O Deus finito

Jamais esquecerei da afirmação: “O universo é criativo”. Elegeria como a melhor expressão — até a publicação deste texto — para definir as situações boas e ruins nas quais podemos empregá-la em nossas vidas. 

A mesma inteligência universal que criou um planeta capaz de sustentar toda uma biodiversidade, é a mesma que promove pandemias como a que vivemos hoje (COVID 19), que já matou mais de 274 mil¹ pessoas no mundo, forçando-nos ao isolamento social e a rever nossos valores políticos, morais, espirituais etc. 

A criatividade dessa Inteligência Universal pode nos parecer sádica, porque é difícil para nós compreendermos como ela age em nossas vidas, ainda mais por parecer não se importar com os nossos padrões de ética, de moral, de cultura, de história, de justiça etc. Nossos líderes nada são, nossas posses nada são, nossos títulos nada são ante a ela. Somente nós seres humanos é que, de alguma forma, nada somos e, ao mesmo tempo, somos conscientes de ser um fragmento do Todo.

Somos uma partícula dessa Inteligência Universal, milhares de pequenos universos, uns minimamente conscientes, outros que jamais tomarão consciência disso até que o período da sua encarnação chegue ao fim e eles sejam chamados novamente para o Grande Mistério. 

A Inteligência Universal

As religiões, filosofias e seitas pregam a teoria de que temos um propósito, que fazemos parte de um “Plano Maior” o qual não sabemos ao certo qual é. Mesmo que não sigamos nenhuma das doutrinas citadas neste parágrafo, sentimo-nos constantemente inclinados a um chamado de aprimoramento. Buscamos nos elevar moralmente, espiritualmente, politicamente… o que nos leva a crer que parte desse “plano”, assim como disseram milhares de anos de mestres e iluminados, é buscar a evolução além da matéria.

Como parte da Inteligência Universal, temos o privilégio de escolher como nos posicionamos ante a ela. Sendo passivos a essa “criatividade insana”, jamais saberemos o porquê de termos passado por determinadas situações que classificaremos, a priori, simplesmente como: boas ou ruins. 

As situações ruins, claro, deixam marcas maiores e mais profundas, e qualquer tempo nela é o pior castigo que poderíamos sofrer, deixando-nos feridas mais difíceis de serem cicatrizadas. As boas, são tão sutis que não importa o tempo que durem, nos parece pouco, e sua lembrança é tão forte, mas às vezes tão frágil, que temos medo de um dia não conseguirmos lembrar da sensação de sermos felizes. 

É por isso que, para esses acontecimentos ruins, reservo-nos o direito de acharmos até, no melhor dos casos, injusto. Se até Jesus Cristo, como contam as escrituras na história da crucificação, lamentou ao Pai, demonstrando ser não só divino, mas humano, por que não temos direito de estarmos descontentes com o que nos desagrada?

Eli, Eli, lamá sabachtháni. 
(Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste.)

Mateus 27-45

Mas nós podemos ser ativos ante a ela, e certamente não iremos parar o moinho da vida que nos tritura a fim de nos refinar, mas amenizaremos a dor e o sofrimento proporcionados pelas experiências que precisamos passar para crescermos moralmente e, consequentemente, espiritualmente. Não, não é a dor que purifica, isso é masoquismo. É o que fazemos com ela. Até nisso demonstramos nosso poder de escolha e co-criação.

O ser humano um Deus finito

De forma nenhuma me atreveria a nos comparar a Jesus Cristo, embora sua passagem na Terra seja mais que uma prova de que, além de um espírito nobre, um ser humano bom, convicto de uma ideia e assistido pelos seus Guias Espirituais, pode realizar grandes feitos. Assim, o Messias dividiu a história em A.C e D.C, tornou-se uma ideia imortal de amor e compaixão, e ainda faz com que — dois mil anos depois —  milhares de pessoas ainda se ajoelhem todos os dias rezando por intermédio do seu espírito à Deus.

Entretanto, vale ressaltar que o espírito que encarnou em Jesus já havia atingido um altíssimo grau de pureza e perfeição, sendo antiquíssimo no processo de aprimoramento através da reencarnação e, ao encarnar, desta vez com a missão divina, aliado a uma mente extremamente potente e consciente de suas habilidades psíquicas, trouxe mais do que a inspiração e novos caminhos para o Planeta Terra.

“Não fosse assim, Jesus, a respeito de sua diferenciação com o Pai, de sua antiguidade e de sua evolução de penetrar nos arcanos divinos, não teria dito aos judeus (São João 8: 49, 54, 55, 56, 57 e 58): “honro a meu Pai; vós chamais vosso Deus sem o conhecerdes; eu, porém, o conheço; sim, conheço-o e guardo a sua palavra; vosso pai Abraão exultou por ver o meu dia, viu-o e alegrou-se””. Os judeus ficaram estupefatos e redarguiram: “ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?”. Jesus, contudo, como que se reportando ao seu passado espiri­tual, respondeu: “em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão exis­tisse, eu sou”.

 Artigo: Quem foi Jesus, por Leonardo Machado.

Esse Espírito, ao encarnar em Jesus Cristo, estreitou a relação entre a matéria e a divindade, trazendo o ideal do homem como um Deus finito, realizando tudo aquilo que sua mente ordenou: andar sobre as águas, curar o cego, ressuscitar Lázaro etc. O curioso é que, apesar de tudo, na hora do seu desencarne, como falei acima, não negou seu lado humano.

Sendo o homem a imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,17):

“Ao perceber Deus como o homem infinito, o homem diz até ele: Eu sou o Deus finito.” 

Dogma e Ritual da Alta Magia, Eliphas Levi, do Dogma, Capítulo 8.

É nos inspirando nesse grande iluminado que devemos buscar aplicar uma faísca de luz nos acontecimentos que nos cercam no dia a dia. Não há e nem haverá outros iguais a Jesus — apesar de cada era ter o seu anunciador — e querer ser como tal é o que leva milhares de pessoas à frustração, mas há como aplicar os seus ensinamentos no nosso quotidiano e na forma como nos relacionamos com nossas idiossincrasias. Ninguém chegará a Deus se não pelo seu exemplo de firmeza moral, amor e compaixão dado por Ele.

Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.

João 14:6

Na prática

Munindo-me deste exemplo, e de outros iluminados que passaram pelo nosso Planeta depois de Jesus Cristo, e suas histórias de vida, passei a acreditar em duas formas de enxergar tudo que acontece conosco e ao nosso redor, buscando uma forma de pragmatizar a vida: lamentando-se e entregando-se ao negativismo (passivo), ou confiando na espiritualidade e buscando compreender com positivismo (ativo).

Não tenho a intenção de ser piegas, definindo inimagináveis condições conflituosas em duas escolhas aparentemente simples — eu disse aparentemente simples —, nem mesmo de deslegitimar ou menosprezar a dor que eu não sinto, mas ainda acredito que nós temos o poder de dar o peso e as medidas aos acontecimentos da nossa vida. 

O mundo todo que está fora de você, primeiro acontece dentro da sua mente. 

Caboclo Urubatan da Guia

Sei que muitos ao lerem isso dirão, talvez com revolta, que estou sendo raso em relação às realidades deveras cruéis e irei humildemente e sinceramente pedir vossas desculpas se fui interpretado dessa forma. De fato, compreendo que as condições sociais, culturais, de região etc., podem usurpar o direito do indivíduo de se libertar dos piores infernos na Terra, mas mesmo que me esforçasse não teria explicações para o porquê de pessoas passarem por isso, só a Inteligência Universal as tem. 

Onde quero chegar, amigo leitor, é que existem pessoas diferentes das que citei no parágrafo acima, que têm garantido o direito de escolher a “passividade” ou a “atividade” e não o usam. Somos eu e você e tantos outros que não vivem o inferno, mas que, até sem perceber, trazem o inferno para si através das próprias escolhas. É preciso incorporar a mente crística, no sentido de saber que dentro de você habita um espírito nobre que tem uma missão na Terra. E como você quer honrá-lo? 

Saber onde você está nesse limiar diz muito sobre quem você é, e a forma como você lida com isso demonstra o quanto pode ajudar o outro sendo você. Para nós, privilegiados sim, podemos escolher e estudar na única escola onde entraremos e sairemos refinados — para melhor, espero —: é o nosso próprio EU.

A espiritualidade como aliada

Nem sempre será fácil, como disse anteriormente, simplificar os acontecimentos a essas duas escolhas, mas podemos tentar. Nós, em potencial, somos iguais. O que nos difere é a forma como encaramos nossas próprias vidas e a relação que temos com a espiritualidade.  

Não digo que alguém precisa de uma religião, ou mesmo acreditar que sua vida faz parte de uma “trama universal” para que faça de fato, mas quem se conscientiza disso pode pôr em prática o exercício da fé. A fé cresce exponencialmente à medida que se exercita, mas não irá impedir que você passe por uma situação a qual você precisa passar. Contudo, certamente te acolherá e te dará um outro entendimento sobre o fato.

Segundo o preto-velho que me acompanha, por exemplo:

“a doença ensina tanto ao enfermo quanto às pessoas próximas e ele, as lições que Deus quer que todos aprendam”.

Pai Cipriano de Angola

Cientes disso, diante da enfermidade, seja conosco ou com alguém próximo de nós, de alguma forma nos tranquilizamos, mesmo que momentaneamente, com esse amparo espiritual. Se nosso esforço for maior da nossa parte (ativo), presenciamos a cura e ainda tiramos um aprendizado dela.

Quando somos acometidos por uma situação caótica, precisamos fazer o que for preciso, mas também é preciso nos fortalecer na fé. É a fé que vai nos auxiliar a superar o processo, a fortalecer nosso espírito, a equilibrar nossas emoções, a aprumar o nosso juízo.

Seja um Deus finito 

A mente, entregue a um momento de prazer, totalmente focada no ato, consegue jorrar milhares de células que, ao encontrar com outra célula no corpo da mulher, é capaz de gerar uma vida, assim como Deus criou a nossa. Da mesma forma, criamos métodos para anular esse processo natural e divino em nossos próprios corpos. Veja que exemplos primorosos. Por que então não permitir que essa mesma mente divina atue nos nossos conflitos, dores, remorsos, instabilidades etc.?

Você é um Deus finito. Nós somos deuses finitos. Longe de querer justificar qualquer endeusamento, que aqui seria o efeito contrário do que proponho, mas uma vez consciente disso abrimos infinitas possibilidades sobre nós mesmos e sobre todos e tudo aquilo que nos cerca. A escolha é sua.

“Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.”

Salmo 82:6

Fonte:
¹Dados do Google disponível em 08/05/2020 neste link.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

3 comentários em “O Deus finito

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