Demanda

É meia noite. Depois da encruzilhada, a rua de terra batida leva ao barracão iluminado por velas pretas e vermelhas. Os tambores tocam uma sequência lúgubre, os tabaqueiros entoam cânticos que fazem os cães latirem ferozes. Aviso que não adianta fazer o sinal da cruz, no barracão existe um outro maioral. 

O frio é aquecido por marafo. A penumbra formada pela fumaça do charuto, dos cigarros e dos incensos , mascara o cheiro de carniça. O bode berra, sabe que é chegada a hora. Em um alguidar de barro repousa uma foto dentro de um coração atravessado por pregos. 

A lâmina afiada encontra a carne macia. O sangue do animal banha todos os elementos. A cabeça, mesmo separada do corpo, continua berrando. O cães param de latir. Os tambores silenciam, só o bode berra. Está feito. Ele chegou para receber a paga e fazer seu trabalho.

Essa deve ser a imagem que vem à cabeça das pessoas quando se fala de demanda. E isso existe — em rituais ainda mais macabros —, mas a demanda pode ser muito mais sutil do que imaginamos. Inclusive, você pode estar, sem saber, demandando todos os dias contra alguém por não ter a dimensão disso. 

Já pensou na responsabilidade que você tem sobre isso?

Demanda Mental

Subestimamos o poder da mente e do magnetismo individual de cada indivíduo. A capacidade de concentração, de mentalização e projeção independem dos nossos conceitos corporais de “forte” ou “frágil” — Aliás, quando se trata de manipulação energética,  naturalmente desconfio mais dos discretos do que dos alarmados. Desconhecemos a capacidade de demandar contra alguém como se esta fosse exclusiva a um feiticeiro, a um quimbandeiro, a um “pai de santo”, como se um evangélico ou um católico, por exemplo, não pudessem realizar demandas — falarei sobre isso mais adiante.

Se analisarmos o significado da própria palavra “demanda” observamos que trata-se da manifestação de um desejo, de um pedido ou de uma exigência. Demandar contra alguém, então, é projetar uma vontade, um desejo, uma energia específica com determinado fim. 

Imagine que sempre que você pensa em alguém, inevitavelmente é direcionada para essa pessoa uma energia equivalente ao que você pensou. Então, se você lembra e fala dela com carinho, é essa a energia que é projetada pela sua mente. Caso contrário, a mesma energia da raiva, do rancor, do desprezo, também é direcionada a quem é vítima de nossas antipatias. 

Sabemos que as energias se diferenciam pela vibração. As positivadas vibram mais intensamente, promovendo o que chamamos de alto padrão vibracional. Já as mais densas, vibram de maneira equivalente, promovendo um baixo padrão vibracional. Assim, podemos afirmar que o sentimento simpático direciona uma energia que enaltece o indivíduo quando ela o encontra, porque soma ao mesmo. Já o sentimento antipático o deprecia, uma vez que consome a energia do ser em questão.

Essa energia criada se condensa em uma egrégora que não se desfaz até encontrar o seu destino. No caso das demandas mentais, a frequência com  que fazermos essas projeções e, também, a quantidade de indivíduos participantes, influencia diretamente na sua intensidade. É por isso que existem pessoas que se odeiam por uma vida inteira, porque ambos, sempre que se lembram do outro, projetam o ódio, o rancor, e isso alimenta essa egrégora aprisionadora.

Disse anteriormente que costumamos atribuir às demandas aos feiticeiros, mas quando uma mãe coloca o nome do seu filho nas intenções de uma missa, por não querer que ele realize uma viagem de trabalho que não lhe agrada, ela está demandando contra ele. Aliás, não só ela, mas todas as pessoas que estão rezando pelo seu pedido. Indiferente à forma como é feita, a egrégora se forma e vai em busca do seu destino. Essa egrégora pode então mudar o pensamento dele sobre a viagem, pode mudar os sentimento dele em relação ao emprego, ou… pode lhe causar um acidente que o deixe acamado por tempo suficiente para que ele perca o dia marcado. — Percebe?

Quanto maior é a frequência e maior a quantidade de mentes, maior é a egrégora e a força com que ela atinge o seu alvo. Vamos lembrar aqui, para não dizer que só tratei de maldades, que quando inserimos o nome de alguém numa corrente de oração intencionando pela cura, a mesma energia forma uma egrégora e se direciona para o enfermo, propiciando o acolhimento e, quem sabe, a cura — e assim para todos os casos.

Demanda de Magia Negativada

Não existe energia boa ou ruim, energia é energia. Meu primeiro Babalorixá usava como exemplo uma estação elétrica onde, a depender do operador, a energia poderia ser direcionada para iluminar uma cidade ou ligar uma cadeira elétrica. Tudo depende de quem manipula: positivá-la ou negativá-la.

O que o mago negro faz é usar elementos que alimentam a sua perversão (velas, charutos, sangue, marafo), que potencializam a corrupção moral, e que fornecem uma troca energética para que as egrégoras se formem tal qual  fossem em um coletivo, como no pequeno trecho de um ritual citado no começo desse texto. 

Assim, não são necessárias 300 pessoas em coro pensando em um objetivo, pois os elementos certos equivalem a uma força de formação de egrégora até três vezes maior. Isso sem evocar nenhuma entidade, somente o magnetismo do operador. Não irei me ater muito aqui, dada à responsabilidade que acredito ter sobre essas informações, mas na internet há muitos exemplos. Antes que deixe essa leitura para procurar, peço que fique e considere tudo que tenho a dizer sobre essas práticas.

Demanda por entidades negativadas

Engana-se quem acredita que o mundo espiritual está em paz. Neste momento, inúmeras batalhas estão sendo travadas. Assim como existem espíritos que trabalham orientando os encarnados e os desencarnados, existem os que se perderam na negatividade e se especializaram na magia negra — que trabalham com forças negativadas. 

Seus princípios de moral e ética foram corrompidos de tal maneira, que nada mais enxergam, a não ser os vales de fogo e lama dos quais fazem suas moradas e tornaram-se senhores. Atendem por nomes que impõem medo e promovem o caos. Como se recusaram ao aprimoramento espiritual, aprofundaram-se nas escalas hierárquicas inferiores, alimentando-se de raiva, de ódio e de sofrimento.

Normalmente esses espíritos não se importam com pessoas “comuns”, para estas eles direcionam seus eguns escravizados a fim de obsediar e perturbar — às vezes por pura diversão. Esses espíritos altamente negativados se ocupam de Sacerdotes, de templos de Umbanda, de Centros Espíritas, de padres, de pastores e de médiuns que trabalham para a harmonia universal. Isso porque esses médiuns, orientados pelos guias espirituais de luz, tornam-se um impedimento para que os desordeiros tomem conta de vez da humanidade.

Em um plano astutamente diabólico, investem seus esforços a fim de causarem instabilidades e encontrarem brechas onde podem entrar e destilar seu veneno. Cada vez mais se aproximam e “sujam” o médium até que ele não consiga mais se defender e, por fim, quando o obsidiado se dá conta, está depressivo, doente, ou já se tornou uma marionete dos espíritos trevosos.

Muitos médiuns enlouquecem e se desvirtuam de sua caminhada inicial por serem inexperientes, ou por não estarem vigilantes à esse tipo de ataques. É claro que não estamos falando de espíritos limitados, afinal, para enganar um sacerdote é preciso ter muita perspicácia, muita sabedoria, falácia, etc. São espíritos perigosos e por isso peço a Ogum que com sua cavalaria mantenha-os afastados a léguas e léguas de distância de todos nós. Assim seja. 

Como a demanda atua

Uma vez que a egrégora foi criada, ela não será desfeita até encontrar e concluir o seu propósito. Entretanto, todas as formas de demandas citadas neste texto dependem do alvo do infortúnio. 

Por exemplo: se o alvo da demanda é uma pessoa naturalmente desequilibrada, que não busca se aprimorar como indivíduo, que não tem nenhum tipo de espiritualidade ou de firmeza espiritual — e aqui não digo “A” ou “B”, mas toda forma de espiritualidade possível —, a egrégora encontra livre passagem. Note que as pessoas que foram vítimas de algum ritual de magia negra são, em sua maioria, pessoas que devem, de certa forma, à essa egrégora. 

Ouvi o exemplo de um médium de Umbanda que matinha um relacionamento extra conjugal com uma pessoa que também era casada. Ao saber da traição, o marido traído procurou um feiticeiro para demandar contra a agora ex-esposa e o pivô da separação. Dias depois, tanto ela quanto o médium de Umbanda sofreram efeitos devastadores.

Vocês me perguntarão: mas e os guias espirituais desse médium? Neste caso, nada puderam fazer, porque o seu médium fez por “merecer” receber essa demanda. Não defendo aqui a monogamia ou a instituição medieval do casamento, cada um se relaciona como lhe é apropriado, contanto que haja clareza em ambas as partes. A questão é que pela falta de hombridade, de lealdade e compromisso com seus companheiros ao acordo firmado entre os dois, manter uma relação extraconjugal abriu precedentes para que a vingança encontrasse meios de chegar até eles.

Percebam que tudo depende de nós, de como nós nos relacionamos com a espiritualidade. Por mais que tenhamos exus e pombagiras, se merecermos passar por determinadas demandas, iremos passar. Os guias continuarão ali nos apoiando, tentando nos levantar depois que cairmos, mas não evitarão a queda se nós tivermos, de alguma forma, tornado esta, legítima na lei de causa e efeito

Quando estamos sintonizados e harmonizados minimamente com as forças superiores, quando incorporamos os valores sagrados dos nossos guias espirituais, quando nos voltamos à prática do bem (abençoando, pacificando, iluminando, amando), quando somos justos, quando nos ocupamos com coisas boas e proveitosas, tudo isso fortalece o nosso campo magnético. As energias emanadas inevitavelmente quando alguém pensa em nós, podem até nos encontrar, mas não nos atingem em sua totalidade, porque enfraquecem à medida que são barradas pela nossa força moral.

“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca”.

Mateus 26-41

É preciso que fique claro que a ideia do “corpo fechado” não é uma sentença, mas uma circunstância. Não se tem um corpo fechado, se mantém um corpo fechado. Isso, através da oração e dos outros modos já citados. Outro aspecto relevante para alertar os que se consideram inatingíveis, é que uma vez que a egrégora encontra seu destino, se ela não puder realizar sua finalidade de imediato, ficará rondando a espera de uma brecha onde possa penetrar. 

Digamos que a egrégora esteja relacionada à fofoca, que uma pessoa possa ter pensado em você e dito: “fulano tem a língua tão maldosa, pois tomara que quando ele fale mal de alguém ele morda a língua e ela se parta!”, ao fim dessa sentença, a energia lhe será direcionada, mas quando ela chega, percebe que você não vibra na mesma sintonia dos fofoqueiros. Sem ter para onde ir, com seu “endereço” como única opção, ela fica alí rondando incansavelmente, esperando sintonizar com o padrão vibracional ao qual ela possa se encaixar.

Então você, por um lapso, com algum amigo, acaba falando mal de uma pessoa. Sua vibração baixa, sintoniza com a da egrégora e ela chega até você. Se você for preparado para perceber a mudança de energia, você corrige imediatamente e a egrégora se dissipa, e um mal estar de alguns segundos logo passa. Se você não tem esse alcance, morderá a língua. 

Por isso é importante estar atento e vigilante ao que falamos, pensamos, para que não possamos dar caminho à essas egrégoras.

Defesa contra demandas

Aqui já falei sobre como se defender da maior parte das demandas. Sei que para nós é muito difícil não dar condições para merecermos os ataques espirituais que recebemos, afinal, somos cheios de falhas. Ainda existem as questões que trazemos de vidas passadas, como inimigos cármicos…, e ainda, mesmo quando estamos firmes na caminhada, surgirão os quiumbas querendo nos derrubar. 

— E agora?

— Vigiai e orai, não há outra solução. 

Existem formas de se mandar as egrégoras de volta ao seu local de origem, mas melhor mesmo é transportá-las para um lugar onde não possam fazer mal à ser vivente nenhum, afinal, devolver abre precedentes para seu retorno, criando um ciclo sem fim de aprisionamento entre as mentes. 

Nos terreiros de Umbanda, as entidades identificam essas egrégoras e “diluem” com uma energia ainda maior da luz que elas carregam, ou descarregam com os elementos de trabalho (o fumo, as ervas, os banhos) extinguindo o mal que te obsedia. Quanto aos quiumbas e obsessores, são muitas as formas de afastá-los, mas a mais legítima ainda é o aprimoramento moral. 

Quando buscamos ser melhores, quando quebramos nossas crenças limitantes, nossos preconceitos, “saímos do radar” dessas energias densas. Eventualmente seremos atacados, porque é assim que funciona nosso “biossistema cósmico”. Constantemente somos influenciados por espíritos, por energias e egrégoras, porque faz parte do “jogo”. Só cabe a nós nos protegermos delas. 

Manter sua mente limpa e equilibrada, fortalecer seu campo magnético, combater a insegurança — sem se tornar arrogante —, manter-se vigilante, tornar suas ações mais significativas que suas palavras, tudo isso lhe ajudará a não sofrer, em sua totalidade, os impactos energéticos provocados por demandas, pois elas são inevitáveis.

E, por fim, procure não demandar contra ninguém. Sabe aquela inimizade, aquele alvo da sua fofoca, aquele seu desafeto? Liberta. Deixa ir, e ocupe sua mente com algo melhor. Assim você ajuda a pessoa deixando de demandar contra ela e não cria precedentes para que ela possa demandar contra você. Saber viver em paz e em harmonia é um grande exemplo de como manter seu corpo fechado.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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