Controle Mediúnico

No começo do desenvolvimento da incorporação, é muito comum que o desenvolvente se valha de alguns artifícios — até mesmo de forma inconsciente — que o ajude a se entregar ao transe mediúnico.

Isso acontece devido à natural insegurança do médium iniciante que, por não ter a plena consciência de como a incorporação atua na relação íntima entre ele e a entidade que o acompanha, desconhece que não é necessário força ou potência. Isso é o que causa as sensações físicas “fora do seu controle”. Só assim, depois de várias “preparações” desnecessárias, após a liberação do transe, sente-se mais próximo do que seria estar devidamente incorporado.

Nesse estágio do desenvolvimento, podemos perfeitamente entender como naturais os possíveis excessos. Entretanto, quando esses trejeitos tornam-se hábitos de médiuns já não tão iniciantes, ou mesmo experientes, vejo alguns pontos que precisamos discutir sobre o controle mediúnico. Aqui não falarei sobre como acontece a incorporação, pois muitos já fizeram profundos estudos sobre o assunto. Eu acredito que cada médium tem um processo íntimo e extremamente particular que o faz sentir-se em uma incorporação plena.

Obs.: vale ressaltar que não me refiro à resposta física provocada no momento em que médium e entidade se ligam, ou aos trejeitos após a incorporação, esses que são conhecidos como “mutetos” ou “características próprias” de cada entidade. Tampouco me refiro aos gestos que a entidade faz para energizar os chakras ou descarregar o médium (como bater no peito, bradar, girar etc.). Falo do que antecede a incorporação, ações que estão no controle do médium.

Caras e bocas

Nos rituais de Umbanda — que no caso são os únicos que me sinto confortável em comentar —, existem pontos específicos, determinados pelo Babalorixá daquele Terreiro, que permitem que o médium de atendimento, ou passista,  se prepare e depois libere o transe mediúnico. Quem não conhece o ritual — é possível que até Médiuns da Corrente não saibam — pensa que é o ponto que faz as entidades incorporarem, e não é.

O ponto consagrado à pré-incorporação avisa aos médiuns que se preparem e concentrem para dar passagem à entidade. Somente ao ouvir o ponto consagrado na casa que autoriza a chegada das entidades através de seus cavalos, é que o médium deve liberar o seu transe mediúnico. Ainda, como acontece em algumas casas, os médiuns só estão autorizados quando a Entidade Chefe do Terreiro incorpora no seu Babalorixá. 

É aí que estão as caras e bocas.

Quando os tambores começam a tocar o ponto de pré-incorporação, ou do Orixá correspondente à linha daquela entidade, o médium responde com um franzir de testa, uma tontura, um arrepio, um entortar de boca etc., os quais em uma primeira interpretação fazem parecer que a entidade está bem próxima ao médium, “forçando a incorporação” devido a sua potência e força, e o médium tem que fazer um esforço para que ela não incorpore.

No tocante à mediunidade, parto de um ponto de vista onde trata-se de um claro descontrole mediúnico, ou falta de maturidade mediúnica, pois, nenhuma entidade que se diga de Lei, ou de luz, incorpora no médium sem a autorização do dirigente espiritual, sem que o próprio médium permita, ou sem que haja necessidade de um trabalho plausível a ser realizado, em um ambiente devidamente preparado e controlado.

Quando vemos um médium se contorcendo todo antes da incorporação, isso reforça duas principais mistificações que precisamos combater com esclarecimento

1 – Que mediunidade é provação. 

2 – Que a incorporação é um processo 100% isento da matéria, impossível de controlar pelo médium. 

Mediunidade e provação

Acreditar que a mediunidade é uma espécie de prova dada por Deus para que possamos pagar nossos pecados, é acreditar em um Deus sádico e vingativo. A mediunidade é uma ferramenta pela qual podemos ajudar e sermos ajudados, pela  qual podemos ouvir a sabedoria daqueles que há muito tempo se dedicam, também, à evolução moral e espiritual da nossa condição de encarnados.

Com a exceção de casos onde a mediunidade está fora do controle do médium, expondo-o aos joguetes de entidades de baixo padrão vibracional, nenhuma mediunidade causa dor, ou sofrimento antes, durante e depois.

Isso não quer dizer que para médiuns videntes, por exemplo, seja fácil lidar com a perturbação causada por visões espontâneas de espíritos, ou, em casos de empatas, que não sintam os baques das oscilações energéticas ao seu redor. Todavia, quando há o empenho do médium de conhecer, trabalhar e controlar, esses efeitos são amenizados. Além de um exercício constante para fortalecer o campo mental e o campo magnético pessoal, existem os preparos com ervas e amuletos, talismãs, patuás, rezas etc. que ajudam o médium a se manter menos suscetível e mais equilibrado.

Obs.: aliás, depois que a internet descobriu os “empatas”, é comum as pessoas usarem para justificar suas fragilidades emocionais. Lembro, ao ver esse fenômeno dos “empatas” diagnosticados pela internet, de pessoas que diziam-se sofridas pois tudo as afetiva involuntariamente dada a essa condição. Para esses, lembro da seguinte afirmação:

“— Um dia você perceberá que todo o universo pode ser encontrado dentro de você, e nesse dia você será um mago. O mago não vive no mundo; o mundo vive nele.”

Deepak Chopra

Incorporação: um processo independente da matéria?

Apesar de reconhecer a existência, sou reticente em relação às incorporações onde o médium apaga completamente. Eu vejo constantemente esse discurso sendo usado por uma necessidade do médium de afirmar sua incorporação como verdadeira, incapaz de ser influenciada por ele mesmo. Se a presença de consciência do médium invalida a mediunidade, deveríamos então dar nosso descrédito aos médiuns psicógrafos intuitivos, que em nenhum momento perdem a consciência durante a psicografia e mesmo assim transmitem mensagens de seres desencarnados? 

Durante o transe, a mente consciente está presente, mas em um estado mental diferente do habitual. Esse estado, inclusive, pode ser induzido sem a incorporação, mas desaconselho à prática por mera curiosidade. O médium, em muitos momentos estando incorporado, pode ver, ouvir, sentir, tal como se estivesse desincorporado. O que vai qualificar é o nível de comprometimento do médium para com a própria mediunidade (concentração, entrega, respeito etc.). 

Um médium que trabalha para ser exemplar, busca entregar-se à entidade, ouvindo mais o que ela tem a dizer do que pensando no que ela está dizendo. Se existe um apagão, ele é consentido. O médium se entrega e deixa que a entidade tome a frente nas palavras, ações, falas, gestos, e tão logo que perceba qualquer interferência sua, volta-se para o centro da entrega que é estar em comunhão com seu Guia. Ao desincorporar, o médium lembra de flashes como quando acordamos e tentamos lembrar de um sonho não nítido.

Quando não há essa entrega voluntária, vemos o animismo nas incorporações. Entidades falando absurdos, se envolvendo em assuntos menores, etc. E isso é mais comum do que se possa imaginar. Por isso, cabe ao médium controlar seus desejos, seus julgamentos e o desnecessário interesse na vida do consulente, durante a incorporação, para que a entidade seja ela própria através dele.

Então, não fique confuso se no seu começo vier aquela famosa dúvida “sou eu ou é o Guia?”, porque a resposta para ela é simples: se essa dúvida estiver presente, você estará presente. Quando você confiar em si, trabalhar o seu controle mediúnico e acreditar no trabalho que sua entidade tem a desenvolver com e através de você, aí será seu Guia. Você verá os feitos na vida de cada um que por ela passar, e o testemunho dessas pessoas comprovará a fidedignidade da sua incorporação. 

“Ninguém vem até a mim que eu não acolha o pranto, e que não saia com um sorriso de esperança.”

Caboclo Urubatão da Guia

Mais um pouco sobre incorporação 100% inconsciente

Eu acredito que é preciso perceber que estamos lidando com outro tipo de médiuns, incluindo os de incorporação. Os médiuns hoje não são mais de natureza simples, de pouco acesso à informação, como eram os primeiros médiuns de Umbanda por exemplo, muito menos os assistentes.

No começo da Umbanda, entidades andavam, incorporadas em seus médiuns, sob cacos de vidro sem cortá-lo, caminhavam sobre brasas, perfuravam o braço do médium com agulhas para comprovar que o mesmo não sangraria e nem sentiria dor, passavam a chama da vela no corpo sem queimar, desafiando o fogo… tudo para provar que ali era o espírito, algo sobrenatural e não natural. Eu entendo a importância desses movimentos para a época, mas hoje julgo desnecessário tais fenômenos.

Fazemos parte de uma geração amplamente informatizada, que será ainda mais no futuro. Em um mundo globalizado, isso amplia a consciência do que é o “aqui” e “agora”, a consciência do corpo, da mediunidade, da espiritualidade etc. Mesmo que em muitos casos os ditos sacerdotes pops na internet promovam um desserviço, basta uma pesquisa para saber “tudo” o que antes era preciso 21 dias recluso e uma vida dedicada ao sacerdócio para ser conhecedor do Sagrado.

Não se pode encaixar novas massas em velhos moldes, pois a nossa natureza é dinâmica. Há muito mais a se conhecer, mediunidades incríveis a serem descobertas e exploradas.

Conclusão

A mediunidade requer compromisso do médium em conhecê-la e trabalhá-la para o seu objetivo principal: ajudar aos que sofrem.

Como uma ambulância ajudaria no transporte de um enfermo se ela fosse instável e incontrolável? Você confiaria a sua vida à esse transporte, se percebesse isso? O mesmo serve para a mediunidade. E quanto mais o médium se desprende do misticismo, das alegorias e compreende o que acontece entre ele e os Guias que o acompanham, mais genuínos são os resultados na vida dos encarnados ou desencarnados.

Precisamos entender que não existe um mundo paranormal, ou seja, tudo está dentro da normalidade. Quando admitimos a espiritualidade nas nossas vidas, menos nos vemos reféns desses caprichos que mais buscam fidelizar seguidores e fazer o médium acreditar que está incorporado do que o comprometimento com a missão espiritual.

Há muito do seu guia em você e muito de você no seu guia, você já parou para pensar nisso? 

Nossa responsabilidade espiritual vai muito além do que achamos que podemos ir, e começa exatamente onde estamos neste momento.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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