A Grande Obra

Acredito que desde que a raça humana inaugurou o modo racional de pensar em si e no mundo ao seu redor, surgiu com esse momento sublime uma das grandes inquietações do ser humano consciente: por que eu estou aqui?

Nossos parentes primitivos modernos, como o homo sapiens sapiens (o homem que sabe que sabe), jamais puderam imaginar que a partir dali herdaríamos questionamentos ainda mais profundos e que ficarão sem respostas para muitos.

À medida que fomos evoluindo, chegamos ao ponto onde pensar sobre uma missão de vida, a razão para uma existência, pode tornar-se um exercício frustrante. Afinal, o que é de fato que norteia, define ou quem avalia se levamos uma vida de verdade ou não?

Diante disso, diremos a nós que somos nossos próprios mestres, mas ao colocar a cabeça no travesseiro à noite, no centro profundo do nosso subconsciente, perguntamos do Eu para o Eu: “será que sou mesmo?”

Durante a busca, batemos em várias portas, indo e voltando por vários caminhos, esperando que algo aconteça. É como se precisássemos dominar alguma técnica secreta perdida em manuscritos de uma civilização antiga, ou de um divisor de águas que mudasse tudo de uma hora para outra. Ansiamos o momento de dizermos aliviados: “Agora eu sei o que sou.”

Não são incomuns — quando nos vemos presos ao looping incessante de pensamentos relacionados ao propósito de vida — as crises de ansiedade, angústia, raiva e até depressão. E quando não falamos de espiritualidade, estamos pensando assim do nosso emprego, da nossa família, da comida que comemos, da política que fazemos, e aí já se vai uma longa lista manchada de suor e lágrimas que a qualquer momento pode nos estrangular.

Com essa questão latente, pensei no que dava aos grandes homens e mulheres como Chico Xavier, Sidarta Gautama, Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, e tantos outros(as) mestres da ciência, da arte, da filosofia etc., o título de mestres. Pensei não somente em como suas existências contribuíram com o mundo de hoje, mas como eles realizaram as suas Grandes Obras. E, então, lendo-os e conhecendo suas histórias, sinto-me capaz de traçar um caminho coerente que não visa responder, e sim dar mais sentido à inquietação: “por que eu estou aqui?”.

Não é meu intuito fazer comparações rasas a ponto de: “jamais serei igual a eles” ou “quero ser igual a eles” por exemplo, mas podemos nos espelhar nas suas histórias e colocá-las em prática nas nossas vidas com as ferramentas que temos. Entender que a Grande Obra a qual ansiamos, já está sendo realizada e acontece a cada dia que você vive a sua vida.

Esse caminho começa no momento presente. Olhamos para o futuro com tanta vontade, ludibriados pela ótica dos sonhos, que criamos um hiato entre o hoje e o que queremos amanhã. E na pressa de chegar, saboreamos o amargor do tempo e das oscilações naturais da vida. Existe um caminho longo entre querer ser e ser.

Nossa percepção de trabalho x realização encontra-se tão distorcida, que falamos hoje desses homens e mulheres como se tivessem nascidos prontos e não como quem dedicou uma vida inteira ao que acreditavam ser o certo, mesmo que não tomassem consciência da notoriedade histórica que alcançariam. 

Muitas vezes, fazemos o pensamento inverso: nos vemos como grandes mestres em potencial, mas não nos comportamos como grandes mestres hoje. Queremos ser reconhecidos, lembrados e seguidos por nossas boas escolhas sem fazemos nossas boas escolhas diárias, que vão desde a forma como desejamos um simples “bom dia” — se é verdadeiro ou se é no “modo automático” — às decisões que tomamos quando o que está em jogo é o nosso caráter.

Não percebemos que a grande realização das nossas vidas acontece neste instante, eu e você aqui, conversando, fazendo nossa história. A Grande Obra está a acontecer nesse minuto em que seu coração bate, em que seus pensamentos fervilham em busca de realização. Você nasceu como todos, mas o que te diferencia de todos é exatamente o que você faz no seu momento presente.

Portanto, precisamos — com prudência, claro — parar de desejar o futuro que ainda não nos pertence e que é incerto. Parar de consultar demasiadamente os oráculos, os nossos guias, e pedir —  no lugar de respostas — a habilidade para entender as mensagens que constantemente nos são dadas e ignoradas pela nossa falta de maturidade espiritual. 

O que deve nos interessar neste momento é realizar todos os dias a nossa Grande Obra de Vida, garantindo que as sementes sejam plantadas com toda dedicação e, principalmente, amor.

O poder dos grandes mestres está na capacidade de realização das suas convicções, quando feitas de maneira prudente, justa e sem a intenção de prejudicar o que consideramos o outro. Está na fé absoluta no amor e nos valores que nos engrandecem enquanto seres humanos. Está em trabalhar todos os dias sem dar ouvidos ao pessimismo próprio e o externo. Está em ser aqui, agora, verdadeiramente, seu próprio mestre.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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