Mirror

Sempre fui o tipo de pessoa que acredita que para observar melhor alguma questão de si, é preciso se distanciar dela. Por exemplo, se algum problema me parecia grande demais ou difícil demais para ser enfrentado, eu simplesmente me distanciava, abstraía e conseguia resolver com o tempo que acreditava ser hábil para a questão. Não desconsidero essa maneira de lidar com as coisas, aliás, tenho percebido que a vida se torna mais leve para quem contorna os problemas com criatividade, otimismo e, claro, fé.

Mas como tudo na vida, por sermos indivíduos únicos protagonistas de nossas próprias histórias, não existem formas prontas de se precaver à criatividade do universo quando decide nos testar. E nem sempre, mesmo que queiramos, temos o controle que nos permite sair de nossas próprias problemáticas e observar-nos de fora. Então, mudei a estratégia: mergulhei dentro de mim.

Pode parecer, e talvez seja, o clichê do “conhece-te a ti mesmo”, mas se déssemos a importância que essa afirmação merece, sofreríamos menos com as oscilações que a vida horizontal nos oferece de forma abundante. Se formos críticos, perceberemos que o universo não nos testa, mas nós nos provamos à medida que domamos um leão de cada vez.

Acontece que, na maioria dos casos, quem lida com o problema como se esse acontecesse em um corpo estranho, vivente de uma realidade distante da real, torna-se uma marionete da forte alienação do próprio ego que o arrasta para a zona de conforto, e constrói toda a narrativa com desculpas e não talvez assumindo, curando e libertando.

Em um exemplo claro, quando algum ponto que atinge o nosso ego é apontado e sentimos — porque o ego sempre sente —, nos distanciamos com afirmações que justificam nossos pensamentos, palavras e ações: “isso é inveja”, “essa é a minha personalidade”, “não se atira pedra em árvore que não dá fruto”, “prego que se sobressai sempre leva martelada”.

Não que essas afirmações dentro de outros contextos estejam erradas, mas neste específico é uma clara artimanha do ego para preservar a nossa zona de conforto. Como afirma a escritora e jornalista Jout Jout, “Bateu, doeu, pega que é teu”. Então, por que não refletir e quem sabe assumir uma parcela, ou a total responsabilidade neste julgamento? 

Se digo que você é frágil, por exemplo, por que não entender o que te torna frágil sobre a minha perspectiva, observar-se com clareza dentro desse contexto e ter certeza que essa questão é apenas minha opinião ou, de fato, a realidade? Análogo à feitiçaria — para não dizer que não falei de macumba neste texto, rs —, os feiticeiros costumam usar técnicas que ocultam o trabalho realizado, e até mesmo a própria identidade do mesmo. Sabe por quê? Porque uma vez que se sabe qual trabalho foi feito e quem o fez, pode-se desfazer com facilidade. 

Da mesma forma, quando conhecemos a fundo nossos defeitos e qualidades, quando internalizamos de maneira saudável as críticas que recebemos, ou situações que somos colocados mesmo que contra nossa vontade, o caminho se abre mais rápido para ser resolvido. Uma vez que se conhece o monstro que atormenta você, mais rápido será possível curá-lo e transformá-lo em um aliado.

Distanciar-se é mais fácil porque podemos dar exatamente o peso que achamos devido à mão que nos pune, mergulhar em si é mais difícil porque sentimos o justo peso possível do açoite. Se distanciar é estar na ilusão do controle. Mergulhar em si é guiar por uns instantes sem as mãos. Se distanciar de si para se observar é dizer: ele é. Mergulhar em si é dizer: eu sou.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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