Aos que ficaram

Esses dias, pensei sobre o que deveria escrever do meu irmão Wagner Alencar, que desencarnou no último dia 09, vítima da COVID-19. Enquanto eu administrava a tristeza e a saudade, sabia que deveria essa homenagem a uma amizade ímpar que evoluiu, ao longo de 12 anos, para uma irmandade.

Textos assim não são fáceis. Embora consciente de que a morte não existe, o luto verdugo existe. Não esperava escrever no hoje sobre ele póstumo. Wagner conheceu o Gabriel aos 16 anos e foi, sem dúvida, o maior incentivador do Nivartan. Ainda quando minha missão espiritual não se expressava através de um nome — e práticas —, nem em um caminho certo; ainda quando eu cometia meus primeiros pequenos e grandes erros, ele dizia que me via como um iluminado — diante, claro, da minha feição de desaprovação —, e que por isso me amava.

O Professor, mesmo nos bares onde mais nos encontrávamos, onde nos despíamos das nossas funções sociais de emprego, família, religião, onde éramos apenas Wagner e Gabriel, me respeitava como espiritualista antes que eu desenvolvesse o entendimento e respeito pelo que isso significava. Esteve comigo nos momentos mais delicados da minha vida, como a morte do meu pai. Esteve no meu TCC, nos meus aniversários, natais, virada de ano, quando adoeci, quando sorri e quando chorei.

Mas enquanto pensava em tudo isso, e no ser humano que conheci, de personalidade forte, gentil, educado e generoso por natureza, vi que me ater apenas à tristeza e à indignação da partida seria ver somente um lado da moeda. Estando onde estou hoje, não posso retroceder ao deixar de acreditar que tudo tem uma explicação aos olhos de Deus, mesmo que eu não entenda.

Por isso, decidi que minha forma de homenageá-lo seria escrevendo não sobre ele somente, mas em função dele e do que sua vida e morte me ensinou.

Sua vida me ensinou que há pessoas que cruzam nossos caminhos não simplesmente para se tornarem conhecidos, ou amigos por quem desenvolvemos uma afeição. São verdadeiros mestres e protetores dos nossos sonhos ainda embrionários, assim como foi um dia minha condição de escritor e minha vida dedicada à espiritualidade. Tenho certeza que Wagner e eu já somos amigos de outras encarnações, como já lhe confessei algumas vezes em vida, e olhando bem toda nossa história vejo o quão cruciais foram suas palavras, atos e silêncios nos momentos delicados da minha caminhada.

Sua morte repentina me aproximou de mim. Fez-me despedir do último homem que conhecia o que eu sou sem as vestes do tempo. Me lembrou de que sou o único representante das minhas convicções e da crença em mim mesmo. Me fez lembrar que a única testemunha destes 12 anos passados, onde conheci a fonte para qual Nivartan sempre volta para tomar água pura, sou eu.

E com isso, quero dizer a todo aquele que por ventura esteja lendo esse texto: a vida continua para nós e para ele. A nossa neste plano desafiador, a dele em outro plano do qual não lembramos hoje, mas que inevitavelmente um dia retornaremos. Direcionarei para ele, assim como todos devem fazer, a gratidão, o amor, o respeito em forma de oração. Honraremos seus cuidados e sua história cuidando de nós mesmos, e daqueles que precisarem de uma palavra amiga como o Wagner nunca negou.

Devemos, não só por ele, mas pelas milhares de pessoas comprovadamente honradas que desencarnaram neste período, vítimas da COVID-19 ou não, nossos mais sinceros votos de gratidão. Tenho certeza que eles receberão, tenho certeza que quando o Wagner despertar ficará muito feliz ao ver que só existe vida, na memória, na saudade, na gratidão.

Meu amigo, meu irmão, quando você cantava a música “Medo da Chuva” do Raul Seixas ao me ver chegar com o violão no bar, hoje eu entendo e por isso também te agradeço.

Eu perdi o meu medo da chuva.

In memoriam de Wagner Alencar

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

5 comentários em “Aos que ficaram

  1. Gabi gol assim es pra mim descrevestes tudo aquilo que a vida representa amor eterno reciproco .Obrigado Bud Spencer boa viagem ate breve do seu Terence .Gabi amo vcs amo o mundo e agradeco a todos

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  2. A vida é como uma caixinha de surpresa, ele era isso mesmo, muito respeitador é amigo, no local aonde deve estar anjos socorristas estarão lhe ajudando, rever seus entes queridos , reviver sua vida na terra, mas a maior e mais importante é a fé e amor a Deus, que a conformação de sua ida tão repentina de faça lembrar q quando nascemos já sabemos mesmo q inconsciente o dia da volta ao Pai, me emocionei muito com cada palavra, assim como Toni meu irmão amado sofremos por sua partida.

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