Tarot

Há algum tempo penso em escrever sobre o Tarot, essa magnífica ferramenta que nos possibilita não somente a comunicação entre o plano material e imaterial da existência, como também provoca a expansão da consciência para aquele que consulta seus arquétipos. 

Pensei — assim como muitos de vocês sobre esse texto quando se depararam com o título — em trazer sua história, iconografia, modelos de baralhos, significados dos Arcanos e possíveis métodos. Porém, basta uma busca na internet para que essas dúvidas sejam amplamente esclarecidas. Venho, como em quase todo conteúdo do meu blog, dar a minha perspectiva sobre o Oráculo a você que dedica um pouco do seu tempo à leitura dos meus textos e ao estudo do Esoterismo.

Tarot ou Rota


O Tarot, tradicionalmente, é um jogo que reúne 78 cartas que podem ser divididas entre os Arcanos Menores (Naipes de Espadas, Copas, Ouros e Paus) e os Arcanos Maiores (do 0 – O Louco ao 21 – O Mundo). Os Arcanos Menores trazem em sua essência uma visão horizontal da consulta, das coisas humanas, visto que é fundamentado nos quatro principais elementos da matéria: Fogo – Paus,Terra – Ouros, Água – Copas, Ar – Espadas. Os Arcanos Maiores, por sua vez, essencialmente buscam a comunicação vertical, ou seja, lidam com os aspectos diretamente relacionados à expansão da consciência.

O Oráculo possibilita escolher onde se aprofundar, se somente nos Arcanos Menores ou somente nos Maiores, embora muitos acreditem que dominar o jogo com as 78 cartas seja o ideal para uma visão completa. Eu acredito que cabe ao oraculista escolher, com base na sua afinidade, em quais Arcanos se aprofundar, e isso vai depender de inúmeros aspectos que formam o oraculista. Apesar de conhecer as 78 cartas, me aprofundei no estudo dos Arcanos Maiores por afinidade e por ser esse o método utilizado pelo meu mentor.

Na tradição do Terreiro onde fui iniciado, a Seara de Oxalá – Casa de Xangô, sob a direção do Babalorixá Pai Orion de Xangô, o Professor Orion, que praticava a Umbanda Esotérica, um bom oraculista era formado com base em uma profunda reflexão em cima de cada Arcano, assim como um rito de iniciação. Nos seus fundamentos, a leitura correta exigia estudo e prática supervisionada por um oraculista experiente, como discípulo e Mestre, até que o neófito se sentisse seguro para consultar sozinho.

Hoje, 13 anos após a minha iniciação, compreendo o privilégio que foi ter como mentor um oraculista renomado, com mais de 30 anos de experiência. Entendo e tenho um profundo respeito pelos motivos que o levaram a crer em seus fundamentos, mas com o tempo decorrido, considero a iniciação no Tarot opcional, uma vez que a relação criada entre o Tarot e o oraculista transcende a religiosidade ou um mestre físico. Muitos conhecem o tarot de forma aleatória e com base no próprio desenvolvimento de si ao lado das cartas, torna-se excelente em sua leitura. O Tarot é o amigo dos Grandes Magistas, das Grandes Bruxas, não pertence às religiões, e por isso é um oráculo tão eficaz.

O Tarot e a Adivinhação

O Tarot é, em uma linguagem esotérica, um conjunto de símbolos que possibilitam ao oraculista, dentro do contexto consultado, refletir, investigar, sentir e, por fim, interpretar a mensagem correta revelada pelo Arcano. Durante uma consulta, as inúmeras energias que circulam o Oráculo, o oraculista e o consulente, são captadas pelo Tarot a fim de que o Arcano puxado do baralho seja exatamente aquele que inspira e conduz à elucidação das questões.

Devemos lembrar que existem, também, espíritos que são Guardiões ou Regentes da magia e suas práticas. Por isso, é possível que para cada Oraculista, durante sua dedicação ao estudo e prática do Tarot, sendo comprovada sua habilidade mediúnica, aproxime-se por afinidade um mentor do mundo espiritual disposto a ajudar na leitura e na compreensão do Tarot. 

Portanto, o Tarot não é um jogo de acaso, onde cada carta traz um significado genérico que pode ser aplicado em qualquer circunstância da pergunta, mas uma chave para abrir as portas do inconsciente, transpondo às limitações da racionalidade humana. Crer que seu uso aplica-se unicamente à adivinhação é defender uma visão limitada. Usá-lo para a adivinhação é profaná-lo.

É por isso leitor, que divido seus praticantes entre Tarólogos, Cartomante e Adivinhos, e Oraculistas.

Tarólogo

O tarólogo — ou Taróloga —, simplesmente é aquele que consulta o Tarot. Sabe seu significado com base na ampla literatura literária disponível. Conhece cada arcano como quem decora páginas de um livro de poemas. Portanto, toda vez que o Arcano 12, O Pendurado, sai na jogada, ele sabe que representa sacrifícios. E assim se conduz o seu jogo com respostas simplesmente reproduzidas.

Cartomante ou Adivinho

Esse, ao meu ver, é o tipo mais comum e prejudicial para imagem do Tarot, porque perpetua ao vulgo a ideia de que trata-se de uma farsa para extorquir dinheiro de pessoas fragilizadas ou emocionalmente abaladas. Uma simples leitura do tipo de consulente (se chega em um carro do ano, que tipo de roupa veste, se é uma mulher bonita, se é um homem com aliança) define a leitura que será realizada.

Tem em seu repertório perguntas vagas, como: 

— “Eu vejo aqui que você está desestabilizado/a”. 

Ora, se a pessoa procurou uma/um cartomante, em grande parte dos casos algo não está bem, concorda? 

Outra frase comum é: 

— “Vejo conflitos familiares”. 

Mais uma vez pergunto: quem vive em plena harmonia com seus familiares? Quem, em tempo integral, não se aborrece com o convívio tão estreito como é em família?

Com perguntas assim, esses charlatões induzem o consulente a acreditar na leitura, que é infinitamente rasa e criminosa.

Outra falácia comum é: 

— “Essa informação pode servir para o passado, para o presente ou para o seu futuro”.

Então, nesse exemplo, para quê serve a consulta? Procura-se um oraculista porque se quer ouvir o que o Tarot tem a dizer. Não é o consulente quem deve encaixar a leitura das cartas à própria vida, seja em qual momento for. 

Desta forma, consultas e trabalhos cada vez mais caros são recomendados para sanar o problema apresentado pelo adivinho. Por fim, o consulente lesado, após a realização dos trabalhos, sai muito satisfeito achando que sua vida melhorou, quando na verdade ela nunca esteve ruim. A/o cartomante resolveu um problema que nunca existiu, por isso ela/ele é tão bom. 

São casos assim que me tornam resistente a novos baralhos que trazem, na minha concepção, símbolos e significados rasos. Em um deles, que tive acesso recentemente, vi um “arcano” chamado “A chave”. Sua explicação óbvia se encaixa em qualquer circunstância: “é preciso encontrar a chave que destranca essa fechadura / Você tem a chave para destrancar a fechadura”. 

Vamos à prática:

Consulente: — “Minha vida não tá indo pra frente. Tudo que eu tento não tenho sucesso. 

Pode ver no “tarot” o que pode ser?”

Cartomante: — Olha, A Chave diz que sim, está trancado, mas você tem a chave para destrancar a fechadura.

Consulente: — Mas eu já tentei de tudo!

Cartomante: — Nós podemos realizar um trabalho simples, eu não cobro caro, porque pelo que vejo aqui, o quanto antes é preciso encontrar a chave que destranca essa fechadura.

Ou seja, se você tivesse lido essa interpretação em um biscoito da sorte, ainda teria mais proveito, já que apreciaria o saboroso biscoito.

Para aqueles que acreditam que o Tarot prevê o futuro, sinto muito dizer que ele não o faz. O futuro pertence a uma malha de infinitos caminhos, é impossível prever. O que se pode, claro, é sondar as pistas dessa malha e buscar ler o que o Arcano diz a respeito do futuro, são situações diferentes. Isso abordarei em outro texto.

Oraculista

O/a oraculista é aquele que acima de tudo respeita seus princípios internos, o Tarot e seu consulente. É quem compreende que o consulente muitas vezes está fragilizado e que nele vê a possibilidade de uma ajuda, de uma orientação, e que por isso não espera ser molestado. 

É quem sabe que o Tarot é infinito em suas leituras e que por isso pode se apresentar de inúmeras formas dentro da consulta, mas seu método, embasado em amplo estudo e na sensibilidade mediúnica, o faz responder as perguntas com base no que o Tarot diz, independente se a mensagem faz sentido ou não naquele momento, já que não há o compromisso de agradar, converter, manipular ou fidelizar clientela.

O/a Oraculista fala com as cartas, não é ele quem conduz a conversa. É o Tarot, o tempo todo. A habilidade do oraculista conduz ao esclarecimento, não ao aprisionamento do medo. Ninguém consulta um oráculo para ficar mais confuso do que antes de consultá-lo.

O oraculista é alguém comprometido com uma leitura clara e objetiva. Conhece que o Arcano 12, O Pendurado, simboliza possivelmente sofrimento, mas sabe orientar e dizer que há no número 12 um Arcano oculto, proveniente da soma 1+2, que é o 3, A Imperatriz. Com isso, lembra que a mulher sofre dores terríveis no parto para gerar a luz do sorriso de uma criança. Portanto, o sofrimento é passageiro se visto sobre novas perspectivas, e um amanhã virá certamente cheio de ternura em caminhos férteis. 

Por fim, o Oráculo faz o Sacerdócio do/da oraculista quando ele zela por seus fundamentos.

Todos podem ler o Tarot?

Hoje, pergunto-me o que seria de mim sem o Tarot no momento de transição entre a morte do meu primeiro Babalorixá até o Templo Guaracy. Foi justamente nesse período, onde me encontrava extremamente desestabilizado emocionalmente e impossibilitado — dada a minha fragilidade — à comunicação clara com meus Guias Espirituais, que me aprofundei no uso do Tarot para autoconhecimento. Antes de tudo, o Tarot foi meu Guia e a ele peço benção.

Nas cartas, nunca adivinhei nada do que viria. À época, muitas vezes saiu nas leituras o Arcano 9 – O Eremita, arcano também regente do ano de 2016 (2 + 0 + 1 + 6 = 9). Refletindo sobre todas as vezes que o Eremita me visitava, percebi que aquele ano seria de encerramento de muitos ciclos (fim de um namoro, a morte do meu pai e Pai de Santo, a demissão no trabalho, o encerramento da Seara de Oxalá etc… tudo aconteceu em 2016, o ano 9), que seria preciso cobrir-me com o manto do Eremita, apoiar-me no cajado da fé e seguir com a lanterna iluminando meus pequenos passos em meio à escuridão. Só assim, ao se encerrar esses ciclos, novos caminhos puderam ser trilhados por mim.

Como dito anteriormente, a leitura requer interesse, estudo, prática e quem conseguir fazer com amor certamente será um/uma grande oraculista. Cabe aos seus interesses dizer como o Tarot se revelará para você. Isso porque se você é uma pessoa voluntariamente limitada, a abertura do Tarot também será limitada aos seus interesses. Assim nascem os/as adivinhos.

Entretanto, se você se compromete com a espiritualidade, entende o Tarot como uma poderosa ferramenta de auxílio a sua caminhada espiritual, usa-o para questões transcendentais resistindo a tentação de perguntar sobre suas paixões terrenas, zela por ela filtrando seu uso para novas possibilidades, digo a você: assim nasce um/uma oraculista.

Indico fortemente o estudo do Tarot e o que ele tem a oferecer. Uma grande amizade pode se formar entre você e os 22 caminhos do destino, e quem sabe você não possa ajudar também alguém em um futuro breve?

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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