Versos

Ciclo vicioso

É sempre o mesmo perfil
a mesma história lamuriosa
sou como um verme
que mesmo em um cadáver
diz comer da carne mais gostosa.

A minha sorte

Eu quero a sorte
de um amor confuso,
caótico, que a gente
não saiba se é amor
se é tesão e que brigue
por besteira, mas se perdoe
por uma besteira menos,
que me faça crer que ela
é a mulher da minha vida
mesmo sem achar que
valha a pena.
Que ela troque meu nome
por um xingamento
e que assim a gente viva
felizes para sempre!

A assassina do desejo

Ainda que um dia eu tenha
aquilo que sempre almejo
me dói esta ingrata certeza
como o breu rompido por um lampejo
de que por si só a presença
antes mesmo sem demora
assassina o meu desejo
e por isso mandar-te-ei ir embora.

Não importa

Eu sei que não importa
a forma como a felicidade me sorria
às vezes sou tomado pela angústia
e a tristeza da poesia que me cria
e me aperta o peito tirando as palavras certas em demasia
me seca a boca, me enche os olhos
e com sua cantiga sombria
Me amolece, ah ingrata amiga que me aquece
nesta noite amarga e fria.

Um poema sobre ela

Abraçando-me disse ter medo
de que um dia eu entrasse
em um de meus poemas e
fugisse com a mulher presente nele.
Respondi que se isso acontecesse um dia,
o poema seria sobre ela

Do que sou feito

Sou feito de paixões repentinas
sonhos arrebatadores
Assim que nasce o broto, é certo,
já me vejo colhendo as flores.

O silêncio

Às vezes o silêncio me toma
e as palavras se vão com o vento
que trazem sussurros distantes
e ponho-me a escutar atento

Às vezes o silêncio me toma
e eu perco o olhar, discituo
sinto-me tão distante de tudo
parece até que flutuo

Sozinho ou em meio a multidão
e diante dos risos me vem a apatia
Às vezes o silêncio me toma
pareço mudar de sintonia

Às vezes o silêncio…

Morena

Morena,
acharia louco o moço
que pra ti dissesse
que a felicidade carece
do cheiro do teu pescoço

Há mulheres
que são forças da natureza!
Como pode tanta beleza
sem falar de aparência?
Mas no jeito que sorri
no olhar que florí
derruba-me impotente
na onda de sua essência.

Gosto assim

Gosto assim
da tua boca
perto da minha
e aquele medo
que se tinha
aquele medo
de fazer sofrer…
tinha ido embora
naquele abraço,
naquela hora
em que éramos
só eu você

Toda poesia

Eu era a noite
Tu o dia
De alguma forma
Tu me mexia

Mas como tarde
Talvez um dia
Tu aparecia
E eu sumia

Pela janela
Você sorria
Aqui por dentro
Eu me despia

Fazia parte
Eu já sabia
Eu era Homero
Tu toda a poesia

Se eu puder amar alguém

Para o amor eu tenho
Podo o tempo do mundo
Pode ser a eternidade
Ou apenas um segundo

Pode ser de intensidade
Pode ser de conquista
Pode ser aquele amor sofrido
E também o de sonhos à perder de vista

Meu coração grita
Ouço no peito a todo momento: invista!
Para amigos, para amantes,
Para os bêbados e vigaristas

Flanadores e advindos
Poetas e vagabundos
Dividem deste meu amor
Que é capaz de amar o mundo

Por amor eu tenho
A graça que meu peito tem
Para o amor tenho a minha vida
Que só vale ser vivida

Se for dedicada a amar alguém

Aos olhos teus

Te vejo na maldita sorte
Como um pássaro expulso do ninho
Foste amaldiçoado que para todo abraço te acolha
E tu sentirás sempre sozinho

Que fizeste criatura
Que anseia por afeto
Quantos corações esmagaste
Buscando um amor concreto?

Perderá tua alma
Antes mesmo de amar novamente
Estará entregue às baratas
Embriagando-se de água ardente

Ah criatura medonha!
Desastre proposital aos sonhos teus…
Quais dos pregos pregaste na cruz
Para merecer tamanha ira de Deus?

O palhaço farsante

Um palhaço que ri
E tira de todos várias gargalhadas
Esconde atrás desse sorriso
Os cortes feitos a navalha
[Em sua própria carne farsante]

Diante da solidão, amiga do tempo
Como canta o músico no palco
A maquiagem no rosto se borra
Pelas lágrimas que escorrem no talco
[De seu rosto branco delirante]

E aquele sorriso esticado
Deu lugar a outro mais marcante
Incrédulo e desesperado
Junto ao olhar perdido e errante
[Naquelas estrelas de luz]

A solidão que dói
Por não ser proposital
Eu vi um palhaço farsante
Chorar feito um animal

[e com ele chorei]

Um palhaço que chora
Um outro que o observa e disfarça
Um palhaço que canta e chora
Um outro que o abraça
[São dois palhaços farsantes]

Entendem a dor
E trazem esse irremediável advento da perfeição
Nesta busca incansável
Maltratando o coração

[e sorrindo]

Um palhaço que some
Outro que reflete sua dualidade
A ânsia, a angústia e a tristeza
Que agora partilhada é a áspera densidade
[Ao peso que se foi com o abraço da mais ingênua verdade]

Meus versos

Há em meus versos
tamanha carga emocional
que se soubesse nem leria
quem se diz sentimental.

Ficaria deprimido
e também apaixonado
e com raiva do mundo
todo abobalhado.

Ficaria confuso,
inseguro e sem norteio.
Se soubessem porquê escrevo
nem aceitariam esse passeio.

Nas folhas deste caderno,
na tinta desta caneta,
nesse misto de incertezas,
nesta rima tão estreita.

Sarjeta

Após um charuto
preocupa o que escrevo com essa letra.
Bebo a minha cerveja
sentindo-me na sarjeta.

Sozinho e triste,
coração dividido.
Resquícios de alguma saudade
daquele amor que foi vivido.

Onde estão os meus dons?
Onde estão meus amores?
Enquanto escrevo estes versos
magoando pequenas dores

[não cicatrizadas]

Por onde anda o poeta

Pelos caminhos que passará o poeta
há uma trilha de ilusões.
Pelos caminhos que passou o poeta
há partidos corações.

Sorrisos, peles e bocas.
Sentimento, entrega, declaração.
E ainda há quem acredite
que um poeta vive sem solidão.

Todo sorriso foi dado
na intenção de resgatar o poeta.
Mulheres brigam entre si
alegando ser dele a predileta.

E o poeta passou deixando seu rastro de raiva, angústia e saudade.

Você surgiu

Desde que te conheci
sumiram os meus dilemas.
Mesmo agora bobos
como ficaram belos
os meus poemas.

Tirou férias
a minha amiga tristeza.
Estás procurando outro
nas ruas de Veneza.

Desde que te conheci
que me destes a boa proza
até o ar que respiro
agora tem cheiro de rosas.

Ancestral

Durma meu anjo,
por quantas vezes fizestes comigo?
Dormir ao meu lado para saber
se sentia-me protegido.

Quantas vezes me viu dormir primeiro
ajeitando meu cabelo e a posição do colchão?
Quantas vezes preocupou-se
e checou minha respiração?

Quantas vezes sorriu
em ver-me tão afável
e cobriu-me de forma
que ficasse mais confortável?

O papel se inverte
mesmo sem senti-lo.
Filho tornando-se pai
e pai tornando-se filho.

Espíritos errantes

Sei que por aqui vagam espíritos,
almas primas da minha.
O que querem almas penantes
nestes corredores que caminha?

Olham corpo a corpo
debruçando-se nos olhares doentes.
Invejas este coração que bate
nestes corpos velhos e decadentes?

Não façam a mim cerimônia,
os vejo em todos os cantos.
Mascaram-se por trás de detalhes
esperando sorrir pelos prantos

[de outrem]

Sondas, sangue e fluido.
Corpos vivos em decomposição.
Tosse, murmúrios, gemidos.
Olhos esbugalhados sem consolação.

Sinto-me um escroto
por ser este poeta que se nutre
da triste causa do outro
feito na carniça um abutre.

Quem dera eu antever meu destino
e cuidar-me à minha velhice
ao cultivar pelo menos alguém
que me acompanhe com alguma meiguice.

Mas a gente não aprende, não é mesmo?

Ópio

Às vezes pergunto-me
o que os escritores encontravam no ópio.
Seria desespero, talvez,
em busca de amor próprio?

Será que encontraram
a fórmula secreta
para abolir este vazio
que por vezes deixa a alma deserta?

Conseguiam fugir das palavras
e por segundos se sentiram contentes
em estar tão perto e tão longe
desta maluca gente?

Língua portuguesa

Estou cansado
da língua portuguesa.
Como pode tão difícil
escreve-la com clareza?

Todas as palavras
para mim parecem estranhas.
Escrevo pouco com as mãos
e mais com minhas entranhas.

As borboletas de minha barriga
não sabem escrever.
E eu só sei porque as sinto,
o que mais posso fazer

Sol e lua

Sol e lua
se olharam por um segundo
dividindo o mesmo céu
com todo resto do mundo.

E no resto do mundo
estava eu e ela
meus olhos grudados
nos olhos dela.

A lua o encarava
e eu a encarava
Fazendo inveja à lua
neste por e nascer
eu a beijava.

Porta retrato

Oi, bem vinda
ao meu quarto.
Por favor, ignore na parede
este porta retrato.

São águas passadas
que não passei ainda,
mas a sua chegada
é sinal que tudo finda.

Desculpe a bagunça
não tive tempo de arruma-lo,
acho que este quarto reflete minha mente
e todo o resto foi no mesmo embalo.

Este é meu quarto,
minha escrivaninha e meu livro de oração.
Bem ai onde tu sentas
é o baú onde guardo meu coração.

Você

Você foi onde nenhuma foi
e não demorou para conseguir.
Mesmo assim me pergunto:
Por que não estás aqui?

Eu queria te entender
como entendo meus poemas.
E assim te escrever
com poucas palavras apenas.

Mas nada de ti sei
se não teu beijo e como ama.
E tentando te esquecer
teu cheiro está em minha cama.

Morena preciso me afastar, corro sério risco de te amar.

Passeio na mata


Hoje,
decidi descansar minha alma exaurida.
Fui à mata,
melei os pés na lama,
fugi da vida corrida.

Deitei-me na grama,
li Leminsk,
fui ferroado por uma formiga.
Poeta que sou pensei: como doem as coisas boas da vida.

Sobre escrever

Comprei um moleskine
e uma cerveja.
Escrevi um poema
ou algo parecido.

Virei o primeiro copo,
cheirei suas folhas
e estranhamente
tudo parecia estar resolvido.

Um poema para você.


Meu poema é para você.
Para que diga que não entende
como pode tão exagerado,
como pode tão carente.

Meu poema é para que diga
à amiga adorada
que estás inquieta,
que estás assustada.

Meu poema é para você.
Minha gota de sensatez.
É meu convite para ficar.
É meu convite para ir de vez.

Meu poema é para você
achar que tudo é ledo engano.
Então vou ser lido de boca em boca
até que uma diga: eu te amo.

O jogo da conquista

Há na conquista um mistério
que nunca levamos a sério
por pressa de agir.

Perdemos suas sutilezas
nos entregamos de bandeja
até tudo se esvair.

A chama do amor
não tem em sua natureza
surgir violentamente.

Ela nasce atrevida,
mas é tão frágil e desprovida
como broto da semente.

Não devemos ter pressa em viver
e em amar.

Nem adiantar amores,
nem adiantar sofreres.
Não há nada
que não possa esperar.

Das frases que vi mais certas,
já disseram os poetas:
o que tiver de ser, será.

Eco

Por todos os lugares
tenho versos.
Poemas que não termino.

Junto um,
junto outro,
pego o começo deste,
o final de outro e rimo.

Misturo sentimentos.
Um pensamento passageiro…
Tiro-os do meu caderno,
do papel que havia esquecido no banheiro.

E é tudo tão novo,
como a primeira vez dita.
Como se obra prima fosse
antes mesmo de escrita.

Disso não tenho certeza,
mas de criatividade não peco.
Sou reflexo, sou sentimento.
Meu poema é todo eco.

Naquela noite

Naquela noite,
os pássaros que dormiam, acordaram.
E depois cantaram
como no amanhecer.

Um canto
alegrinho como dia
e a cidade que também dormia
foi à janela buscando entender.

O céu
se abriu tão estrelado
que o povo abismado
procurou explicação.

Houve
um vento tão aconchegante
que por mais que um instante
pareciam flutuar.

Era
como se algo tivesse acontecido.
— Um milagre ocorrido?
[Perguntou-se o homem de roupão.]

Naquela noite
todos os sinais fecharam
e pelas janelas todos olharam
o que acontecia logo ali.

Aquele beijo,
dois corações batendo tão forte
que Deus levou suas nuvens ao norte
e debruçou-se a observar.

Um beijo,
tão bonito e sossegado
e ao ouvir do amor seu brado
se puseram a sorrir e a sonhar.

Poema de um homem sozinho

Na praça vi um homem sozinho
vestido de saudade e graça.
Fumava um velho cachimbo,
a fumaça cinza o abraça.

Entre tantos casais felizes
ele no canto isolado.
Trazia uma tatuagem no braço,
emblema de velho soldado.

No olho a tristeza retida
buscando consolação.
No verde esbanjando a vida
que falta em seu coração.

Na praça um homem sozinho,
sozinho no banco estava.
Olhava o verde sorrindo,
o canto dos pássaros contava.

Cada melodia anotava.
Anotava em um caderninho.
Poemas da tarde na praça,
na praça de um homem sozinho.

Uma moça tão modesta

Sou um coração vadio
E na noite que faz frio
Eu te procuro para aquecer
E, no compasso da tua dança

Ao me encher de esperança
Forte volto a bater
Tu és toda a minha festa
Uma moça tão modesta
Que me ama sem saber

Que sou um coração vadio
Sou um coração vazio
Que te procura pra esquecer.

Não se pode confiar em poetas

Não se pode confiar em poetas,
eles estão sempre cheios de tudo.
Falam por letras.
Seu coração é mudo.

Não se pode confiar em poetas.
Eles estão sempre sentindo
e mesmo assim não saberás
se falam a verdade ou se estão mentindo.

Ele está mentindo.
Fala a verdade também.
Mentir não é sempre ruim
Falar a verdade, também.

Se estiver apaixonado

Se estiver apaixonado, não diga.
Não dê esse privilégio
de transformarem em dor, ferindo
teus sortilégios.

Se estiver apaixonado, mostre.
Exagerado como tem que ser.
A paixão é o começo.
É o amor florescer.

Se estiver apaixonado, aposte.
Não vai se arrepender.
E se não der certo, volte.
Para amar outro ame primeiro você.

Se estiver apaixonado, prepara-se!
Aproveite a alegria que virá.
E se for breve faça com vontade!
Para que se valha a pena lembrar.

Nunca morrerás

Tu nunca morrerás
e não é exagero meu.
Tu estarás presente em todos os meus dias
em tudo que me prometeu.

Estará em meus versos.
Estará escrita em cada linha.
Estará na escolha da caneta.
Eu te colocarei nas entrelinhas.

Tu estás no sorriso que hoje não dou,
estás no meu abraço que não é de corpo inteiro,
estás na gentileza que não é de coração,
estás na bebida que não é apenas recreio.

Está na sombra do que sou,
nos beijos que dou e nas marcas de passos na grama,
estás em minha sala, no meu quarto,
são teus gritos que ouço gemer na minha cama.

É teu rosto que vejo ao beijar de olhos fechados,
é teu abraço que sinto sem intenção,
é a saudade que rasga meu peito,
é um sonho covarde que me deixa sem chão.

Tu nunca morrerás!
Até eu morrer, até lá jamais!
Até morrer a única testemunha
da falta que teu amor me faz.

Caderno de colorir

Te comprei um caderno,
um caderno de colorir.
Lápis de cor aquarela
porque pintar te faz sorrir.

O chamei de meu coração
tu me deu o teu também
e, mesmo tardiamente,
aprendi que colorir me fazia bem.

Dediquei-me como pude
mesmo sem muita destreza
pintei todo teu coração
com o que sabia da beleza.

Várias cores alegres
compunham teu colorir,
ao te ver tão completa
esperei o meu por vir.

E tu vieste tão séria
com meu coração na mão.
Rasgaste algumas paginas
deixastes outras no chão

Disse dedicar-se como pode
mesmo sem muita destreza
me pintou pela metade
e a outra deixou à incerteza

Varias cores alegres
compunham meu colorir,
mas metade era tristeza
com vazio que deixou no meu existir.

Meu amor é um passarinho

Meu amor sempre foi um passarinho.
Te encontrei perdida, fora do ninho
te encontrei machucada, preza ao chão.
Assustada, te ofereci abrigo e atenção

Lhe dei abrigo em meu peito
Tu veio comigo, de ti cuidei
e no teu novo ninho, chegando de mansinho
abrigo encontrei.

Te vi renovar as penas,
dar teus pequenos e corajosos voos.
Te vi indo cada vez mais alto
aguardando teu breve retorno.

Com você planejei meu ninho
e com amor o sonhei.
Até que um dia tu voastes, passarinho,
e hoje de ti não sei.

Fiquei apenas com os restos de sonhos
desde aquele dia
te vi voar tão alto
que nas nuvens sumia.

Achastes teu caminho,
cega diante do horizonte a frente.
E a mim só restou saudade, passarinho,
e os planos que um dia fiz pra gente

Eu devia saber, passarinho,
que teus sonhos jamais estariam aqui no chão.
Eu devia saber passarinho
e não te entregar meu coração.

Mas te entreguei, passarinho,
de todo meu bom grado
e na ânsia de amar os céus
acabei amando errado.

Porque sou da terra, tu do ar,
e da vastidão do céu nada tenho a te dar
mas amor firme, denso e profundo como a terra, passarinho,
não irá encontrar.

Voe por onde voar.

Quem melhor que eu

Quem melhor que eu
para entender o que sinto
distinguir se falo a verdade
ou se minto?

Quem melhor para segurar o choro
diante de algo que fiz
se sou o único que tem a chave
para me fazer feliz?

Quem melhor que eu
para ouvir e entender com seriedade
as palavras que deixo no caminho
falando o que sinto pela metade?

Quem me leria mais claro
e não me deixaria sozinho?
Quem no meio da escuridão
saberia apontar o caminho?

Só eu mesmo!
o que era um desafio outrem
percebo…
a solidão me cai bem.

O primeiro cigarro do dia

Divido com as grandes árvores
minha solidão e alegria.
Diante deste grande pulmão verde
fumo meu primeiro cigarro do dia

Há nisso um estranha sensação.
Relaxo e contemplo a fumaça
dar cor cinza a todo verde
e encher meus olhos de graça.

É como me sinto agora,
na minha vida verde.
A fumaça é o tom cinza que ficou
desde o dia que me perdeste.

Me deixastes ir sem meu consentimento.
Eu não tive escolha se não aceitar.
Desde então carrego comigo esse vício
quem meu cinza interno vem materializar.

É por ti que fumo desde então
para aliviar a pressão e a tortura
ao encher-me de nicotina e cerveja
na busca incessante de sair da loucura.

É por ti que divido esta alegria
É por ti que remoo a melancolia
É por ti que adoeço
E por ti que fumo o primeiro cigarro do dia.

Deixe-me ir

Deixe-me ir
agora que encontraste teu caminho.
Levaste as flores e deixastes os espinhos.
Que por descuido me furei.

Esta dor
de quem foi jogado a própria sorte.
Tão venenoso o espinho trouxe a morte
de quem um dia conheceu.

Neste sorriso
há um vazio tão sombrio, e a neblina
Deixei cacos de minh’alma na esquina
Dos tropeços e soluços de quem bebeu

Ouça me bem
por pouco tempo tu velaste minha morte.
Onde estás o respeito que dizia ser tão forte?
Daquele que um dia foi só teu…

Se tu acreditas
que entre dois fracassos surge um amor.
Eu te desejo ser feliz aonde for,
mas por carinho vou advertir…

Que nesta vida
a roda do destino gira apenas uma vez
e não perdoa a má escolha que se fez
em negar um acerto e, partir.

Ao cupido

Vamos lá! Diga-me cupido
o que está acontecendo?
Anda de mim gozando
ou estás bebendo?

Tu me arruma cada uma,
assim minha cabeça pira!
Será que tu é estrábico?
Ou só mesmo ruim de mira?

Porra! Pega leve!
Vê se chega pertinho
Conhece primeiro,
antes de por no meu caminho

Vê se ela gosta de letras
de pequenos e sinceros elogios
Se ela gosta de abraços quentes
Nas noites em que faz frio

Vê se ela é dependente,
para me pedir que abra o pote.
E se é independente,
feito cobra que arma o bote.

Vê se ela pode acalmar
com um toque meu momento de fúria.
Vê se é serena e forte
para aguentar minhas loucuras.

E principalmente cupido,
se ela pode amar além dela mesma.
Procure alguém que ame por amar
e sendo assim, por mim, beleza.

Uma que acredite no amor.
Sei que te peço demais,
mas é pela fé que tenho
na existência desses seres especiais

Que busquem um amor real
sem enredo shakesperiano.
Um amor intenso sem igual,
humano, demasiadamente humano.

Quem é ela?

Quem é essa mulher
que traz um oásis no olhar
e o paraíso no sorriso?

Quem é ela, que nos dias mais sombrios
Ao ver o seu sorriso
Me traz paz?

Não tenho certeza
Se de fato ela esconde
Ou se é só amor para dar

Como uma peça única
Feita por Deus para guiar os marinheiros
Nas turbulências do coração

Esse sorriso é um furacão!
Capaz de despedaçar as barreiras
E falsos corações

E depois de dissolver o mal
O que é verdadeiro desfruta da paz
Contemplando este sorriso
Que Deus deixou escapar aos mortais

Hoje

Hoje, as vésperas do Natal
O dia amanheceu melancólico
Uma chuva fria caia lenta e pesada
Como a saudade que rangia os ossos

Olhou para a janela e buscou em vão no céu
um raio de sol que motivasse o salto da cama
mas nada havia naquele denso véu de nuvens cinzas
Nada além do vazio deixado pela partida de alguém que se ama

O vazio e a melancolia que um dia chuvoso traz
A saudade da ceia que hoje não irá
Da pressão que este sentimento faz na barriga
E transborda nos olhos sem parar

Não liga, fala da boca pra fora que não liga
um coração em carne viva é perigoso demais
quem sabe seja assim, um triste para o outro ser feliz
numa espera incansável de tudo passar

Isso também passará.

O mendigo

O meu teto é o céu estrelado
Minha casa não tem lugar fixo
Sou o homem de cabelo sujo embaraçado
Um andarilho de fé que não larga o crucifixo

Minha fé é o que me mantém vivo
Minha fraqueza e fortaleza
Deus talvez não me queira vivo
Mas em troca me deu a esperteza

As crianças me olham com compaixão
“Ele é um farsante!” É o que os adultos dizem aos meninos
Tiram a inocência daqueles pequenos corações
Como assim um dia foi tirado do coração do adulto malino.

Despertar pena e avareza
Repudio e indignação
Por aqueles que não compreendem a beleza
E a humildade que trago em meu coração

As ruas me esperam agora
Tenho que ir e não mais lamentar
A velha noite que me pede agora
Somente o sono em uma noite a ninar

E mesmo que desprezível seja minha aparência
Jamais levarei para o coração
Pois por ai perambulam em sua existência
Bonitos de rosto e medíocres de coração!

O cão de rua

Queria ver novamente no rosto de alguém
A alegria em me ver brincar no jardim
Mas hoje no caminho não tem
Quem me olhe com alegria e passe a mão em mim

Queria ouvir novamente da boca da criança
As palavras: “Ele é meu melhor amigo”
Mas hoje tudo passa de lembranças
De um tempo hoje não mais vivido

As lembranças mexem comigo
Na vastidão dos oceanos e dos mares
Só eu sou meu melhor amigo
Perdido na Av. Washington Soares…

A Tua Distância

Veja meu amor como estamos agora
Tudo parece que se inverteu
Hoje tuas rotinas roubam a atenção
Do que antes foi só meu

Os dias vão passando de vagar
Eu me isolando pelos cantos solitário
Imaginando o que está a fazer, será que pensa
No teu melhor namorado?

Não sei dizer se é só saudade
Que me faz desejar tanto o final da semana
Meu amor, veja só o que o tempo faz comigo
Passa lento, me tortura, me engana

Meu amor eu confesso
Bebo as vezes para matar a carência
Mas do teu amor sou tão carente
Que estou abeira da falência

Então lembra de mim meu bem
Naquele momento que tu vai pegar teu café
Lembra que só eu tenho o sabor
Sabor que só você sabe qual é

Então lembra de mim amor
Quando tiver a rir por qualquer piada cortês
Lembra quando ler um livro, quando pegar um ônibus
Lembra quanto achar um erro de português

No cheiro do café, do fumo
No gosto da cerveja
Lembra de mim quando mordiscar teus lábios ou tua língua
Da falta de ar que tu sente quando me beija

Lembra quando a garrafa ficar pela metade
Lembra quando ouvir uma história
Lembra do tempo em que ficávamos grudados
Sem ficar contando às horas

Lembra que não importa
Mesmo que me corroa por dentro
Foram muitos anos te esperando
Te espero por mais um momento

Pra te ver linda no sábado
Te ver me olhar à fumar meu cachimbo
Te ver mais linda ainda
De pijama, com cara de sono, nas manhãs de domingo

Como são feitas poesias?

Parte de mim um sentimento
Que se mostra através de palavras
Parte de mim um só lamento
Por não saírem em métricas exatas

Monóstico
Dístico
Terceto
Quarteto
Quinquilha
Ou sextilha

Apenas um monte de sentimentos empilhados
Sonhos jogados ao vento
Sonhos por eles marcados
Palavras sem métrica, mas com sentimento

Monossílabos
Dissílabos
Trissílabos
Tetrassílabos
Pentassílabos
Hexassílabos
Heptassílabos
Octossílabos
Eneassílabos
Decassílabos
Hendecassílabos
Dodecassílabos

De que adianta se não vem de dentro?
Trazendo a poesia perfeita na métrica
Mas no conteúdo sem nada de sentimento?

Emparelhada
Cruzada
Abraçada
Interpolada
Seguida

Rima pobre…

Não, não quero mais
“A poesia é a música da alma, e, sobretudo, de almas grandes e sentimentais.”
(Voltarie)

Rimas sem métrica e perfeição
“A poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão.”
(Carmen Conde)

Palavras ao vento, palavras apenas rimadas…
“A poesia é a arte de materializar sombras e de dar existência ao nada.”
(Edmund Burke)

Metalinguagem do poema

Meus poemas sempre rimaram assim:
Vez por outra o primeiro apruma e o segundo dá a rima
Então eu completo com algo relevante
E o último paragrafo o termina

Não há mistério nem segredos
É deixar fluir palavras sem se preocupar
Poesia a gente não controla
Poesia grita e sai sem a gente esperar

Eu tinha desaprendido de fato
Não a técnica, mas o sentimentalismo
Poesia é vida, é arte
Para a alma do escritor é seu metabolismo

Que queima de forma mais rápida
O turbilhão de perturbações que passa na mente
Daquele que organiza em palavras inexatas
As loucuras de qualquer demente

Por que poesia é sem sombra de dúvidas
Sob qualquer advento e por exatidão
Nenhuma palavra mágica, nada de novo
Apenas a linha que tece as histórias da alma e do coração.

Dual

Ando hoje sem propósitos
Todo nesse mundo é apenas um desgaste
Vivo vagando e me perguntando:
Pai, por que me abandonastes?

Perambulo pelos cantos
Fazendo o que sempre fazia
Encontrando o aconchego nos ombros amigos
Na velha e manjada boemia

Que propósito tenho eu
Que ainda ponho-me a indagar
Quando olhando para trás vejo tudo o que passei
Mas na frente vejo muito caminho a trilhar

Encontro-me sem rumo
Colhendo os frutos que eu mesmo plantei
Indagando-me com tom desajeitado:
Pai, por que te abandonei?

Uno minhas mãos em oração
Peço refúgio a quem não acredito
A ele mesmo, o tão famoso Deus
Ou nas garras do feroz Mefisto

Sinto vontade de repor
Meu coração que eu aposentei
Logo ali atrás do armário
Dentro de uma caixa de sapatos onde eu o coloquei

Mas que nada
Não a coragem para que isso seja feito
Sempre serei o renegado anjo de Deus
Jamais lembrado pelos seus feitos

Sou o poeta sem coração
Sem Deus o poderoso abrigo
Serei para sempre escravo de minha devoção
Pelo confuso mundo por mim escolhido.

Mais do mesmo

— Eu sei! Eu posso te sentir.
Eu posso sentir você se importar
Posso sentir sua agonia, seus gritos desesperados
Sua solidão, sua premonição e seu mais melancólico rosnar.

Porém sinto que só serei feliz desta forma
Sou do meu eu o carcereiro
Ou de parte de mim que precisa, necessita
Ser apenas um prisioneiro

— Sou um perigo, sou lindo como a lua
Singular, radical, puro
Mesmo que por assim possa me julgar
O teu prazer mais rebelde e escuro

Mantendo-me aqui trancado, inerte
Ouça meu lamento por te deixar ser feliz
Não caia meu amor no acomodamento
É apenas o nascer de outra cicatriz.

— Sei que rebelo-me contra quem mais me deu abrigo
Tu que sempre me apoiou no momento mais doloroso
Embora traga-me os vícios, o cigarro e a bebida
Sinto que não és um ser maldoso

Devo a ti minha bravura
Minha solidez e desconfiança
Mas não posso viver a vida com medo
Vida triste a que não tem esperança

— Tento acreditar que precisas novamente ser doutrinado
Só assim abrirá os olhos, meu fiel escudeiro
Hoje trilhas teu caminho sozinho e presunçoso
Por que perdi meu tempo sendo teu mais sábio conselheiro?

— Não te peço, ó criatura, compreensão
Nem sou ingrato aos caminhos que me conduz
Só que hoje vejo que és uma criatura das trevas
E eu me tornei um ser de luz

Digo que te enterrarei neste caixão amaldiçoado
Mas não me deixa, mestre, cometer nenhum pecado
Virei te visitar sempre que possível
Trarei rum e charuto como agrado!

— Se é para te ver sofrer, me deixa
E você pagará por sua atitude
Eu vejo a escuridão no fim do túnel
Este não é o fim de tua solitudine

Vá e siga sozinho, se te dei asas para voar
E não esqueça de meu agrado toda vez que vier me visitar
Eu voltarei, esperarei o tempo que for
Para ver meu perdão tu implorar
Tu és pó e ao pó voltarás!

— Não espero de ti compreensão
Nem que tentes não irá me entender
Por isso devo então de me despedir.
Nivartan, Gabriel muito prazer;

— Não!!

Pensando em Ti

Hoje acordei pensando em ti.
Tão fortemente e profundamente que quase me perdi em mim
Senti o teu cheiro e quase te beijei
Chamei seu nome baixinho
Vi assim calminho
Tudo desaparecer.

Hoje acordei pensando em ti.
Tão fortemente e claramente que não parecia uma ilusão
Vi teu rosto não ser mais apenas uma lembrança
Tenho a imaginação de uma criança
Vi assim calminho
Tudo desaparecer.

Hoje acordei pensando em ti.
Tão linda e sorridente que sabia ser uma fração
Daqueles segundos que te fiz sorrir
E de te ver assim sorrindo no fim
Foi-se aos poucos se esvaindo
Cada sombra de esperança em mim.

Hoje acordei pensando em ti
Tão verdadeiramente que me pus a chorar
Foi como causar dor no Criador para te fazer voltar
Mas sei que tudo está perdido

Meu amor para sempre será apenas algo vivido
Quando eu não dormia na calçada do bar.

Cria e Criatura

Já que não jorrava alegria
Passava a cria com quem o criava
Uma moça negra sem sorte
E seu filho que no colo mamava

Na Av. Abolição seguia lentamente
Criatura e sua cria
Grudada no peito exposto, sorria
Atrás de um leite que já não existia

O saco de pedir esmolas
Vazio como seu olhar
Acinzentado como as nuvens
Que anunciavam a tempestade chegar

Agora abraçados
Criatura e cria
Abraçados pelo frio intenso
Naquela noite que chovia

E o calor do abraço
Compensava a noite fria
Mas o frio castigava o açoite
Pela pobre cria que sorria

E quando pude olhar com atenção
Senti o lamento daquela sorte
Ao ver que a criança, meu Deus
Contemplava a própria morte

Sorrindo.

Irmãs Parcas
Anciãs lhe faço um pedido tristonho
Tece em minha vida uma linda flor de jasmim
E não mais um monstro bonito e risonho
A devorar cada pedaço do amor em mim

Neste tecido rasgado e ensanguentado
Tuas mão frias fazem dia a dia meu destino
Tece para mim neste teu gentil traçado
Ou deixa-me ser um deus, deixa-me ser divino

Trago das batalhas as cicatrizes
Tantas quimeras eu enfrentei
Tantos monstros, doenças e deslizes
Por várias vezes meu fio fino quase arrebentei

Vejo este amargo bordado
O forte cheiro do formol
Que preserva minha triste história
Narrada sempre a partir do por do sol

Irmãs Parcas detentoras do destino
Venha curar de mim esta ferida
E se não puder mostre a mim o fio fino
E corte o fio fino que tece a minha vida

Morte de Herói

Ele era apenas uma criança
Por seus sonhos que o embalava
Sonhava querer mudar o mundo
Sonhava, sonhava, sonhava…

Ele era apenas uma criança
Alimentando sua alma de idéias armadas de paz
Ele era apenas uma criança tola
Mal sabe que não chegará a ser um rapaz

Ele era apenas uma criança
Que não compreendia o quanto o mundo é desigual
Indignava-se ao ver tanta injustiça
Quando assistia um noticiário local

Ele era apenas uma criança
Quando viu uma multidão se formar na calçada
De um lado os manifestantes e revolucionários
De outro a policia armada

Ele era apenas uma criança
Quando seus pezinhos correram para manifestar também
Mas quando percebeu já era tarde
A polícia avançava como um trem

Ele era apenas uma criança
Com a cara toda amassada
Ele não resistiu, ele não resistiu
Ele não chora nem dá mais risada, não chora nem dá mais risada.

FIM

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