Contos


A joia do céu

Caminhava com a mochila pesada de velhos amigos. Centenas de páginas sobre uma ciência tão antiga quanto a humanidade, tempos em que buscava-se nas salamandras do fogo, nos gnomos da terra, nas ondinas na água e nos silfos do ar os caracteres ocultos do Grande Arcano. Princípios que sabiam, queriam e ousavam práticas cujas revelaçõesContinuar lendo “A joia do céu”

Meu nome é Helena

Lá está ele, sozinho na mesa do bar. A mesma mesa, a mesma cadeira, a mesma posição. Nunca deixando o copo esvaziar como se relacionasse este ato involuntário ao seu medo subconsciente: o vazio. Dizem ser a mais pesada e bela cruz dos líricos poetas. Anotava ideias com aquela invenção do húngaro László Bíró, 84Continuar lendo “Meu nome é Helena”

O bicho

O fim do verão levava consigo a seca e tudo estava tão vivo como há muito não se via. O cheiro de mato, agora úmido, saía de cada raiz, folha e fruto. O canto dos grilos, dos pássaros e o barulho das folhas se movendo ao rastejar algum pequeno habitante dali soava confortável como emContinuar lendo “O bicho”

Ode ao prospecto amor genuíno

Sinceramente, não tenho a intenção de entregar-lhe meu coração e muito menos pedir o teu. Não desejo de nós essa entrega egoísta porque sei que não cuido de nada que possuo, como ninguém realmente cuida. O que possuímos torna-se usual e eu não quero (ab)usar de nós. Na verdade, o que mais quero é queContinuar lendo “Ode ao prospecto amor genuíno”

O primeiro dia de toda minha vida

Vi aproximar-se um cruzeiro de madeira, iluminado por luzes azuis, brancas e amarelas, preso à proa de um barco que navegava no mar agitado, contornando as ondas que batiam violentamente no casco. Tudo era a noite envolta em uma neblina que não me permitia ver além daquela luz radiante que emanava do cruzeiro. Havia comigoContinuar lendo “O primeiro dia de toda minha vida”

José Bonifácio, o louco

Na ponta do Mucuripe, as jangadas repousavam ancoradas no mar e outras estavam em terra. Entre elas, os pescadores realizavam sua festa costumeira: cachaça prata entre uma garfada e outra do peixe pescado há pouco, saboroso, assado na brasa, azedinho do limão, samba de lata e caixinha de fósforos. Homens barbados, sem blusa, cheirando aContinuar lendo “José Bonifácio, o louco”

Dona Moça

Arlindo deveria esperar um pouco, mas partiu antes do tempo estimado. Dona Moça balançava a cabeça em frente ao espelho como sinal de reprovação. — Ah, esse Arlindo! Sempre o apressadinho! — Disse, enquanto procurava seu batom vermelho na gaveta da penteadeira. Lembrou que era desse que ele gostava quando saíam com os amigos paraContinuar lendo “Dona Moça”

Mojubá

Pouco mais das onze da noite, a lua grandiosa ocupava quase todo o céu, iluminando as cadeiras e a mesa onde ele estava com sua namorada e um casal de amigos. Bebia o segundo litro de cana que compraram naquela noite, já que fatalmente o primeiro escorregou de seus braços e se encontrou com aContinuar lendo “Mojubá”

Privado

“Onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?!” — se perguntou naquela manhã do dia 15 de outubro. Ficou por alguns segundos pensando enquanto escrevia no quadro. Nas primeiras cadeiras, alguns poucos alunos copiavam avidamente o que era escrito por ele, mas a maioria, para seu desânimo, conversava em voz alta aoContinuar lendo “Privado”

Foi o quando ele me falou

Devido à rotina, virou costume chegar tarde a casa. Dirigiu-se à estante de mármore e pegou um uísque 12 anos — seu ano favorito. Desconsiderava o fato de ter sido diagnosticado socialmente como hipocondríaco. — Não é verdade. — Pensou enquanto tomava seu décimo comprimido de Benflogim e se servia com uma dose, embalado aoContinuar lendo “Foi o quando ele me falou”

A reflexão da despedida

Repetia em sua mente as palavras de Charles Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.”, e andando vagarosamente, previsto que seu tempo acabou, mudou seuContinuar lendo “A reflexão da despedida”

Terminal

“Bom dia pessoal, desculpe atrapalhar o silêncio da viagem de vocês. Eu me encontro-me aqui, vendeno caramelos de todo sabor. Tem de maçã verde, de uva e iorgute. Eu tô aqui porque preciso ajudar minha família, então peço a colaboração de vocês, boa viagem e fiquem com Deus!” As mãos encardidas seguravam a caixinha comContinuar lendo “Terminal”

MyWorld

Sentou-se em sua poltrona de couro próximo à janela e ordenou com um gesto do dedo que ela reclinasse. Acomodou-se enquanto ela iniciava um vibrar leve, relaxando a musculatura das costas que não estavam cansadas, nem tensas, mas adorava a vibração que seguia da lombar à nuca. De fato, não faziam mais poltronas daquela forma.Continuar lendo “MyWorld”

Os vagões da linha 777

Quando deu por si, estava de pé em uma estação de trem. Seu corpo estava dormente, mas ainda era possível senti-lo. Percebeu que estava ao lado de pessoas de todos os tipos com aquele estranho espectro esbranquiçado que emana a alma humana. Sabia disso porque pôde notar outras vezes quando teve contato com alguns parentesContinuar lendo “Os vagões da linha 777”