O homem de doze mãos

Quando refleti sobre como escrever essa história, pensei em tratá-la toda na 3ª pessoa, mas logo percebi que falar da Seara De Oxalá e de seu Babalorixá, sendo que a Seara é minha casa e o Babalorixá foi meu pai de sangue, seria, no mínimo, difícil. Escrevendo, constatei que separar-nos é impraticável.

Por isso não me preocupei em assumir uma única narrativa do começo ao fim, mas sim transitar entre o eu, o tu, o ele, o nós, o v´´os e o eles. As referências que trago são sob a minha ótica de filho de sangue — e de santo, à época — , porém, como jornalista, sei que fará bem a nossa leitura uma certa imparcialidade. 

É por isso que, em alguns momentos, deixarei que meu pai —  conhecido popularmente como Professor Orion — nos conte sua perspectiva através de trechos de uma publicação por ele escrita, em 2016, alguns meses antes de desencarnar, intitulada: “Caminhos do Destino”. Usarei minha admiração como o tempero de uma receita especial de amor e gratidão. Espero acertar o ponto.

Há, na nossa biblioteca, vários caderninhos onde narrou à mão detalhes de suas empreitadas, além de viagens pelo Brasil. Esses relatos viraram os livros “Das Coisas da Vida e da Morte e de Chico Asa Baixa (publicado pela editora Premius – 2012)” e “50 Anos Depois do Golpe (Livro publicado pela editora Premius – 2014)”.

Em uma outra série de contos, publicados em 2016 no meio digital, tem-se: “Tartaruguinha, o amor proibido”, “A História de José e Seu Irmão”, “Ambição Herança Maldita”, “Amor em Muitas Vidas”, “A Lenda Dos Orixás e Seu Domínio Sobre a Terra e os Homens”, “Devotos da Luz”, “A Estrela Verde”, “A História de Francisco”, o já citado “O Caminho do Destino”, “O Menino que Queria Ver o Mar”, “Vasculhando os Sertões em Busca das Gerais” e “Viagem de Carona Rumo ao Velho Chico – Viagem Quase Sem Fim”.

Sendo ele um comunicador nato, sua impressionante habilidade no uso das palavras, que disseminavam acolhimento, amor, compaixão e esperança de dias melhores, fez com que várias pessoas de diferentes classes sociais se dirigissem à casinha simples no bairro de classe média baixa, buscando conhecer seu destino através do Tarot, além de procurarem ajuda das entidades que o acompanhavam: Preto-Velho Rei do Congo (Mentor Espiritual Do Terreiro), Preto-Velho Pai Congo do Mar (Guia Espiritual do Médium), Caboclo Ubirajara (Guia Espiritual do Médium) e Exu Tranca Ruas (Guia Espiritual do Médium).

Impossível olhar pra um céu como o de hoje e não lembrar do professor Orion. Que falta me faz escutar as suas histórias e seu canto!
Com ele aprendi sobre a Umbanda e a caridade. Sobre a importância de se fazer presente na vida do outro, a importância da escuta.
A Seara de Oxalá foi fundamental na minha evolução espiritual e de muitos outros que por lá passaram. Viva a Seara de Oxalá e o Professor Orion!

Ticiana Patrício

Homenageá-lo, e ao seu Terreiro, é deixar no coração dos leitores um pouco da história de um homem que, com quatro mãos físicas (as suas e de seu cambono) e oito mãos espirituais, dedicou-se, por mais de 40 anos, à Umbanda, sendo 31 deles no seu terreiro. 

É claro que essa história poderia render muito mais, nos moldes do jornalismo, se eu fizesse uma série de entrevistas com os filhos de santo, companheiros de trabalho, amigos…, mas penso que ele não gostaria de tanto alarde. Para um homem midiático e falante, a discrição era sua verdadeira área de conforto. 

Professor Orion

Aspectos técnicos dessa história interessam mais a mim, que sou filho, e considero tais informações como um tesouro inestimável. O que interessaria ao Professor Orion, mesmo póstumo, é que a história de sua fé e seu trabalho na espiritualidade não se “perdessem no tempo” e que assim pudesse ajudar outras pessoas. Tudo o que ele transmitia era a certeza na capacidade contida em cada um, e na plena possibilidade de mudança a todo aquele que tivesse disposto a mudar para melhor.

Por isso, caro amigo leitor, lhe convido para esse passeio às margens do tempo, onde seguros podemos brincar com as ondas. Já deixo minhas sinceras desculpas pelo texto longo, pois, diante de tantas histórias, não pude resumi-lo. 

Escrevo sobre Orion, o homem de doze mãos.

O homem e o Sacerdote 

Nos últimos quatro anos, acreditei que muitas coisas importantes sobre sua história, como a data de sua iniciação, o nome do terreiro em que desenvolveu e o nome de sua Mãe e Pai de Santo, havia descido com ele para aquele túmulo no cemitério São João Batista, em Fortaleza, sua terra natal. Entretanto, a condição de Jornalista, formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) o tornou um homem de muito escritos, áudios e vídeos.

José Mário – 1º da direita para a esquerda na foto.

Como jornalista, atuou em grandes jornais do Rio de Janeiro como “O Globo”, e ganhou destaque no “Projeto Radam” em 1970. A rotina exaustiva dos grandes jornais e o salário baixo o levaram para longe da cidade grande e seu frenesi. Com o dinheiro recebido de uma indenização, juntou-se ao seu irmão em uma sociedade e comprou um sítio, em Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio de Janeiro, onde tinha planos de viver uma vida rural. Anos depois fundou um pequeno jornal local, chamado “Jornal do Município”. Naqueles tempos, Professor Orion respondia pelo seu nome de batismo, José Mário.

A incerteza financeira gerada pelo seu estilo de vida trouxe grandes desafios que conseguia contornar — segundo me contava — graças ao poder da oração. Em Cachoeiras de Macacu conheceu o que diria ser o seu primeiro mentor, um ex-feiticeiro recém convertido à evangélico.

“Próximo ao sítio morava um velho feiticeiro de nome Marcelo. Foi procurá-lo para pedir um conselho, mas o velho era cismado, arredio e se tornara evangélico. Logo na porteira de sua casa viam-se duas garras de gavião cruzadas e um chifre enorme na soleira.

Foi difícil fazer amizade com Seu Marcelo, que agora só vivia recebendo os irmãos pastores em sua casa. Mas todos no lugar conheciam a sua história. Na juventude incorporava  exus e era respeitado por todos. Se alguém olhasse para Seu Marcelo de modo “enviesado”, podia se preparar para no outro dia estar com a perna quebrada.

O velho deixara a Quimbanda, onde tinha um enorme prestígio, desde o dia  em que mataram um filho seu. A morte do filho mais novo fez o velho feiticeiro meditar sobre as maldades que praticou a pedido de pessoas vingativas e más.

Sua mulher, Maria, era mais acessível. Ai José a convidou para fazer a comida dos cachorros e, com o tempo foi “domando” seu Marcelo, dando-lhe trabalho no sitio. Marcelo capinava o pomar de laranjas e os dois conversavam por horas sem fim. História aqui, história ali e aos poucos ficaram amigos.”

No sítio, por conta própria, José Mário aprimorava-se na tradição da feitiçaria brasileira. Até então, conforme seus próprios relatos, a ideia da Umbanda era completamente distante, embora desde cedo já gostasse do esoterismo e de outras formas de entendimento da espiritualidade, além do catolicismo, sua religião herdada da família. Usar a feitiçaria que Marcelo lhe ensinava o livrou de diversas perseguições na época:

“José era assim. Um médium  natural, precisando desenvolver-se mas não sabia ao certo o que devia fazer. E a vida continuava piorando cada vez mais no sítio.

O irmão, vez por outra, tomava uma carraspana. Saia para a cidade vizinha em busca de festas e namoradas. Voltava bêbado, altas horas da noite. Às vezes José pegava o carro e ia ao seu encontro, temendo que algum mal pudesse lhe ocorrer. Uma vez, o encontrou já voltando da farra, um pé lá e outro cá, de um lado ao outro da rua, ziguezagueando no asfalto, na noite escura.

No sítio, os animais continuavam morrendo lavrados de bernes. Até no úbere da vaca “Pedrita”, aparecia berne. Mas a vaca era “sagrada” — dizia — e só ela e o bezerro, agora um “tourinho”, não eram afetados por quase nada.

Um dia, num sábado no final da tarde, viu uma luz dentro do mato, um pouco a frente da entrada do sítio. Como não tinha medo de nada mesmo, foi ver do que se tratava. Era uma vela acesa. Voltou em casa, apanhou uma caixa de fósforos e voltou para o local onde estava a vela. Foi tomado por uma “força estranha” e uma voz falou com a sua voz:

— Dá licença quem está trabalhando, porque vou virar esse ponto. José  não merece o que estão fazendo com ele.

E pegou a vela, mordeu no  final, fazendo outro pavio e o acendeu  a vela virada. Deixou o local e foi para casa. Não se passaram dez dias e apareceu o dono do terreno vizinho, onde um posseiro fizera uma choupana.

O Proprietário deu seu ultimato:

— Ou sai ou passo o trator por cima!

Seu Manoel, o posseiro,  não teve outra alternativa. O proprietário já chegara acompanhado por um trator. Foi colocando as tralhas de Manoel na estrada e em seguida o trator derrubou a casa, demolindo tudo.

No outro dia, bem cedo, Manoel apareceu na porteira de José e disse:

— Isso é que é uma macumba bem feita!

Novamente a voz tomou conta de José e disse:

— Macumba feita por sua mulher, para tirar José da sua casa. A casa que comprou com o suor do rosto! O feitiço só se voltou contra o feiticeiro!

Seu Manoel saiu praguejando e sumiu daquelas bandas.”

Se ele estivesse aqui diria que “Deus escreve certo por linhas tortas”, e foi através de um feiticeiro de quimbanda que José passou a conhecer esse mundo místico, de culto e aprendizado à espíritos desencarnados. Mesmo muito diferente de Marcelo, inclusive nos hábitos, José Mário filtrava e adaptava o que era ensinado pelo quimbandeiro de forma que lhe fosse praticável, dentro dos seus princípios de moral cristã, que o acompanharam por toda vida. Sentia-se cada vez mais inclinado àquela prática da espiritualidade, mas não havia se encontrado.

Com o passar dos anos, Marcelo morreu de maneira abrupta. José já o visitava pouco, mas manteve com ele uma amizade sincera. Seguindo, dessa vez sozinho, pouco tempo depois José Mário conheceu Amarilho, que veio a descobrir mais tarde ser Pai Pequeno da Tenda Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar (Penha, RJ), e através dele foi apresentado à Ialorixá do Terreiro, Mãe Elza.

No desenvolvimento conheceu seu guia chefe, Pai Congo do Mar, e as lições de amor e caridade deram novos significados às práticas ensinadas pelo seu antigo mentor carnal. Quatro anos depois desse encontro, José Mário, no dia 15 de outubro de 1985, foi consagrado Babalorixá.

“Chegou o dia da feitura da Coroa. Um grupo seleto de médiuns, Pais  e Mães no Santo, ogans e os novos sacerdotes de Umbanda, que seriam sagrados, chegaram bem cedo no Centro Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar. Às 7 horas Seu Sete Luzes abriu a gira especial: e banhou um a um com amaci, “catulou” (raspou) e consagrou sua Coroa como o templo vivo de cada Orixá.

Durante toda solenidade, que demorou o dia inteiro, sem intervalos, os ogans se revezavam cantando as curimbas dos orixás, acompanhados por caboclos, caboclas, pretos velhos, pretas velhas, incorporados do começo ao fim. Enquanto esperava sua vez, cada médium ficava de um lado do pegi, concentrado, numa espécie de transe semiconsciente. Pelo menos foi assim que aconteceu com ele.

Lembrava que cada Pai no Santo ao ser sagrado, era conduzido pelos padrinhos (entidades incorporadas) para deitar numa esteira, coberta com um lençol branco e ficava ali esperando até  sagração  de todos terminar. 

Não podia esquecer seus padrinhos, Rei do Congo e Vovó Maria Conga o conduzindo para o local onde seria sagrado. O acompanharam até o final da feitura. Os atabaques e os médiuns puxavam uma carimba de Xangô, Orixá do novo sacerdote. E foi assim com cada um dos outros, sendo puxado sempre o orixá dono da Coroa:

Xangô meu Pai,
Deixa essa pedreira aí,
Que Umbanda tá te chamando,
Deixa essa pedreira aí!

Ficou meio em transe. Ouvia e via tudo. Sentiu o cabelo sendo cortado no alto da cabeça, enquanto Seu Sete Luzes evocava Oxalá e o Divino Espírito Santo:

Ai meu Divino Espírito Santo,
Venha nos ajudar,
Trazendo as ordens do Pai Eterno, Jurema…
Ô Juremá…

Trazendo as ordens do Pai Eterno
Jurema… Ô, Juremá !

Essa curimba foi entoada durante toda a feitura. Depois de raspar o alto da cabeça, ela foi lavada com amaci. Também os braços, pernas, mãos e pés do médium. Depois esses locais foram cruzados com pemba branca de Oxalá.

A seguir o pombo branco foi sacrificado com as mãos, e a “Menga” colocada sobre a parte tosada e untada com a banha do Ori. Obi e Orobô mascados (dos quais o médium também comia um pouco), as pembas dos orixás de coroa raladas e por fim o Ossum, também transformado em pó e aplicado sobre a coroa.

Os excessos das firmezas, que desciam pelo rosto e restante da cabeça, foram enxugados com uma toalha branca. Depois, com outra toalha, a cabeça do médium foi amarrada com as firmezas, e foi sendo conduzido por seus padrinhos à camarinha, onde ficava deitado, coberto por um lençol branco.

A essas alturas o transe era inevitável, mas ninguém, entre os “catulados” incorporou nenhuma entidade. Às 7 horas da noite, doze horas depois que tudo começou, serviram um caldo ralo de legumes para alimentar os médiuns que estavam em jejum absoluto.

A solenidade só terminou às 22 horas, quanto os novos pais no santo (mais de dez) tinham sido sagrados. No pegi, junto com os novos Babalorixás e Ialorixás, estavam suas oferendas: amalás, guias, búzios, velas de cera, perfumes, bebidas (libações), que seriam retirados e despachados numa cachoeira, três dias depois.

E a mecha do cabelo tosado, com uma tesoura nova, o pente, escova e todos os panos e toalhas, as pembas, foram entregues ao médium como lembrança daquele dia, para serem usados ou despachados numa cachoeira ou mar, quando não tivessem mais nenhuma utilidade para ele.

Recebeu cruzadas as novas Guias: a de Obori (ou Coroa Maior), representando todas as linhas de Umbanda; a Guia de Oxalá, de cristais brancos leitosos;  Guia de Xangô cruzada com Oxum, de contas de cristais marrons, com azul marinho; a Guia de Ogum, que na Umbanda é feita com cristais vermelhos, (no Candomblé, essa guia é azul turquesa); a Guia de Obaluaê  (Linha das Almas), com contas pretas e brancas miudinhas); Guia de Preto Velho, feita em contas pretas, e brancas grandes; a Guia de Exu, com contas pretas e vermelhas.

Seu Sete Luzes, os demais Pais e Mães Pequenas e médiuns convidados, permaneceram também em jejum, pitando seus charutos e tomando pequenos “curiados” até o fim da solenidade, que foi encerrada como uma gira comum, com cada caboclo e cabocla, pretos velhos, cantando suas curimbas de subida.

No encerramento dos trabalhos, Seu Sete Luzes, como sempre, fez as firmezas, parabenizou os novos Sacerdotes de Umbanda, chamando a atenção deles para o compromisso e a responsabilidade que acabavam de assumir perante Olorum, Oxalá e os demais Orixás: Xangô, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã, Oxossi, Ogum, Obaluaê e Ibeji.

[…] Completados os sete dias, no dia 15 de agosto, os novos Babalorixás e Ialorixás foram apresentados ao corpo de médiuns do centro e a convidados especiais de outras entidades de Umbanda.

José Mario no centro, ao lado de Mãe Elza e Pai Amarilho

Foi uma festa linda, inesquecível mesmo. Quem diria que aquele jovem que deixara sua terra para se formar em Jornalismo, um dia voltaria Sagrado Babalorixá de Umbanda?”

No mesmo ano da sua feitura, voltou para Fortaleza, dando início aos trabalhos na Seara de Oxalá.

“Não tinha certeza. Não sabia a quem fez, ou onde o fez. Só sabia que tudo aconteceu como pedira. Na verdade tudo foi pretexto do destino. O jornal foi preciso para a descoberta da fé e para que José achasse a seus Orixás e firmasse o seu “Bori”, fazendo caridade e orientando multidões. José, realmente, ali, descobriu o caminho do seu destino.”

Segundo me contava, o nome Orion lhe foi dado pelo seu próprio guia espiritual, que uma vez manifestou-se para ele e disse-lhe que a partir daquele dia deveria se chamar de Orion. O aprofundamento nos estudos esotéricos como tarot , numerologia e astrologia, o levaram a dar aulas e cursos no seu terreiro, ganhando assim o título carinhoso de Professor Orion. 

A Seara de Oxalá – Casa de Xangô

Fundada no ano de 1985, ao lado de um pequeno corpo mediúnico, a Seara de Oxalá Casa de Xangô seguiu os princípios ensinados por Mãe Elza e Pai Amarilho da Tenda Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar, na Penha (RJ). Esses princípios, com o tempo, foram sendo adequados à sintonia do trabalho da entidade chefe do Terreiro, Rei do Congo. 

A forte influência católica trouxe para o altar a imagem de Jesus Cristo e de outros santos dentro do sincretismo religioso. Com o passar dos anos, o terreiro entrava nos moldes da Umbanda Popular, mas com grandes influências esotéricas e de outros sacerdotes a quem Professor Orion teve a felicidade de conhecer, como Matta e Silva e Paulo Newton de Almeida.

Dado o sincretismo religioso, o terreiro usava as datas dos santos católicos para festejar também os Orixás. Eram festas lindas e simples, com comidas típicas. Quem podia trazia, quem não podia não trazia nada, e todos participavam de um grande banquete.

Nas festas votivas à São Cosme e São Damião, havia muitos bombons doces. Nas festas de São Sebastião, santo católico sincretizado com Oxossi, o Orixá das matas, colhíamos as folhas das árvores cantando os pontos de Ossain, que seriam usadas para enfeitar o chão do congá. Se eu fechar os olhos, ainda consigo ouvir os caboclos dançando nas folhas, e o cheiro de milho no ar.

A luta por uma Umbanda séria, com atendimento gratuito, que atendesse à todos os públicos, sem paramentos extravagantes e diferenciações egóicas entre médiuns, não era um sentimento em comum aos médiuns da primeira formação, e a corrente se desfez com os primeiros médiuns partindo para seus próprios destinos.

Sozinho, ao lado da esposa — seu cambono e zeladora do terreiro por 31 anos —, e com dois filhos pequenos, Professor Orion continuou com o atendimento e lidando com a sobrecarga do trabalho sem nunca reclamar. Houve épocas que, na Seara de Oxalá Casa de Xangô, as Giras recebiam pouco mais de 50 pessoas gratuitamente, pacientemente atendidas pela entidade chefe do terreiro. Ninguém saia sem ser atendido.

Segundo ele, essa dificuldade em achar médiuns comprometidos o levou a enxugar ainda mais os trabalhos, continuando com o atendimento gratuito, mas fazendo também o acompanhamento do desenvolvimento mediúnico de alguns médiuns. Ao longo desses 31 anos, foram feitos batismos, coroações, trabalhos dos mais diversos tipos, e atendimentos com o tarot e o jogo de búzios.

“Ali começava o seu maior desafio: manter os preceitos, cumprir as leis de Pemba, orientar e até fazer novos filhos, batizar, casar, tirar Mão de Vumbi, (mão do morto). Se bem que ele foi advertido por Mãe Elza:

— Só faça novos filhos (sagrar) por merecimento!

E assim tem sido. Já batizou uma infinidade de médiuns e seguidores de Umbanda, mas filhos não os fez. Por incrível que pareça, até 23 anos de Coroa Maior não encontrou ninguém que realmente merecesse essa responsabilidade em sua terra natal.

Um dia visitou Mãe Elza, no Rio e reclamou, tinha feito tudo que ela e os guias recomendaram e não conseguira, naquela terra, reunir um corpo de médiuns responsáveis, que se dedicassem a Umbanda como ele se dedicou.

Largou tudo, até a profissão para se dedicar ao Sagrado. Ficou famoso como vidente e médium de cura. Orientou centenas e centenas de consulentes. Teve sempre lugar de destaque nas rádios e televisões, mas filhos feitos, catulados por ele, não!

Mãe Elza ouviu tudo silente e disse:

— É meu filho. Há médium que traz a missão de trabalhar sozinho!

E estava certa, pelo menos até certo ponto, porque essa história por certo não terminaria aqui. Vinte seis anos depois fez a primeira Coroa de Jurema numa médium de Manaus.

Mas não perdeu a fé de ser, realmente, Pai no Sagrado. Seu filho aos  21 anos começou o desenvolvimento  mediúnico, sendo sua esperança , sagrar seu sucessor, como Pai no Santo.”

Mesmo tendo sido criado na religião, nunca fui obrigado a fazer parte dela. Tanto que fiquei como tabaqueiro dos 17 anos aos 21 porque gostava do atabaque, e só decidi desenvolver de fato aos 21 anos, onde conheci o Preto-Velho Pai Cipriano de Angola, um dos meus mentores espirituais. 

Professor Orion e seu filho

Nesse período o terreiro ganhou força, e acredito que desenvolvemos um lindo trabalho juntos. As tarefas que eram centralizadas no Babalorixá passaram a ser divididas comigo. A idade alcançava meu pai e nós nem imaginávamos que aqueles dias seriam tão importantes para nós, para sempre. 

O trabalho na TV e na rádio

Paralelo aos trabalhos do Terreiro, Professor Orion se dedicou também à Tv e ao rádio, fazendo participações em programas como Na Boca Do Povo, na TV Jangadeiro, em emissoras de rádio como Rádio O Povo, Rádio Progresso de Russas, na TV Diário, muitas vezes de forma gratuita. Levar a Umbanda e o Esoterismo ao grande público naquela época era desafiador, mas encarava como parte da missão desmistificar e combater o preconceito através de sua irreverência. 

Numa época em que sofríamos preconceito em nossa própria rua, Professor Orion ia para a televisão e rádio falar de amor, acolher ouvintes e telespectadores que se dispunham a com ele dividir suas aflições, mostrando que um Pai de Santo não era, como imaginam até hoje as religiões mais radicais, o representante do demônio, mas sim um ser humano como todos em busca de fazer um bom trabalho neste planeta de expiações.

Professor Orion – Rádio Progresso de Russas

Eu me lembro de sempre acompanhá-lo nas emissoras e ficava observando-o nas suas participações ao vivo ou gravadas. O curioso é que nunca o via mudar de postura: chegava com uma hora de antecedência, entrava cumprimentando a todos e, após a sua participação, saia com os mesmos cumprimentos. Não me lembro de pessoas que não dessem um sorriso acompanhado de um “Olá professor Orion!” quando o viam.

Conheci o professor Órion na década de noventa quando trabalhava na Rádio O Povo. Depois, trabalhamos juntos na RCN, quando ele tinha um quadro sobre espiritualidade. Mais tarde, em 2004, já na TV Jangadeiro, tive o prazer de trabalhar de novo com ele no programa Na Boca do Povo. Criamos um quadro para o programa em que ele participava diariamente lendo as cartas de tarô e jogando búzios. O quadro era uma sucesso de audiência com muitas participações de telespectadores querendo saber o que revelavam as cartas sobre trabalho, amor, saúde.

O que mais me chamava a atenção é que mesmo que fosse uma carta negativa o professor Órion conseguiu passar para a consulente uma mensagem de otimismo e de esperança, porque esta era a essência dele.

Ele era um homem de alma leve e que transbordava Amor e Alegria. E todos os dias antes de entrar no ar ele fazia questão de cumprimentar as pessoas e passar por vários setores da TV. Na maioria das vezes todo mundo pedia para ele tirar uma carta. Eu era uma delas. Sempre pedia: professor, qual a carta do dia? rs…

A partida dele nos deixou tristes, mas tenho certeza que ele está junto aos seus ancestrais e Orixás orando por todos nós e pelo mundo, neste momento de tantas incertezas e desolação. 

Selma Vidal (Selminha)

O recomeço

Aos 70 anos, Professor Orion já não era mais convidado para a TV, ou para os programas de previsões anuais.  Isso, claro, não o impedia de — no Jornal do Município, que passou a ser online —  dedicar-se à escrever suas previsões anuais, além dos contos já mencionados neste texto.

Eu nunca vi tamanha disposição mental para o trabalho como testemunhei nele. Com tantos anos de profundo envolvimento com as mesmas ferramentas (tarot, numerologia, astrologia) sempre tratava com entusiasmo do assunto. Ele gostava do que fazia, continuava rezando todos os dias e recebendo pessoas para aconselhar como podia. 

Nessa idade, já apresentando os primeiros sinais do que iríamos descobrir mais tarde ser o começo do seu preparo para o desencarne, interrompia seu almoço para pegar um raminho de pinhão roxo e rezar em uma criança com “quebranto”, como presenciei não apenas uma vez.

Nos últimos anos, nos aproximamos mais. Com o meu desenvolvimento e a empolgação de ler e pôr em prática ao seu lado a “feitiçaria brasileira” — essa que foi sua primeira escola — , o fazia lembrar de seu início. Lembro-me de uma ocasião em que eu perguntei-lhe algo sobre algum aspecto da Umbanda ou da magia e ele respondeu: “Gabriel, isso eu não posso te dizer. Leia esse livro e quando você terminar discutiremos…”, e esse cuidado era para ter certeza que eu valorizaria o que ele levou anos para aprender, e me ensinar. 

Só houve uma coisa que ele nunca sequer tocou no assunto. Isso porque sua vitalidade e a longevidade genética de seus pais nos enganaram, dizendo-nos em seus sinais aparentes que teríamos, quem sabe, mais 30 anos pela frente. Também nunca tive curiosidade de perguntar: o que fazer depois que ele morresse?

Em 2016, devido a uma cirrose medicamentosa, as atividades ritualísticas no terreiro foram suspensas, aguardando o retorno da sua internação. Mesmo no hospital, Professor Orion fez amizades com enfermeiros e médicos, que faziam questão de saber como ele estava. Sua esposa, minha mãe, ficou ao seu lado todos os dias, desde o primeiro dia que se conheceram. No seu leito do hospital, na cabeceira da cama, estavam suas guias e, ao lado do travesseiro, seu livrinho de orações. 

Constantemente eu o visitava, e podia, por uma ou duas horas, ouvir as suas lições de otimismo, de um homem que em nenhum momento acreditou que estivesse vivendo seus últimos dias na Terra. Enquanto esperava, fazia seus planos para quando saísse, dentre eles, minha coroação. A feitura do seu primeiro filho de santo, o seu filho de sangue.

Mesmo depois de uma considerável melhora no hospital, a sobrecarga dos rins o levou à hemodiálise, processo que o debilitou dadas as complicações anteriores. Mesmo de alta, já não era mais o homem que saiu quatro meses atrás. Ainda assim alegre, quando eu o levei para seu terreiro, que ficava atrás da nossa casa, olhou para as imagens e se emocionou, achamos por melhor leva-lo novamente para a sala, com medo que a emoção o causasse alguma complicação. Eu nem imagino o que se passou em sua cabeça naquele momento. 

No dia 7 de junho de 2016, aos 71 anos, Professor Orion sofreu um AVC enquanto dormia, o qual o levou a falecer no dia seguinte. Daí em diante, a minha história é narrada no conto “O Desafio de Ser Seu Próprio Mestre”. Professor Orion teve um funeral católico, pois seu corpo era também de José Mário, irmão, tio, padrinho, respeitando assim sua tradição familiar. 

Embora possa hoje compreender que deve-se respeitar a tradição do egum, lamento lembrar que a missa foi celebrada em tom de misericórdia, como se Deus precisasse se lembrar de sua alma Umbandista, e o perdoasse. Lembro tão claramente, no hospital, dele me falar que um de seus familiares havia tentado convencê-lo de que se convertesse ao catolicismo, que se arrependesse de seus pecados. Disse-me ele, com os olhos rasos d’água, que se fosse para morrer, que morreria na sua fé. Na fé que o guiou por toda a sua vida.

Enquanto era sepultado, ouvi a voz de um homem, chorosa, cantando o ponto do seu guia, Pai congo do Mar: 

“Congo quando vem, vem devagarinho, ajuda Oxalá, a chamar seus passarinhos.” 

e em seguida: 

“Mamãe Oxum, estrela guia dos filhos que choram em aflição. Ilumina a vossa estrada mãe Oxum, de luz, de amor e de perdão”.

A voz do homem só cessou quando, por fim, eu parei de cantar.

Em seu terreiro os atabaques foram cobertos e silenciados, os filhos e assistentes foram orientados e, alguns meses depois, sendo eu o representante ativo na Seara de Oxalá – Casa de Xangô, decidi encerrar suas atividades, sob a orientação do meu preto-velho Pai Cipriano de Angola.

O Terreiro foi transformado em um altar familiar, um espaço para rever o tempo e matar a saudade. Ainda que o silêncio das paredes do congá ecoem a ausência de seu Babalaô, o espaço tornou-se um ambiente de amparo, de meditação e de fé.

Eu entendo que poderia começar esse tópico com “O Fim”, mas não. Hoje, Graças ao Caboclo Urubatão da Guia, vejo como um recomeço. Seus exemplos de amor e dedicação às suas entidades ocupam grande parte da minha postura em relação às minhas. Há muito mais que não pode ser codificado na escrita. Aos 27 anos, entendo que minha missão — em relação às expectativas do Professor Orion em vida — não é e nunca foi sucedê-lo, mas sim continuá-lo através de mim, do que venho me tornando. 

Mais novo, lembro-me de ter dito que quando crescesse queria ser igual a ele, mas hoje vejo o quão sábio foi ao dizer: “filho, quando você tiver minha idade saberá mais do que eu.”, não por vaidade, mas por ter a oportunidade de revisar em mim, no meu trabalho de ser meu próprio mestre, o que poderia ser aprimorado nele, que como ser humano tinha suas falhas.

Devo a vida a esse homem, devo a mim vivê-la.

Por mais que uma árvore anciã retorne ao grande mistério,  não há nada no mundo o que não tenha o toque gentil da sua beleza, uma molécula de oxigênio que não tenha passado por suas folhas, não há corações que, ao me conhecerem, ao conhecerem minha mãe e irmã, não conheçam um pouco do homem que ele foi. Seu desencarne me ensinou tanto quanto sua passagem na terra, e ainda vem ensinando. A sua fé sustentou nossa casa, criou-nos, formou-nos, e nos deu muito mais além que o material.

Sempre digo em minhas orações, que onde ele estiver minha gratidão seja uma luz se lhe estiver escuro, e que o calor do meu amor esteja com ele na sua nova missão. Onde ele estiver, que Deus o receba em um bom lugar de descanso, e lhe retribua o amor que dedicou a todos nós.

Professor Orion

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

2 comentários em “O homem de doze mãos

  1. Caramba, como sempre me tirando lágrimas… Que história mais linda! Acho que você sempre consegue chegar na essência sabe?! Tipo você consegue sempre fazer com tua alma, fazer com que a gente se sinta dentro do texto, fazer com que mergulhamos na verdadeira essência das tuas palavras, e isso é lindo! Caramba, você merece crescer muito, de verdade! Grata por esses textos incríveis! Que chegue a muitas pessoas mais!

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