Não provoque o macumbeiro!

Nasci em um bairro pequeno, de casinhas coladas “parede com parede”, e a vizinhança sempre presente foi uma forte marca da minha infância. Foi nela que me deparei a primeira vez, ainda pequeno, com o preconceito religioso, quando sabia que todos meus amigos da rua tinham sido convidados para brincar na casa de alguém, menos eu, por ser o “filho do macumbeiro”. Embora nunca tivesse visto meu pai acender uma vela sequer para demandar contra alguém, as pessoas que o conheciam apenas de vista o respeitavam, com certo temor.

Meu pai não fazia questão de provar que era bom para desmentir a fama que o preconceito o atribuiu. Os vizinhos que com ele conversavam, sabiam que a proposta da Seara de Oxalá Casa de Xangô era — e foi até seu último dia — a caridade, o respeito ao livre arbítrio e o amor incondicional.

Hoje eu vejo que, no contexto ao qual estávamos inseridos: família pobre, pai de santo preto, duas crianças pequenas e uma esposa jovem do interior, a fama de “não mexa com o macumbeiro” vinha muito a calhar, porque ninguém tinha coragem de fato de afrontá-lo, mas isso não os encorajou a desistirem das piadinhas que eu ouvia quando ele passava e, também, dos meus amigos da rua, que nas brigas soltavam um sonoro e doloroso: “Filho do Macumbeiro”. 

Vocês podem até me perguntar o porquê de alguém querer afrontá-lo, mas quando se trata do preconceito religioso não é preciso que se faça muito. Somente o fato de ser o único terreiro no bairro, já é o suficiente para incomodar pessoas nos supermercados, lotéricas, praças… é curioso como isso acontece.

Certa vez perguntei ao meu pai se esses comentários não o incomodavam como incomodavam a mim, e ele respondeu-me dizendo que não, e lembrou-me de um ponto do seu Tiriri, um dos exus que ele recebia:

“Eu vou girando, eu vou girando e vou na santa paz, porque eu só temo a Deus e nada mais.”

Essa firmeza de saber quem ele era, e o que fazia, não permitia que a desaprovação da vizinhança interrompesse seu trabalho espiritual. Ainda assim, em respeito aos moradores de crenças distintas, as giras eram sempre pela manhã ou à tarde, em horários que o som do atabaque incomodasse o mínimo possível. Se não bastasse, quando pôde, meu pai construiu uma parede para isolar o terreiro da parede do vizinho, impedindo qualquer desconforto. Nas festas votivas, estendia o convite à vizinhança.

O preconceito

Não é difícil entendermos que o preconceito parte de uma ignorância. Ignorar significa: não conhecer, não saber; e é justamente por ignorar a tradição de Umbanda que os mitos ganham força e a histeria se fortalece. Não foi incomum no nosso país, nas periferias, líderes religiosos de religiões místicas, não só da Umbanda, serem linchados até a morte, por se terem espalhado boatos sobre eles de que, em suas giras, havia a invocação do demônio e sacrifícios de seres humanos.

Lembro-me de uma vez que, um colega de classe, sem saber que se tratava do meu pai, perguntou-me:

— Ei, é lá na tua rua que mora o feiticeiro é?

— Sim!

— Minha irmã disse que você não pode passar muito perto porque eles leem o seu pensamento. Como você faz?

— É meu pai.

— Sério!? Ah, tudo bem… desculpa!

— Sem problemas.

E se eu fosse contar todas as histórias que passei, daria um livro cômico, se não fosse trágico.

O preconceito religioso está enraizado. Quando me refiro ou cito, por exemplo, a igreja católica, através do Tribunal da Santa Inquisição, e as forças militares, que invadiam os terreiros, quebravam seus assentamentos e levavam presos seus sacerdotes, com a justificativa de prática de feitiçarias, não o faço com nenhum revanchismo, mas apenas por se tratar da história tal como foi, como exemplificada pelo pesquisador, Renato Ortiz, em “A morte branca do feiticeiro negro”, e, também, presente no meu livro-reportagem “As Vozes da Umbanda: a Umbanda pela voz dos umbandistas”, publicado em 2018.

Diante de tantos ataques, vejo claramente os motivos que levaram vários cultos contemporâneos ao surgimento da Umbanda, a usarem o a ignorância das massas como aliada, manipulando a imaginação de seus agressores e alimentando-a de mistérios ocultos. Sendo assim, quem teria coragem de pisar na calçada do terreiro para invadi-lo ou pichar o seu muro, sabendo que o “macumbeiro” que mora lá recebe um Exu Caveira? Uma Maria Sete Navalhas? Um Exu Sete Facadas?

Podemos, ao estudar um pouco sobre a história da religião, entender porque os próprios sacerdotes alimentavam essa postura de “Não mexe comigo que eu não ando só”.

Em defesa desses pais e mães de santo que lutaram pelo direito de manifestar a sua espiritualidade como queriam, precisamos não igualar a reação do oprimido com a ira do opressor. Devemos, por assim, respeito e compreensão por eles terem sofrido o que sofreram para que nós tivéssemos espaço hoje como religião.

O outro lado da moeda

Não posso ser tão ingênuo a ponto de colocar a Umbanda como uma religião pura e injustiçada, embora a última alegação seja verdadeira. Sempre existirão terreiros, barracões, casa etc. que dirão-se de Umbanda, mas não passam de organizações para a prática de magia negra.

A religião Umbanda tem o que nós chamamos de “núcleo indivisível”, que se trata, por exemplo, do trabalho com os pretos-velhos, caboclos, o uso de ervas — que foi herdado dos índios brasileiros —, etc., mas terreiros que se dizem umbandistas e têm uma gira de caboclos ou preto-velho por mês, e todas as outras voltadas à Exus e Pomba-Giras, não sei se podem se chamar de Umbanda.

Claro, não sou eu quem define o que é ou não Umbanda, nem estou questionando a presença dos mestres Elegbarás nos nossos cultos, mas sim a sua frequência. A linha de esquerda tem suas funções muito bem estabelecidas em um terreiro sério, sendo o atendimento por caboclos e preto-velho a linha mais correta para a religião (abordarei isso em outro tema). Reservo-me o direito de expor uma opinião minha, dando-vos o direito de considerá-la, ou não, válida.

Então, muitos desses sacerdotes que trabalham com amarrações, feitiçarias, trabalhos de vira cabeça, separação de casais, e matar pessoas, podem até ter em seus registros, ou dizerem da boca para fora tratar-se de um terreiro de Umbanda, mas estão muito distantes do que nos trouxeram o Caboclo das Sete Encruzilhadas e Pai Zelinho, e tantas outras entidades e sacerdotes, que propõem novas visões sobre a Umbanda, assim como: Matta e Silva, Rubens Saraceni, e Carlos Buby, dentre outros, respeitando, claro, seu já citado núcleo indivisível.

Lembro-me bem de uma história que meu pai nos contava sobre um “pai de santo”, que se dizia de Umbanda (pela sua ignorância em relação a religião) que, certa manhã, conversando com ele, perguntou: 

— Mário, será que Deus perdoa a gente?

— De quê, meu amigo? — Falou meu pai.

— Das pessoas que a gente manda se jogar da ponte, se jogar no trilho do trem

Portanto, existem maus praticantes como em todas as religiões, e sendo a Umbanda uma religião tão plural, é claro que será vítima de sacerdotes e sacerdotisas desvirtuados e corrompidos pelos seus interesses egoicos. Isso faz, inevitavelmente, que a Umbanda entre em uma espécie de “farinha do mesmo saco” de tudo que parece exótico e, talvez, bizarro: sacrifício de animais, danças corporais, transes etc. 

O curioso disso tudo é que na Basílica de Pádua, existe uma imagem de ouro com nada menos que a língua atribuída a Santo Antônio, que a grosso modo é o pedaço de um corpo humano, decomposto, que as pessoas veneram. O culto católico condena a necromancia como uma prática diabólica, mas para eles cultuar um pedaço de língua é normal, porque não tem um atabaque perto?

Quem define o que é normal?

É preciso combater o medo, não alimentá-lo

Sabemos que questões tão profundamente enraizadas, sendo a Umbanda uma religião recente — em comparação às outras —, não são fáceis de serem extintas. Acabamos, sem nem mesmo percebermos, fomentando o preconceito que sofremos através de nossas próprias afirmações e posturas.

Basta olhar de perto: se não somos nós mesmos, temos um amigo que vez por outra solta afirmações como: “não mexe comigo que eu não ando só”, “quem me protege não dorme”, “quem não pode com macumba não atiça macumbeiro”. Sabemos que, na maioria dessas afirmações, no fundo, essas pessoas até poderiam ser capazes, mas não teriam sucesso em fazer mal a ninguém. Digo isso porque até mesmo para se fazer o mal, para se projetar uma demanda de fato, não é tão simples. Quem sabe mesmo o que faz não é o que grita para o mundo “cuidado comigo que eu sou macumbeiro”. Quem sabe, faz.

Podemos aqui abordar um outro contexto. Muitas vezes nos utilizamos de argumentos assim para nos livrar daquele vizinho inconveniente, daquele colega de trabalho chato que nos persegue por conta da nossa religião. Para nos poupar, fazemos exatamente o que faziam nossos ancestrais: alimentamos esse ar sinistro de quem “mexe com coisas ocultas”, como se vivêssemos em cavernas e comêssemos morcegos no café da manhã.

A exemplo, lembro-me que quando tinha uns 14 anos, havia chegado à vizinhança uma senhora fervorosa na sua religião que, todas as manhãs, saía de sua casa, varria a sua calçada cantando louvores e, depois, partia para a calçada da nossa casa varrendo e cantando louvores do tipo: “expulsa o mal”, e eu vi meu pai observar essa cena durante uns dois dias. Quando eles se cruzavam na rua, ela fazia o sinal da cruz depois de ter passado por ele.

No terceiro dia, ele encheu uma garrafa de cachaça com água da torneira e, percebendo que ela varria a porta dela, saiu, deu-lhe um bom-dia, e começou a balbuciar palavras aleatórias e derramar a “cachaça” na nossa calçada, de uma ponta a outra. A vizinha, apavorada, entrou na sua casa e nunca mais cantou seus louvores exorcistas na nossa porta. Meu pai sempre contava essa história com risos, mas com uma cara de quem se esforçava para conter-se — com a auto-reprovação de quem quer ensinar algo a partir desse exemplo — pois sabia que, no fundo, essa brincadeira alimentava o preconceito religioso.

Somos uma outra geração. O mundo não é mais o mesmo, e tudo está mudando. Quando fazemos algo assim hoje, alimentamos nossa ignorância própria. A falta de embasamento para uma argumentação resolve-se dessa maneira tosca: “não mexe comigo que eu não ando só”.

Muitos praticantes da religião se fanatizam e não buscam se aprimorar quanto representantes da mesma, corroborando para alimentar falsas impressões, perpetuar o preconceito religioso e reforçar a ideia de que ser de qualquer expressão espiritual, que não seja típica européia, é uma espécie de  pacto com o demônio.

O que precisamos é conhecer a história da nossa própria religião o suficiente para saber qual o nosso lugar no mundo. Precisamos conhecer a história do terreiro ao qual escolhemos como casa, respeitar os membros mais antigos e sermos exemplo para os médiuns mais novos. Precisamos não despertar o medo nas pessoas, mas sim mostrar a elas que as religiões afro-ameríndio- brasileiras são sim um terreno fértil de cultura, sabedoria e arte, e que Deus está nela tanto quanto em qualquer outra que tenha como princípio o amor.

Que tais afirmações estejam entre nós e nossos amigos, os quais perceberão o nosso tom de brincadeira e não de ameaça. A qualquer um que queira saber mais sobre a religião devemos acolher, esclarecer, referenciar. E se não tivermos disposição para tal, o silêncio à ameaça velada, é a melhor escolha.

Umbanda discreta sim, secreta jamais. De paz sim, de medo nunca.

No lugar de escrever: “não mexe comigo que eu não ando só”, escreva, “Deus e os guias estão sempre conosco, e é por isso que nós não andamos sozinhos.”

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

5 comentários em “Não provoque o macumbeiro!

  1. Gratidão pelo texto. Alimentar nos outros o preconceito para com a nossa religião é querer esconder um preconceito que possivelmente ainda exista em nós! Amo suas publicações, e as citações sobre o Professor Orion.

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  2. Olha que texto mais incrível! Confesso que estou com lágrimas nos olhos!
    Como sempre digo, devemos parar e refletir sobre tudo.. E, seus textos fazem isso! Gratidão ainda é pouco! Axé ❤

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  3. Muito bem abordado o assunto do preconceito, inclusive com a coragem de mostrar o outro lado da moeda. Sempre é preciso demonstrar às pessoas que a religião do outro não é “diabólica” só porque não é eurocêntrica. Além disso, fica a reflexão dos Umbandistas que têm vergonha de se autodeclararem como tal, sempre afirmando que são de outras religiões mais conhecidas.

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