O caboclo encantado

O tempo pode até não ser o mesmo para todos, mas existe para todos. Há tempo de preparar a terra, de plantar, de regar, de dar tempo ao tempo e de colher. Há o tempo de podar o galho, de afiar a lâmina, de dar tensão ao arco e atirar a flecha. Há o tempo de respeitar o abate e permitir que o espírito que deixa a matéria inerte viaje tranquilo de volta para o Grande Mistério.  

Os ciclos se renovam, velhas árvores dão novas sementes que levarão sua linhagem para o mundo. Mesmo que um dia a árvore anciã retorne para a terra que lhe deu a vida, ela está viva em quem descansar na sombra de suas filhas, netas e bisnetas, e se alimentar de seus frutos. A caça, por sua vez, alimentará outra espécie que perpetuará a gratidão e o respeito pelo seu sacrifício. A imortalidade, por fim, é se encantar para a ancestralidade. 

E não foi diferente para Itá, que ao chegar à idade avançada, percebeu que sua hora se aproximava. Havia se passado muitos anos de lutas vitoriosas, de caça e sustento para seu povo, liderado por ele. Entretanto, o tempo implacável demonstrava que seu corpo não acompanhava mais sua sabedoria, e a virilidade necessária para trazer o sustento já não respondia como antes. 

Ciente de suas responsabilidades, Itá reuniu seus melhores caçadores guerreiros, e dentre eles escolheu o mais justo, honrado e valente para que pudesse ser seu sucessor. Com honrarias deu-lhe seu arco, seu penacho decorado com penas das aves mais raras e difíceis de serem abatidas. Deu seu colar enfeitado com dentes de grandes predadores com os quais lutou e foi vencedor. 

Toda a tribo estava eufórica, e festejava seu novo Itá, que quer dizer “Pedra”, a pedra que alicerça o povo da tribo, enquanto seu antecessor, agora apenas um velho sábio, entrava pela mata enfrentando a noite, sem se despedir de ninguém, levando consigo apenas duas machadinhas com as quais era um exímio lutador.  

Não se sabe ao certo quanto tempo levou para que o caboclo fizesse sua choupana próxima ao rio, de onde passou a alimentar-se da pesca. Nem mesmo como conseguiu um penacho com penas amarelas e marrons, nem de como teceu uma trama de fios de palha envolvendo uma pequena pedra que, lascada por um raio, caiu na porta de sua choupana durante uma forte tempestade, e colocou-a como adorno em volta do pescoço. Ali, vivia em paz com a natureza, selvagem como o seu coração.  

Apesar de grande herói, o índio não pode com a natureza vil do bicho humano. Quando outros de outra tribo rival o viram e o reconheceram na beirada do rio, o cercaram. Desonraram-no pisando em seu penacho, jogando suas machadinhas no rio, bateram-no sem que ele pudesse esboçar qualquer tipo de defesa. Por fim, atearam fogo em sua choupana e o deixaram para morrer.  

Ao final da tarde ele acordou. Sentia o gosto do sangue na boca e o corpo todo doía, olhou em volta, as cinzas da choupana bailavam ao vento. Viu, sentado próximo a ele, um enorme animal que o observava, mas a vista turva não deixava discernir qual era. O animal se levantou e foi beber a água do rio.  

Ignorando o tamanho do potencial predador, que podia devorá-lo a qualquer momento, arrastou-se para o rio, agradeceu, e bebeu um pouco para aplacar a sede. Então, pouco a pouco arrastou-se para dentro da água onde seus pés e mãos não conseguiam mais tocar o fundo, e sentiu seu corpo sendo levado pela correnteza. Pouco a pouco aceitou seu destino e fechou os olhos. O animal, sentado à beira do rio, apenas o observava. Não tinha uma postura agressiva, mas sim curiosa. O índio nunca soube que animal era. 

Novamente ele abriu os olhos, amanhecia. Estava deitado com as costas na areia e as pernas na água. Ouvia um barulho intenso de queda d’água e com muito esforço levantou-se. Observou ao seu redor e viu que o rio o levara para a beira de uma cachoeira, enorme, que ele, mesmo há muito tempo caçando por aquelas terras, não havia descoberto. 

Observou também que suas machadinhas ficaram enroscadas nas pedras, mas sua força foi se esvaindo e ele caiu no chão outra vez. Viu o grande animal aproximando-se novamente e pensou que com as armas, se desse sorte mais uma vez, não seria devorado vivo. Ele lutaria.  

Enquanto se arrastava (em direção às machadinhas), pensava em tudo que lhe acontecera no que se lembrava. Lembrou de todos queridos de sua tribo, pensou no porquê de não ter se despedido, mas era tarde. Pensou na sua tribo rival, que nada tinha a ganhar numa disputa com um velho como ele, que o humilharam e o surraram por diversão, roubando seu direito de passar os últimos dias em paz.  

O animal caminhou, ainda sem apresentar uma postura agressiva, em direção às machadinhas e colocou-se após elas. O índio sabia que mesmo que conseguisse a firmeza ao pegar na ferramenta, o animal seria mais rápido, com toda a vantagem da situação, mas mesmo assim arrastou-se e conseguiu colocar uma das mãos na machadinha, porém, sentiu novamente uma fraqueza, e o som da cachoeira foi ficando distante, distante até sumir na escuridão. 

Ao abrir os olhos mais uma vez estava novamente na beira do rio, o som da cachoeira era forte. As dores haviam passado como se nunca tivessem existido. Ao seu lado estavam um penacho de penas amarelas e marrons, como o que havia sido destruído, mas diferente daquele, esse tinha pequenos búzios brancos adornando a diadema. O céu limpo trovoou quando ele se coroou com o penacho. 

Levantou-se e andando mais um pouco viu que do outro lado do rio havia o corpo de um índio, mas como estava com o rosto virado para a água, sem nenhum adorno, não pode reconhecê-lo de longe. Ouvindo um barulho vindo da mata, correu para se esconder temendo ser o grande animal que o perseguia, mas no lugar dele viu sair Itá, e seus guerreiros. Pensou em ir nadando até eles, mas algo o impedia. Gritou dizendo “eu estou aqui!”, mas neste momento o céu trovejou. Gritou novamente “eu estou aqui!” e o céu deu outra trovoada, impedindo que Itá e os guerreiros lhe ouvissem.  

Itá pegou o corpo tirando-o da beirada do rio e ali fez-lhe honrarias e entoou cânticos, dando orgulho ao velho que de longe assistia e comprovava a sua boa escolha em dar a sucessão ao índio que respeita um ancestral, mesmo sem saber quem é. O corpo foi enterrado à sombra de uma grande árvore.  

Somente quando Itá e os seus guerreiros foram embora, o velho conseguiu ir até o outro lado do rio. No túmulo com a terra ainda fresca, ajoelhou-se. Estava encantado. Tirou de cima da terra suas machadinhas e seu colar com a pedra de raio, vestindo-se por completo.  

Desde então, naquela cachoeira, nos momentos de maior precisão de justiça, dizem que se lembrar do grande índio que ali foi enterrado e bradar por seu nome invocando a sua lei, os céus respondem com uma trovoada dizendo: Eu estou aqui! 

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

2 comentários em “O caboclo encantado

  1. Woow que conto, que história!
    Me arrepiei, como é forte a Justiça! Nossa a última frase “os céus respondem com uma trovoada dizendo: Eu estou aqui!” foi incrível! Meu Deus como eu consegui sentir até o lugar! Gratidão! ❤

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