seja mutável, e que pertençamos a mais grupos, afinal, estamos em constante refinamento.

Somos capazes de saber bem quem desejamos próximos a nós, mas não de dizer, com a mesma precisão, o porquê. Por não sabermos ao certo quem somos, é que os grupos se revelam a forma mais fácil de estarmos aparentemente no controle dessa questão.

Infelizmente, como não alicerçamos um motivo saudável para a manutenção dessas relações, acabamos por atribuir a eles a responsabilidade de nos definir. Estando inseridos entre tais, dizemos para outras pessoas quem somos, mesmo sem ter essa resposta. E para que isso aconteça, tentamos nos adequar para sermos aceitos.

Como água, esforçamo-nos para nos moldar à recipientes ora largos, ora estreitos, ora fáceis, ora difíceis, e logo percebemos o quanto assumir essa postura é exaustivo, (de) que não é possível sustentar a muda de vestes de acordo com o ambiente que se frequenta. As pessoas que nos cercam, também percebem a falta de afinidade entre nós e eles(elas). Sem bases sólidas de ambas as partes, tornamo-nos para o grupo como uma verruga que temos vontade de extrair, mas que, para poupar trabalho, a mantemos por estar num local do corpo que não incomoda.

Entre precisarmos estar em grupos que nos definam e saber quem somos, não se engane, possivelmente sairemos de um grupo e entraremos em outro. Porque enquanto não nos conhecemos, não conhecemos nossa trajetória, acabamos em órbitas. Já pararam para pensar nisso?

Você tem aquele amigo(a) baladeiro(a), que precisa estar em todas as festas “tops” da cidade, sair em alguma foto oficial do evento, e você sempre está junto, mesmo cansado ou sem dinheiro. Quantas foram as vezes que esse amigo ficou com você em casa, no dia em que você disse que não queria sair? Nem preciso me exceder muito porque, em diferentes níveis, já orbitamos pessoas assim. Você gosta da popularidade da pessoa, gosta da alegria que ela parece ter, gosta de como ela conta as histórias e de como as pessoas a orbitam, mas você só a circula, não pertence ao momento, só está no momento.

Existem pessoas que ocupam esse espaço, a depender obviamente do ambiente, de “órbitas” ou “orbitantes”. Os do tipo “órbita”, agregam pessoas ao seu redor. Parece que tudo acontece em função dessas pessoas. Já as do tipo “orbitantes”, é autoexplicativo, e servem para manter os “órbitas”.

Isso, claro, é natural dentro do convívio humano, pessoas que se destacam, que preenchem os espaços, mas por que permitir-se ser sempre orbitante? A questão mais pragmática: para quê? Por que continuar insistindo em orbitar pessoas que não estão dispostas a dividir com você? Respondo: porque você não se conhece.

É por isso que é importante saber se você é a soma dos que te cercam ou se soma aos que te cercam. O autoconhecimento aprimora de forma equivalente o autorrespeito, o autocontrole e o amor próprio. Saber dizer não, recusar convites que não lhe convém (emocionalmente, financeiramente, moralmente), estar menos presente quando é somente para preencher espaços, dizer que não se sente à vontade em determinado ambiente ou com determinadas pessoas, quando feito de forma razoável e sem ser como chantagem, é uma enorme demonstração de maturidade.

Nem órbita, nem orbitante. Nem sempre a sua vontade, nem sempre a vontade do coletivo. Trabalhe-se para somar aos que te cercam, conhecendo e refinando em você algo que possa somar. Se ainda assim não puder, ou não te derem espaço para somar, procure por novas reciprocidades.


Sucumbimos às exigências, ou nos tornamos resistência?

O que pode causar uma grande confusão na resposta dessa pergunta é que não há ao que sucumbir, assim como não há ao que resistir. Ser você mesmo não é fazer só o que te agrada e o que te convém. O que precisa ser sucumbido é o ego que impede você de refletir suas ações. É o medo da solidão ou de se sentir deslocado, te aprisionando em ciclos viciosos não só de pessoas, mas a outros tipos de vícios.

O que deve resistir é a sua busca pelo aprimoramento moral. Por mais que seja desconfortável e doloroso no começo admitir algumas coisas que se guarda a sete chaves, libertar-se desse peso será extremamente reconfortante. Resistir para não sucumbir, não a algo ou a alguém, mas a si mesmo. O tempo vai passar e só então iremos perceber o quanto perdemos com aquilo que não nos convém, e coisas que não estão ao nosso alcance de resolver.

Não temos prazo para concluir, apenas queremos nos esforçar para que tudo que não tenha sua resposta no Tempo, possa ser feito por nós. A autoanálise é constante, e não existe perfeição e, sim, aprimoramento.

Desejo a você uma boa caminhada, e garanto que todos os dias é possível rever aspectos, ir trabalhando a cura de feridas, mágoas, e coisas que não nos dão orgulho, não para provar a ninguém, mas para tornar a caminhada mais leve.

Escrever, por exemplo, é meu manifesto de amor próprio. É ser o que eu sou.

E você, quem é?

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

3 comentários em “Seja você mesmo

  1. O autoconhecimento traz paz interior, mas para isso é necessário identificarmos as nossas reações em cada evento, com humildade e sem julgamento.
    Um trabalho difícil na maioria das vezes, mas valioso para nossa felicidade.

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