O jeito errado de fazer o certo

Se existe algo responsável pela compreensão do mundo, são as perguntas que fazemos sobre ele — ou as que não fazemos. O mesmo serve para nossas vidas, o nosso desenvolvimento espiritual, as nossas metas etc., mas, para que essas questões sejam realmente úteis, é preciso transpor a simples comparação lateral (ex: preto e branco, sim e não, certo e errado) para que possamos alcançar dimensões mais profundas do nosso próprio aprendizado.

Para isso, precisamos perceber que existe uma diferença significativa entre perguntar e questionar. Quando se pergunta, visa-se investigar determinada situação e propor uma visão a fim de chegar à resolução. Questionar, em sua tradução literal, é “pôr em questão; fazer objeção a; controverter, rebater”.  Quando fazemos uma pergunta, é preciso querer aprender. Para que se questione, é preciso dominar (ou estar à altura) do assunto

Podemos, por exemplo, perguntar a uma artista sobre a sua técnica, a um escritor sobre seu modelo de escrita, a um médico sobre sua prescrição, mas, se não formos artistas, ou escritores, ou médicos, não estamos no lugar de questionar o método, porque não temos domínio equivalente sobre o assunto. Lembrem-se que não estou falando sobre o direito de questionar, mas que para isso é preciso o embasamento necessário para fazê-lo com profundidade. 

Sei que me perguntarão: “então não devo questionar as decisões de um político porque não sou um, ou por não ser um cientista político?”, e esse é exemplo claro do que citei sobre a sutil diferença entre a pergunta e o questionamento. Minha resposta dependerá unicamente do seu tom. Se for o tom da pergunta, direi que depende de onde você quer chegar. Isso porque, se você não domina o assunto, a pergunta fará você aprender, e só depois que aprender é que você pode questionar. Se você está me questionando, minha resposta é: onde você quer chegar?

— Percebem? 

Não há utilidade em questionar por questionar, sem entender ou se aprofundar minimamente no objeto que está sendo questionado. Um questionamento deve sempre agir, buscar transformar, trazer para luz do entendimento, e não simplesmente ser feito de maneira rasa e, às vezes, alheia ao compromisso da questão. Pior ainda é quando o questionamento é hostil, mesmo que velado na fala eloquente. O que acontece é que as pessoas misturam frustrações, carência (de atenção, emocional, de reconhecimento), e escondem isso por trás de uma “natureza questionadora”, que causa um entojo pela empáfia do questionador. 

O modelo do “questionador(a) por natureza” é incômodo, mas não pelos motivos que passam na cabeça desse perfil. Para eles, incomodam porque falam a verdade, levantam questões importantíssimas, que são porta-vozes das minorias tímidas, e que sua posição de destaque é a mesma do “só se atira pedra em árvore que dá fruto”. É difícil de dizer para esses perfis, dado ao ego inflado, que o incômodo causado não é a inquietação natural que fomenta a transformação e a evolução, mas sim o desconforto da violência gratuita que seus questionamentos promovem

Quem nunca passou por isso? Estar em uma palestra onde o palestrante se esforça para que a mensagem chegue para todos os níveis de compreensão presentes — sendo ele o único a dominar o assunto — e, enquanto tem pessoas que fazem perguntas que enriquecem o tema e dão margem à novas possibilidades, existem os questionadores que parecem estar alheios ao objetivo da palestra, e puxam toda a discussão para si, a fim de demonstrar seu “conhecimento”, o que faz o palestrante parar todo o raciocínio coletivo para ter que explicar a questão particular dessa pessoa.

A diferença significativa entre perguntar e questionar é que a pergunta, na maioria dos casos, vem cercada de passividade e torna-se um barro mole onde se pode moldar e cristalizar uma obra de arte; quanto ao questionamento, na maioria dos casos, vem cercado de hostilidade, e sua terra é tão seca que os grãos de areia mesmo juntos, só formarão um monte, que qualquer brisa desfaz.

Pense sobre isso.

O TOD – Transtorno Opositor-Desafiador

Crédito

Recentemente tive conhecimento de um transtorno comum em crianças e adolescentes onde, na maioria dos casos, a criação foi excessivamente permissiva. O TOD (Transtorno Opositor-Desafiador) faz com que o indivíduo que sofre dessa condição cause prejuízos sociais e conturbações nos ambientes em que se relaciona.

As práticas mais comuns por quem sofre desse transtorno, segundo especialistas, são: 

– tentativa de irritar e perturbar as pessoas próximas;

– culpar os outros por seus erros ou mau comportamento;

– rejeição dos colegas;

– impulsividade;

– desobediência contínua às figuras de autoridade, como pais, professores e coordenadores;

– desafio ou recusa em obedecer às regras e combinados estabelecidos;

– discussão com professores e colegas e busca recorrente por confrontos verbais;

– resistir a aceitar ordens;

– agressão emocional, atuando de forma opositiva ao que se espera.

Leia o texto completo neste link.

É importante ressaltar que não são todas as crianças e adolescentes, que discordam e questionam com frequência, que são portadoras do TOD. Trazendo isso para a nossa discussão, precisamos fazer uma autoanálise da nossa criança interior, e observar se ela não sofre desse transtorno. Às vezes, é ela que domina o nosso eu interior.

E como saber se sua criança interior sofre desse mal? Olhe ao seu redor!

“A pessoa que sofre desse transtorno sente a necessidade de questionar o que foi imposto pelas autoridades. Mesmo numa situação em que a lógica demonstra que é melhor concordar, esse indivíduo discorda. […] Indivíduos com esse transtorno gostam de desestabilizar o ambiente e criam situações em que sua hostilidade se torna o ponto central de discussões e desentendimentos.”

Pollyana Ribeiro

Além disso — pergunto eu —, qual o objetivo de desestabilizar por desestabilizar? Sacudir por sacudir? Provocar por provocar? Qual o objetivo do questionamento?

Se você identifica e se sente confortável com essa situação, lembro que esse transtorno tem tratamento psicológico.

Então, na dúvida, pergunte. Depois, questione.

“A razão e a sensibilidade precisam caminhar juntas, porque justiça sem misericórdia é tirania.” disse o Caboclo Urubatão da Guia quando perguntado sobre as machadinhas cruzadas no seu ponto riscado. Desde então é o que tenho buscado colocar em prática.

Naturalmente, como qualquer ser humano, somos cheios de dúvidas e questionamentos, mas saber separar as nossas inquietações para não tornar inquietações para o outro, demonstra o equilíbrio em relação a elas. Vejo como parte indivisível da nossa responsabilidade espiritual. Assim, não serão nossas dúvidas que irão nos escravizar.

Tenho notado que quanto mais colocamos nossas dúvidas em segundo plano e trazemos para o primeiro lugar as dúvidas daqueles que sabem menos que nós, logo somos agraciados com as respostas que precisamos, no tempo em que precisamos. É preciso ter maturidade espiritual para entender isso.

Às vezes, caminhamos com um cadeado nas mãos, procurando sua chave, quando ela está amarrada em um cordão no nosso próprio pescoço. Olhamos para o cadeado, olhamos para frente, caminhamos, perguntamos às pessoas que também estão com seus cadeados na mão, mas não paramos para olhar para nós mesmos e percebermos que a chave está o tempo todo ali.

Nenhum questionamento nosso vale a lágrima do outro. Nenhum questionamento nosso vale perturbar a paz do outro. Nenhum questionamento nosso vale desestabilizar o outro. Somente a pergunta certa, feita da forma certa, é que vale tudo. Dizer que para isso os fins justificam os meios não é sinal de coragem, isso é ser um zombeteiro encarnado.

Que nós possamos dar mais amor para nossas ações e buscar sempre o aprimoramento, não de técnicas, mas de como administramos nossas limitações, nossa pobreza espiritual, nossas ilusões. Que não esqueçamos que somos apenas seres humanos tentando ser felizes, cada um à sua maneira. Sempre há como ser melhor que ontem, do jeito certo (que acredito ser viver em paz com os seres ao seu redor), se você quiser.

“Reze do seu jeito, porque defeito só existe em quem se acha perfeito.”

Carlos Buby

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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