Escrevi em prosa porque tenho pouco a dizer

Quando eu era pequeno tive uma namoradinha, Elisabete, era como se chamava. Eu não lembro se quando a pedi em namoro tinha rosas, se foi em algum lugar especial da escola ou se disse algo bonito, ou se, de fato, alguém fez um pedido oficial, mas eu lembro da mãe dela dizendo: “eles são tãoContinuar lendo “Escrevi em prosa porque tenho pouco a dizer”

O cadáver da casa nº260

— Você falou que quando chegou ele já estava assim? — Isso, próximo ao sofá. — Como? — O cadáver estava em decúbito dorsal, com os braços estendidos, olhos fechados e a boca aberta como quem deu um último brado na luta contra a morte, fora derrotado. — Sim… fazia tempo que ele vinha fraco,Continuar lendo “O cadáver da casa nº260”

Onde está você?

Tenho entalado no peito centenas de “eu te amo” para te dizer de, pelo menos, cem formas diferentes. Pouco importa se eu não disse ainda afirmações mais simples como: “eu gosto de você”, ou “eu estou feliz com você”, mas eu sei que o “eu te amo”, na forma como existe aqui em mim, entregaContinuar lendo “Onde está você?”

O que quero de nós

Quero te ver e dividir o meu sorriso, a piada mais tola que decorei só para te contar. Depois, prestar socorro da tua própria risada estardalhada, oferecer-te um copo d’agua para você se recompor e voltar a falar. Sentados nas almofadas da sala, tocar e cantar os meus clássicos repetidos e no erro da passagemContinuar lendo “O que quero de nós”

A entropia do ser

Sentiu o calor da forja amolecendo tudo aquilo que sempre tomou como verdade. A agitação das moléculas incandescentes já não mais reagia ao açoite. Era fogo por todos os lados, o calor, o confinamento, o estalar dos ossos e a tensão fazendo ranger os dentes. Frágil, ansioso e incrédulo, desabafando com as árvores, chorando lágrimasContinuar lendo “A entropia do ser”

A rua do fogo

Por toda cidade, as tradicionais banquinhas de comidas típicas estavam sendo montadas e as quadrilhas ajustavam os últimos detalhes nos ensaios. O rádio anunciava, entre um intervalo e outro das marchinhas de Luiz Gonzaga, a programação. Os carros de som rodavam sem parar e as pessoas corriam para o Centro da cidade comprar seus chapéusContinuar lendo “A rua do fogo”

O sarau que sarou o ego

Havia uma luz azul projetada em direção ao microfone e ao banquinho que receberia os escritores, músicos e poetas. Nas paredes, barbantes penduravam fotografias, vinis e frases aleatórias impressas em papeis recortados, dançando a mercê do vento. Em um banquinho próprio repousava uma Olivetti Studio 45, que fechava sutilmente o toque vintage daquela noite deContinuar lendo “O sarau que sarou o ego”

Cada gota que caía

Ouviu o barulho familiar das gotas de chuva ricocheteando nas telhas de amianto. Olhou pelo portão e viu a terra ficar escura, exalando aquele mormaço que hoje, na fase adulta, trazia a possibilidade de uma gripe. Mas essa, diferentemente das outras, chegou repleta de saudades. Vinha tímida como quem pede licença para invadir o seuContinuar lendo “Cada gota que caía”

Qual o sexo dos pombos?

Certo dia sentou-se no banco da praça, acendeu a metade que sobrou de seu charuto e deu algumas baforadas. Meteu a mão em um saco de papel cheio de migalhas de pão para alimentar os pombos. Deu outra baforada, e sua fumaça atribuía gentis tons alaranjados quando era refletida pelos raios do sol que estavaContinuar lendo “Qual o sexo dos pombos?”